É perfeitamente normal no mundo do futebol um atleta não querer se desvencilhar da vida dentro das quatro linhas. Enquanto a maioria prefere abandonar o esporte quando o corpo não responde mais da forma apropriada, alguns persistem até depois dos 40. Evidentemente, o nível do jogador tem uma queda considerável, visto que ele não apresenta os mesmos reflexos dos seus bons tempos.

A verdade é que o talento faz a diferença na velhice. Romário está aí para provar isso. O baixinho parou aos 42 anos, dois a mais do que o interminável Edgar Davids. Sim, ele mesmo, aquele holandês carisma dos óculos escuros, que botou um ponto final em sua trajetória dentro de campo. Mas pera aí, ele já não estava aposentado? Dos holofotes, sim, da labuta, não. A verdade é que ele não atua em nível decente desde 2008, quando saiu do Ajax.

Pois bem, até ontem, estava lá o polêmico meia na quinta divisão inglesa, pelo Barnet. Nossa, mas deve ser mesmo deprimente chegar a esse ponto, não? Não. Engana-se quem pensa que foram dois anos tediosos na carreira do meia nascido em Paramaribo, no Suriname. E esse frenesi é tão grande que Davids resolveu pendurar as chuteiras depois de uma série de três expulsões em oito jogos. Nem o carniceiro Vinnie Jones fez algo parecido nos anos 90, quando foi o terror dos adversários na Premier League. Capitão, treinador e líder do Barnet em campo, Edgar não se acanha em chiar mais do que sal de fruta quando discute com os árbitros.

Desde que chegou ao clube de Londres, em 2012, Davids acumula histórias curiosas. Em seu segundo ano como jogador-treinador dos Bees, o holandês já experimentou ser o herói e o vilão como grande estrela do Barnet. Apesar do rebaixamento na última temporada, o causo mais icônico de Edgar nesta passagem foi um ato nobre: ele socorreu um grupo de 36 torcedores após uma derrota de seu time na Conference League. A essa altura, o Barnet já lutava contra o descenso e Davids foi expulso quando viu seus colegas perderem para o Accrington Stanley por 3 a 2. Na volta para casa, a caravana ficou na estrada graças a uma falha no ônibus que os levava até o local da partida. Daí então, o treinador/jogador/homem do dinheiro solicitou que o motorista do ônibus do Barnet deixasse todo o plantel num posto de gasolina e voltasse para pegar os torcedores, abandonados na chuva. Feito isso, ele ainda pagou um café para cada um deles. Surreal, não?

Marrento, Edgar veste a camisa 1 do Barnet, querendo começar uma tendência de meio-campistas com este número, tradicionalmente usado por goleiros. Para alguém que nunca ficou longe de polêmicas, não foi nenhuma surpresa quando o holandês anunciou no último sábado que estava deixando o futebol. A justificativa de Davids para a aposentadoria definitiva aos 40 anos de idade é uma suposta perseguição por parte da arbitragem.

Aos jornais locais, ele declarou que é um alvo dos juízes e não quer mais jogar pois eles estão tirando toda a sua diversão: “Sei que estão nos perseguindo. Não consigo pensar por mais quantos jogos seremos prejudicados por decisões estranhas. É ridículo! Sou um alvo sim, se vocês olharem os meus cartões vermelhos, vão ver que alguns foram exagerados. É difícil fazer seu trabalho quando muitas decisões vão contra você”, esbravejou após levar dois amarelos na derrota para o Salisbury por 2 a 1.

Registrado o chororô, fica difícil defender Davids, que é o rei da modalidade dos dois cartões amarelos por jogo na liga. É melhor ele ficar no banco, só dando ordens, será menos problemático. Apenas três pontos separam o Barnet da zona dos playoffs de acesso na Conference League. Ainda dá pra chegar lá, professor. Tente se acalmar um pouco nos próximos jogos…