O reserva que decide até parece uma entidade mística do Grêmio. E não ia falhar justamente em uma final tão ansiada pelos tricolores. Na grande chance de buscar o tri da América. Na conquista que acabaria de uma vez por todas com as penúrias vividas desde a virada do século. César e Aílton já tinham se tornado eternos no Olímpico. Restava saber quem ia ser, a partir da escolha de Renato, o primeiro a se sublimar entre os gritos desatados e a fumaça dos sinalizadores na nova Arena. Eis que, aos 27 do segundo tempo, quando a plaquinha subiu indicando a entrada de Cícero, para muitos esta dúvida de dissipou. Ou apenas aumentou, quando Jael, dois minutos depois, também saiu do banco de reservas. Um trazido apenas para a Libertadores, sem poder atuar no Brasileirão. O outro, malhado por não ter cumprido o seu ofício de básico de marcar gols uma vez sequer nos 17 jogos que disputou com a camisa tricolor. A seca continua. Mas foi a cabeçada do Cruel que permitiu Cícero estufar as redes em triunfo.

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Coincidência ou não, e nessa os gremistas preferem bater na madeira, o primeiro trabalho em conjunto entre Cícero e Renato Portaluppi teve um de seus atos finais na decisão da Libertadores de 2008. Mas não só pela negatividade. O jovem meio-campista, então com 23 anos, era um dos homens de confiança do treinador no Fluminense. Uma das peças do xadrez que fez a diferença no Maracanã, contra a LDU. O meia terminou recuado à cabeça de área, para que Dodô entrasse e ajudasse a comandar a reação dos cariocas. E apesar de todos os pesares que aquela derrota deixa sobre os tricolores, Cícero foi justamente o único a dar um alento na marca da cal, convertendo o solitário gol na disputa por pênaltis em que os principais medalhões falharam. Semanas depois, arrumaria as malas, transferido ao Hertha Berlim. Passaria quase uma década sem trabalhar de novo com Renato.

As idas e vindas de Cícero desde então foram grandes. A passagem pela Alemanha teve certo sucesso. Voltou ao Brasil e fez o seu serviço no São Paulo, no Santos, novamente no Fluminense. Mas os últimos anos não pareciam nada promissores, desde que retornou do Catar. O seu salário era alto demais para o que vinha rendendo nas Laranjeiras. O São Paulo levou de volta, mas seu nome estava mais envolvido em imbróglios do que efetivamente em boas coisas dentro de campo. E depois de passar um tempo treinando separado e encerrar o seu contrato no Morumbi, aconteceu o reencontro com Renato. O treinador que já havia bancado tantos medalhões nesta Libertadores confiou em mais um. Cícero tinha a chance de redenção, mesmo já estourando a cota de jogos no Brasileiro. Teria que aproveitar a oportunidade.

Quando Cícero foi apresentado, muitos gremistas se perguntavam qual a real necessidade do meia. Embora tenha reduzido seu salário, não deixa de ser um jogador caro para disputar (literalmente, no máximo) meia dúzia de jogos até o final do ano. Além disso, vinha para um setor no qual opções não faltavam ao Grêmio. Não seria a primeira alternativa no meio e nem de longe disputaria espaço com os volantes. Mas Renato, obviamente, apostava em suas virtudes. Sobretudo, na presença de área que nenhum outro meio-campista tricolor consegue ter e que já rendeu tantos gols na carreira do capixaba. Que, em instantes de tensão na Libertadores, poderiam valer muito. E valeram.

Contra o Barcelona, por duas vezes, Cícero entrou no lugar do centroavante – seja para segurar o jogo ou aproveitar as brechas nos minutos finais. Já nesta quarta, mais uma vez, foi coringa de Renato em uma final de Libertadores. Substituiu Jaílson, às portas de ser expulso, e entrou como volante. Era quem se responsabilizava pela saída de bola em um momento no qual o Grêmio tinha muita, mas muita pressa de marcar um gol. Mas o veterano também sabe os atalhos da área. Possui um senso de antecipação privilegiado, que não é segredo. Seu posicionamento foi adiantado pouco depois. E quando Jael escorou aquele cruzamento de Edílson, que vinha lá da intermediária, bastou ao camisa 27 se meter na rara fresta deixada pela defesa do Lanús. Para arrematar na saída de Andrada e sair correndo sem destino na comemoração. Para ser um pouco César, um pouco Aílton, quem sabe eterno.

Mas para os planetas se alinharem na final da Libertadores, para o improvável se tornar óbvio ululante, Renato precisou colocar outra carta na mesa. Outro de seus chegados. Outro negócio, este sim, muito mais enxovalhado pelos gremistas. Jael, que de crueldade em Porto Alegre só havia mesmo matado de raiva os pobres torcedores por seus gols perdidos e suas caneladas na bola. Com uma carreira de andarilho, nunca foi um artilheiro implacável e rodou pelos quatro cantos do país sem nunca fincar bandeira. Sendo bonzinho, dá para considerar os seus feitos pela Série B ou em estaduais. Nada que impedisse Renato de trazê-lo para sua asa, como uma alternativa a Barrios.

“Foi meu jogador no Bahia e sempre faz gols. É importante ter no mínimo dois atletas por posição. Eu consigo recuperar jogadores, eu sei fazer isso. Vou o ajudar o Jael. O meu trabalho dá resultado”, declarou o treinador, para explicar a contratação do camisa 9. Este “sempre” pode ser analisado de maneira bastante relativa. E ganha outra interpretação depois do que aconteceu nesta quarta. Uma versão libertadora e de sangue latino do que foi português Éderzito em 2016.

Afinal, Jael é um centroavante grosso. E não entenda esse “grosso” como depreciação ou menosprezo, mas como uma característica. O grosso, além dos erros de fazer qualquer um arrancar os cabelos, também é aquele que sabe o tamanho de suas limitações e entra em campo para brigar por cada bola. Era isso que um jogo amarrado como o da Arena pedia – ainda mais com o Grêmio deixando claro que sua alternativa vinha pelo alto, ainda mais com Lucas Barrios já esgotado e pouco efetivo. Os tricolores precisavam se agarrar a mística e ver no que dava. Justamente por não confiarem nada em Jael, é que podia se devanear qualquer coisa.

Os nervos com o atacante podem ter estourado logo em sua primeira tentativa, chutando para o gol quando poderia servir algum companheiro melhor posicionado, em bola na qual Andrada defendeu em dois tempos. Mas não dá para negar a sua importância naquele lançamento de Edílson. Em usar a força, a altura e, vejam só, a clarividência de consagrar Cícero com aquele gol. Depois desta quarta, já são 18 jogos de seca desde que chegou ao Grêmio. Aos tricolores mais supersticiosos, agora tudo parece propósito. Uma provação, enfim, recompensada pelos matreiros deuses da bola. E ele poderia ter feito mais, se aquele reclamado pênalti fosse anotado pela arbitragem. Além da presença de área, o camisa 9 contribuiu bastante pela maneira como desestabilizou os argentinos nos minutos finais – embora tudo pudesse descambar a uma confusão maior.

Na saída de campo, Cícero resumiu muito bem os sentimentos, por mais vago que isso pareça: “Não sei se rio ou se choro”. Rir ou chorar também pareciam os únicos caminhos possíveis para alguns torcedores, diante das contratações que não traziam lá muitas esperanças na Libertadores. Rir ou chorar é a indecisão dos gremistas depois de tudo o que aconteceu neste primeiro jogo da final. E esperam que continue assim até o reencontro em La Fortaleza. Que não saibam se vão rir euforicamente pela glória ou se chorarão desenfreadamente em desabafo pela reconquista que, depois de longa jornada, acontecerá. Se acontecer mesmo, a improbabilidade de Cícero e Jael garante ambos no panteão tricolor graças a um rompante. Um rompante que significa 22 anos.