A torcida do West Ham estava cheia de esperança em 10 de maio de 2016. Foi há pouco mais de um ano, mas, para os Hammers, já parece ter sido há uma eternidade. Comandados por Dimitri Payet, o clube despedia-se de Upton Park vencendo o Manchester United, um dos últimos atos de uma campanha em que brigou por vaga na Champions League e chegou em sétimo lugar na Premier League.

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Estava tudo no lugar para que o West Ham desse um salto para o patamar seguinte: competição europeia, um técnico carismático e talentoso, um elenco com bons jogadores e um craque, apelo popular e um novo estádio que traria rendas maiores. Mas um dos projetos mais promissores da Inglaterra ruiu, e, nesta segunda-feira, o comandante Slaven Bilic foi atirado para fora do navio.

A demissão de Bilic é apenas a última consequência, e talvez a mais simbólica, da demolição acelerada desse sonho do West Ham, que está na zona de rebaixamento, depois de ter sido goleado pelo Liverpool em um Estádio Olímpico centenas de vezes mais frio do que o Boleyn Ground, sem líderes técnicos no elenco, depois da deserção da Payet, com falhas táticas escancaradas e contratações que frustraram as expectativas.

A queda do croata não surpreende. Desde a primeira rodada, parecia o treinador mais fragilizado da Premer League, graças às decepções da temporada anterior. Conseguiu se segurar com vitórias esporádicas, como a impressionante virada contra o Tottenham na Copa da Liga Inglesa. Mas resultados ruins principalmente contra equipes que deveriam ter sido batidas, como Brighton e Crystal Palace – este último depois de ter aberto 2 a 0 – foram pesadas demais para que ele se mantivesse empregado. A goleada para o Liverpool foi apenas a gota d’água.

Contratações

Chicharito Hernández, do West Ham (Foto: Divulgação)

O West Ham soltou quase € 130 milhões para contratar jogadores desde a janela de verão do ano passado. Lanzini foi um bom achado, André Ayew tem feito o seu papel, mas a maioria decepcionou. Sofiane Feghouli parecia uma boa aposta. Não foi e já deixou o clube. Simone Zaza e Jonathan Calleri não deram certo. Snodgrass foi comprado no pânico para substituir Payet e também já foi repassado.

Da última leva de reforços, poucos se salvam. Marko Arnautovic foi comprado por € 22 milhões, uma das contratações mais caras da história do clube. Era a aposta, muito arriscada, de encontrar um novo Payet. Joe Hart não passa mais a mesma segurança de quando surgiu no Manchester City como um grande goleiro, e Chicharito, a grande esperança de gols, marcou apenas quatro vezes até agora.

A culpa neste aspecto é compartilhada entre Bilic e a diretoria. O técnico croata queria muito William Carvalho, do Sporting, e não conseguiu. Além disso, foi acusado por um dos presidentes do West Ham, David Sullivan, de ter recusado alternativas. “Krychowiak e Renato Sanches foram oferecidos ao treinador, antes de suas transferências para outros clubes, mas ele nos disse que estava feliz com o elenco que tinha”, disse, no começo de setembro.

Estádio

Arquibancadas vazias no Estádio Olímpico (Foto: Getty Images)

O Upton Park, no leste de Londres, tinha uma das atmosferas mais quentes do futebol inglês, com suas bolhas de sabão e cantos que ecoavam pelas arquibancadas. O Estádio Olímpico está o mais distante disso possível. Um estádio maior, com arquibancadas mais afastadas do campo, e sem ligação sentimental com a torcida, que sente que o clube vendeu a sua alma ao mudar de casa.

Isso se refletiu na goleada do Liverpool: a 15 minutos do fim do jogo, milhares de pessoas já haviam deixado seus assentos e ido para casa. Andy Carroll não gostou. “Eles realmente deviam ter ficado. Têm que ficar até o fim. Você nunca sabe o que vai acontecer”, afirmou o atacante inglês, lembrando a virada sobre o Tottenham, pela Copa da Liga Inglesa – em Wembley.

Mas os torcedores do West Ham têm poucos elementos para se sentirem esperançosos com os jogos do time em casa. Nesta edição da Premier League, já são três derrotas em cinco rodadas. Na temporada passada, foram oito derrotas, quatro empates e apenas sete vitórias como mandante, a 16ª pior campanha em casa da liga. Contraste muito claro com a força do Boylen Ground no sétimo lugar de 2015/16, quando os Hammers foram o sétimo time que somou mais pontos em seus domínios.

Pior do que perder em casa é ser humilhado em casa: o West Ham já levou 5 a 1 do Arsenal no Estádio Olímpico; já levou 5 a 0 e 4 a 0 do Manchester City no intervalo de um mês; e agora sofreu mais uma goleada, para o Liverpool, por 4 a 1, só um pouquinho melhor do que o 4 a 0 do último mês de maio, para o mesmo adversário.

Dimitri Payet

Payet, do West Ham (Foto: Getty Images)

A principal decepção dos últimos anos do West Ham foi a saída de Dimitri Payet. Depois de um primeiro ano magnífico, o meia-atacante francês teve um semestre de baixo desempenho e, no último mês de janeiro, recusou-se a jogar para forçar a saída para o Olympique Marseille. Bilic perdeu sua principal fonte de criatividade e de gols: Payet havia marcado 15 na temporada do sétimo lugar.

Além dos desgastes internos que isso causou, enquanto o futuro do jogador era decidido, houve uma perda técnica muito grande. Os potenciais substitutos – Snodgrass, mais uma contratação de pânico para o restante da temporada do que de fato uma aposta, e Arnautovic – não passaram nem perto de demonstrar a classe e a habilidade de Payet.

Defesa

O primeiro gol do Liverpool no Estádio Olímpico foi o pesadelo de muitos marcadores da Inglaterra: Mané e Salah, dois velocistas, correndo sem marcação contra um único jogador do West Ham. Alguém da comissão técnica do clube londrino deveria saber que o contra-ataque vermelho seria letal e, mesmo assim, no primeiro tempo, depois de uma jogada de escanteio, com o placar empatado, lá estavam Mané e Salah contra-atacando com muita liberdade.

O segundo gol também foi complicado: Matip apareceu livre, no meio da pequena área, para completar jogada de escanteio. E nos outros dois, tanto Oxlade-Chamberlain quanto Salah estavam livres pelas pontas da grande área, enquanto os defensores do West Ham se aglutinavam pelo meio.

A fragilidade defensiva é a principal crítica sendo feita ao trabalho tático de Bilic – sexta pior defesa da última Premier League e a pior de todas na atual edição, com 23 gols sofridos em 11 partidas. Mesmo tendo alcançado bons resultados com três zagueiros na última temporada, o croata voltou a apostar no 4-3-3, ou variações dele, apesar de não ter contratado um bom volante de contenção para equilibrar o meio-campo. Contra Tottenham, Crystal Palace e Liverpool, o West Ham voltou à trinca na defesa, mas já era tarde demais.

Físico

Uma análise do site Physio Room coloca o West Ham como o segundo clube que mais sofreu com lesões na última Premier League: 82, três a menos que o Sunderland. Dessas, 42 afastaram o jogador por pelo menos duas semanas. Os Hammers foram os líderes de lesões de média ou alta gravidade. No total, Slaven Bilic ficou com peças do seu elenco no estaleiro durante 2.192 dias na última temporada, marca superada apenas pelo Sunderland (2.265) e o Hull City (2.289).

Outros dados interessantes mostram que o West Ham é o time que menos distância correu na atual temporada da Premier League e o que menos deu piques. “Muitas vezes você nem precisa das estatísticas para sentir o jogo. Muito raramente elas não são parecidas com o seu sentimento. Especialmente em casa, nossos números de corrida não são o que deveriam ser”, admitiu Bilic, duas semanas atrás.

As atenções voltaram-se para o principal preparador físico do clube, o croata Miljenki Rak, que já tem 70 anos. De acordo com o Telegraph, a diretoria propôs a contratação de um profissional da área mais jovem para auxiliá-lo, mas Bilic vetou. Dentro do clube, também haviam pessoas insatisfeitas com o regime de treinamento do croata que, na opinião delas, era leve demais. Por exemplo, os jogadores receberam folga depois de serem goleados pelo Liverpool.