Hillsborough nunca foi esquecido e, justamente por isso, as vítimas foram inocenadas (Foto: AP)

Por que Liverpool rejeitou a culpa por Hillsborough até revelarem a (real) verdade

Foram 23 longos anos. Por todo esse tempo, os torcedores do Liverpool precisaram viver com a culpa de terem matado seus colegas, amigos e parentes. Esse sentimento não estava dentro dos seus corações, mas carregado no discurso de pessoas que reproduziam a versão de que a responsabilidade pelo desastre de Hillsborough era deles. Seja por acreditarem nas autoridades ou por simples provocação.

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Mesmo naquela época, havia elementos suficientes para contestar a história de que o hooliganismo havia contribuído diretamente para a tragédia. O relatório do Lorde Peter Taylor, responsável pelo inquérito e por diversas recomendações que mudaram o futebol inglês, exonerou a torcida de culpa. Concluiu que as causas principais foram a estrutura precária do estádio e o despreparo da polícia. Mas, diante de todo aquele contexto de violência, e com um preconceito histórico contra os liverpudlianos, a opinião pública comprou a história falsa. E uma vez que ela se decide, não admite voltar atrás.

Apenas em setembro de 2012, as famílias das 96 vítimas conseguiram um pouco de paz de espírito. Um relatório do Painel Independente de Hillsborough concluiu que 164 depoimentos foram alterados para culpar os torcedores do Liverpool. A mudança de percepção pode ser representada pelos pedidos de desculpas do primeiro-ministro britânico David Cameron e do tablóide The Sun, autor de uma reportagem, quatro dias depois da tragédia, acusando a torcida de selvageria. Mesmo naquela época, o Liverpool Echo rebateu com uma capa muito incisiva. Tudo muito bonito, mas ainda falta responsabilizar os culpados.

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“O sistema da Inglaterra preferia que Liverpool não existisse”, afirma Daniel Hunt, 39 anos, torcedor fanático do Liverpool e DJ da final da Liga dos Campeões de 2005, entre o seu clube e o Milan. “É preciso entender o preconceito com Liverpool. Não é uma cidade inglesa comum. Tem muitos irlandeses, imigrantes de vários lugares do mundo, é muito esquerdista. Liverpool sempre foi um pé no saco do sistema britânico. Quando houve as mentiras, aquela propaganda, já havia um preconceito. Havia a reputação de (moradores da cidade) serem criminosos, maliciosos. Não explica o que vimos, mas explica um pouco a hostilidade e como isso foi facilmente aceito. Era a confirmação.”

Uma cidade que nunca esquece
No último jogo antes do aniversário de 25 anos, contra o Manchester City, 96 cadeiras ficaram vazias em Anfield Road (Foto: AP)

No último jogo antes do aniversário de 25 anos, contra o Manchester City, 96 cadeiras ficaram vazias em Wembley (Foto: AP)

Liverpool tem uma tradição de ser diferente do resto da Inglaterra. Era um dos portos mais importantes da região – o Titanic foi registrado lá, embora tenha saído de Southampton, no sul – e porta de entrada de tudo que vinha dos Estados Unidos. As notícias e novas modas da América sempre passavam pela cidade antes de se espalharem pelo resto do país. Naturalmente, a mentalidade da população da região é mais aberta a novidade e mais progressista.

Liverpool é trabalhista “até o osso”, segundo Anna Carolina Fagundes, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de East Anglia, em Norwich, chegou a ser a “segunda cidade do Império Britânico” e até a superar Londres em certo momento. Foi pioneira em inovações de saúde pública e reformas sociais. Na cultura, foi casa dos Beatles, banda que revolucionou o rock.

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Só que nem tudo são flores porque a distância para a capital isolou a cidade da região mais importante do Reino Unido. Para um país com dimensões continentais como o Brasil, 370 quilômetros podem parecer pouco, mas na Grã-Bretanha é muito mais tempo de estrada do que um cidadão inglês comum costuma encarar. Nos anos 1960, esse trajeto era realizado em seis ou sete horas. As notícias demoravam para chegar, e Liverpool criou uma cultura própria. Também criou um distanciamento ideológico com Londres.

“Liverpool fazia coisas diferentes”, conta Anna Carolina Fagundes. “Londres é um país em si mesmo. O governo fica lá, tudo fica lá. E os caras de Londres veem Liverpool como caipira. Eles têm sotaque próprio, cultura própria, comida própria. Mesmo depois dos Beatles e do rock and roll britânico, há a imagem de que tudo para cima é caipira. Então a primeira reação foi: os caipiras estão se matando, dane-se. Quando as notícias começaram a chegar, viram que foi um pouco mais sério.”

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Uma característica que o povo de Liverpool adquiriu de toda essa história foi um senso de comunidade muito grande. “Eles têm uma cultura de se ajudar. Quando tem alguma desgraça, a cidade se une”, continua. Por isso, não vemos hostilidades em relação a Hillsborough dos torcedores do Everton – elas vêm, por exemplo de alguns fãs de caráter contestável do Manchester United. Os liverpudlianos que vestem azul, por outro lado, homenageiam as 96 vítimas tanto quanto os que preferem vermelho. Às vezes, até mais.

“Quando fizeram um tributo a Hillsborough ano passado, dissemos: ‘quer saber? Fizeram um melhor que o nosso”, brinca Hunt, integrante do lado vermelho da cidade. Na época do relatório, em 2012, o Everton fez uma das homenagens mais bonitas. Antes de enfrentar o Newcastle, os nomes de todos os mortos foram mostrados no telão, ao som da balada “He ain’t heavy, he’s my brother”. No gramado, os gandulas usaram uma camisa com o número 96 nas costas, e os mascotes entraram em campo de mãos dadas. Um com o uniforme do Everton e o número nove. Outro com as cores do Liverpool e o número seis.

Umas da homenagens mais bonitas veio do rival Everton (Foto: AP)

Umas da homenagens mais bonitas veio do rival Everton (Foto: AP)

O Everton nunca permitiu que o rival caminhasse sozinho e essa bondade foi reconhecida pelo Liverpool. Esta semana, a televisão oficial do clube vermelho publicou um documentário que fala justamente de como os torcedores do Everton foram essenciais para as pessoas superarem a tragédia. Porque, antes de escolherem um time para amar, aquelas 96 pessoas eram cidadãs de Liverpool. “A rivalidade é dividida pela metade, não há famílias completamente Liverpool ou Everton e a relação é de solidariedade, absoluta solidariedade”, confirma Hunt.

Os moradores de Liverpool também têm uma memória de elefante. Ou, em outras palavras, uma persistência inexorável, que algumas pessoas também podem chamar de teimosia. “Eles são firmes. Nunca esquecem e não permitem que você esqueça. Nunca. Insistem, insistem e insistem”, reforça Anna. De certa forma, isso explica por que o The Sun, tabloide de maior circulação na Inglaterra, até hoje é boicotado pela população da cidade.

Não compre o The Sun

Em 19 de abril, o jornal publicou a histórica capa com “A Verdade” sobre a tragédia, acusando os torcedores de urinarem nos “bravos policiais”, baterem em médicos e roubarem os mortos. A história foi disseminada pelo The Sun, mas não surgiu dos devaneios de um repórter entediado ou do desejo de fazer maldade de um editor. Surgiu de South Yorkshire, condado que abriga Sheffield e Hillsborough.

Mais especificamente, da White News Agency. As informações foram coletadas em reuniões ao longo de três dias entre membros da agência e vários policiais, além de entrevistas com o deputado conservador Irvine Patnick e a secretária da polícia de South Yorkshire, Paul Middub. Patnick baseou-se em conversas com oficiais da lei na própria noite do desastre, quando eles estavam, obviamente, muito abalados.

O jornal acusou os torcedores do Liverpool de selvageria. Depois, desculpou-se (Foto: AP)

O jornal acusou os torcedores do Liverpool de selvageria. Depois, desculpou-se (Foto: AP)

A White News Agency disse que montou a história depois de alegações “não solicitadas” de “pessoas do alto escalão” da polícia de South Yorkshire para “parceiros da agência”. Também contou com quatro fontes anônimas da polícia e a entrevista com Patnick. Mais longe da redação do The Sun, no leste de Londres, apenas se a notícia tivesse saído da Zimbabue.

Todas essas informações estão no relatório do Painel Independente de Hillsborough, que teve acesso a documentos secretos e, de uma vez por todas, inocentou os torcedores de qualquer culpa. O editor da época pediu desculpas, uma nova capa com “A Verdade Real” foi publicada, mas nada disso aplacou a fúria que os moradores de Liverpool ainda nutrem pelo Sun. Qualquer um que ceder entrevista para o jornal fica marcado para sempre – afinal, eles nunca esquecem.

“É um dos mais bem sucedidos boicotes que eu já vi”, afirma Daniel Hunt, citando uma exclusiva do ex-jogador e técnico do clube Graeme Souness para o Sun e outros casos parecidos. “(Michael) Owen fez algo para o News of The World (da mesma companhia) e qualquer simpatia por ele evaporou. Tenho amigos músicos que cometeram o erro de falar com o Sun e qualquer simpatia dos torcedores do Liverpool foi embora para sempre. O que o Sun fez foi tão poderoso que até hoje persiste. Torcedores do Manchester United ainda cantam: ‘você matou seus próprios torcedores’.”

O relatório também confirmou que 164 depoimentos foram alterados, 116 deles alterando ou removendo comentários desfavoráveis à polícia de South Yorkshire. Os policiais eram aconselhados a não usarem palavras como “caos” para descrever o que aconteceu (se usassem, o termo seria deletado) e a evitarem críticas aos seus colegas em cargos mais altos da corporação.

Faça o que quiser em Liverpool, mas não compre o The Sun (Foto: AP)

Faça o que quiser em Liverpool, mas não compre o The Sun (Foto: AP)

Isso tudo foi feito com a conivência do governo britânico, muito bem relacionado com a polícia daquele condado. Entre 1984 e 1985, houve uma greve muito importante dos mineiros, motivada pela decisão de Margaret Thatcher de fechar algumas minas. “Eles pararam tudo”, diz Anna Carolina. “Fizeram uma guerra de nervos. Quem ia ceder primeiro: a Thatcher ou eles. Quando viram que não ia ter jeito, tiveram que decretar o final da greve, derrotados, mas houve abuso policial.”

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Um dos episódios mais marcantes foi a Batalha de Orgreave. Nesse confronto, 51 manifestantes ficaram feridos e 93 foram presos. Em 1987, a polícia de South Yorkshire foi condenada a pagar £ 400 mil de indenização por agressões e prisões irregulares. Mas na época, também há suspeitas de alterações de depoimentos e nenhum policial foi punido. “A polícia de South Yorkshire foi o exército do governo para derrubar isso. Quando estava rolando a greve, muitos policiais foram implicados, mais de 120 depoimentos foram alterados. A polícia de South Yorkshire e o governo ajudavam um ao outro, definitivamente”, afirma Hunt.

Justiça para os 96

Com a honra das vítimas inocentada, as famílias agora buscam responsabilizar os culpados por Hillsborough. Uma das coisas mais importantes nesse sentido seria derrubar a limitação das evidências até às 15h15 do dia 15 de abril de 1989. O Coroner* do caso definiu que todas as pessoas que morreram sofreram lesões fatais antes desse horário, e a decisão dele foi aceita pela Suprema Corte. Isso significa que todos os depoimentos e provas a partir de então não podem ser consideradas legalmente.

*Coroner, um cargo que data desde os tempos medievais, é uma espécie de oficial de justiça e médico legista em uma única pessoa. Ele define jurisdição e quando deve ser aberto um inquérito para procurar a causa da morte. Também fiscaliza as investigações de grandes desastres, como Hillsborough

“Assim que isso for removido, elas podem responsabilizar alguns dos policiais. As pessoas podem ser consideradas testemunhas de novo, suspeitos de novo. Esse inquérito deveria criar uma série de consequências, mas as pessoas estão esperando aposentar-se e que isso vá embora”, diz Hunt. “Já há o suficiente de evidências de corrupção, de alteração de evidências, mas todos estão preocupados que vão encontrar outra forma de fechar isso. A esperança é que isso tudo está claro agora, em domínio público.”

Há duas linhas simultâneas sendo perseguidas pelas vítimas. Um novo inquérito para registrar precisamente como a tragédia aconteceu, mas sem culpar ninguém. “É para descobrir quantas vítimas poderiam ter sido salvas se os serviços de emergência tivessem respondido melhor. As famílias acreditam que mais de 40 (41, segundo o relatório do Painel) poderiam sobreviver”, explica o repórter Steven Philip Graves, que cobre o caso diariamente para o jornal Liverpool Echo.

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Paralelamente, há dois processos criminais para tentar responsabilizar os culpados. “Estamos longe de alguma coisa ser resolvida. O inquérito pode demorar até um ano e as investigações podem ir a julgamento por muitos e muitos anos. Mas para as famílias, isso é positivo, as coisas estão avançando, depois de tantos anos sendo ignoradas Elas também pensam que seus entes queridos finalmente estão conseguindo a dignidade que merecem”, completa.

Todas as famílias estão dando depoimentos sobre cada uma das pessoas que morreram. Um esforço notável de um grupo de pessoas que por 23 anos mantiveram a resiliência e a determinação de limpar o nome dos seus parentes e amigos. Tanta gente unida por tanto tempo não é algo comum. “As pessoas disseram por anos: ‘por que você não supera isso?’, mas é para dignificar a morte deles, dignificar a vida deles. As pessoas falavam sobre o que aconteceu e diziam que era teoria da conspiração. O prefeito de Londres (Boris Johnson) escreveu um texto chamando Liverpool da cidade da autopiedade. Eu acho que nós somos um pouco predispostos a falar sobre injustiça porque houve muitas delas, não estamos inventando coisas”, enfatiza Hunt.

Não há possibilidade de a cidade que nunca esquece deixar essa história para lá. Foi justamente a insistência das famílias que conseguiu reverter o senso comum de que a morte daquelas 96 pessoas havia sido um ato de hooliganismo. Agora, ainda resta responsabilizar os culpados e dar um golpe em uma prática corriqueira do governo britânico de acobertar os erros da polícia, que não acabou com Hillsborough. Recentemente, houve um caso parecido com a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes.

Enquanto isso as famílias vão seguindo as suas vidas, com esperança nos corações, com a lembrança de Simon Bell, Carl Brown, Paul Clark, Sarah Hicks, Gary Collin e todos que se foram gravada na memória e com uma pequena ajuda dos seus amigos, como tantas vezes cantaram os quatro filhos mais ilustres de Liverpool.