Marinho Chagas, ídolo do Botafogo

Cinco histórias para se lembrar de Marinho Chagas, tão craque quanto polêmico

No último sábado, Marinho Chagas estava em uma reunião de colecionadores de figurinhas da Copa do Mundo dando autógrafos, tirando fotos e esbanjando a simpatia que sempre fez parte da sua personalidade quando passou mal. Foi internado e morreu, na madrugada deste domingo, em João Pessoa, vítima de uma hemorragia no estômago, tão mal tratado pelo excesso de bebida alcoólica que o ex-lateral esquerdo consumiu em 62 anos de vida.

Leia também: Yeso Amalfi, o Deus do Estádio, um boêmio e a paixão de muitas mulheres

Com a bola nos pés, Marinho Chagas era um lateral esquerdo destro, um defensor que sabia atacar muito melhor do que defender, uma contradição ambulante, que também ajudava a construir um personagem dos mais ricos do futebol brasileiro. Era mulherengo, bonito e muito preocupado com a própria aparência. Como Garrincha, foi ídolo do Botafogo, entre 1972 e 1976, era irreverente e sucumbiu ao álcool, principalmente depois de parar de jogar. Ano passado, ficou dez dias internado em Natal por causa de uma hemorragia intestinal.

Sua carreira começou no potiguar ABC, em 1969. Passou pelo América de Natal e pelo Náutico antes de chamar a atenção do Botafogo. No seu primeiro jogo com a camisa alvinegra, desafiou Jairzinho e deu um chapéu em Pelé, dois indicativos claros de que hierarquia e idolatria não eram palavras muito frequentes no seu vocabulário. Também defendeu o Fluminense antes de se transferir para o New York Cosmos, dos Estados Unidos, e se juntar a Pelé, Carlos Alberto Torres e Franz Beckenbauer.

Passou pelo Fort Lauderdale Strikers, São Paulo, Bangu, Fortaleza, novamente pelo América-RN, e pelo Los Angeles Heat, antes de se aposentar, em 1988, no Harlekin Augsburg, da Alemanha. Uma carreira longa e cheia de histórias deliciosas. Reunimos cinco para você nunca se esquecer de um dos maiores laterais da história do futebol brasileiro.

“Jogador show”

Marinho Chagas não tinha muito cuidado com a parte defensiva do jogo de futebo. Foi dos primeiros laterais brasileiros a ter aquele ímpeto ofensivo que consagrou Cafu e Roberto Carlos. Ganhou o apelido de “Avenida Marinho Chagas” do comentarista João Saldanha pelo tanto de espaço que concedia ao adversário quando avançava ao ataque. O ex-técnico do Botafogo também chegou a dizer, em entrevista à revista FatoseFotos, que só o convocaria se ele “raspasse a cabeleira” ou “aparasse a franja e usasse rabo-de-cavalo”.

Um dos casos mais notórios dessa irresponsabilidade tática foi na decisão de terceiro lugar da Copa do Mundo de 1974. Por um erro tático dele, o polonês Grzegorz Lato fez o gol da vitória da Polônia. A desobediência de Marinho Chagas irritou o goleiro Émerson Leão que, sinceramente, também se irrita com qualquer coisa. Em entrevista ao SporTV, o treinador disse que houve “muito pouca” violência nos vestiários depois do jogo. Não negou a troca de sopapos, o que já é bastante coisa.

“Ele foi indisciplinado e mal educado nas respostas quando nós o chamamos para fazer uma fixação pela lateral esquerda. Como era o último jogo, ele disse que era um ‘jogador show’. Nós não estávamos ali para dar show, estávamos cumprindo uma determinação e representando um país. Perdemos por causa disso também. Dentro do vestiário, nos desentendemos. Coisa natural de dois homens que pensam diferente”, disse.

Em entrevista à revista Trip, Marinho Chagas colocou a culpa em Leão, “era como carrinho de praia, só sabe ficar enterrado”, e foi eleito o melhor lateral esquerdo da Copa do Mundo de 1974.

Amigo de Bob Marley

Em um amistoso pelo Náutico, em Kingston o cantor Bob Marley ficou encantado com o futebol de Marinho Chagas e quis conhecê-lo. Ofereceu três de seus discos em troca de uma camisa do clube pernambucano, e o lateral esquerdo aceitou. Essa excursão pela Jamaica também resultou na contratação do atacante Alan Cole, que fez poucos jogos pelo Timbu antes de sair por conta de divergências com a diretoria. Também músico, voltou para a Jamaica e administrou a banda The Wailers, da qual Bob Marley era membro.

Sem cacife para Grace Kelly
A bela Grace Kelly deu risada de Marinho Chagas

A bela Grace Kelly deu risada de Marinho Chagas

Marinho Chagas cuidava bastante da aparência e encontrou nas areias de Copacabana o seu habitat natural para conhecer mulheres novas. Estacionava o Karman Guia no calçadão, colocava Bob Marley nas caixas de som e não economizava no charme, com roupas coloridades e colares. Só que nada disso era suficiente para namorar uma princesa.

Em uma viagem pelo Fluminense, frequentou uma festa em um castelo francês, em Nice, e se engraçou para cima de Grace Kelly, então princesa de Mônaco. Suprimimos algumas palavras grosseiras do relato a seguir de Marinho Chagas à revista Trip e usamos alguns eufemismos para que esse texto possa ser lido por pessoas de todas as idades.

>>>> Garrincha, 80 anos: 7 histórias incríveis da Alegria do Pov

“Tinha muito artista, empresário e político no castelo. Enchi a cara e parti para a guerra. No meio de afesta, me apontaram a mulher mais bonita da noite e, quando me disseram quem era, não pensei duas vezes. Cheguei dançando, com uma taça de champanhe na mão. Encostei, esperando que ela pulasse fora, mas ela riu. E quando ela riu, eu tremi na base. Era demais para mim. Não tinha cacife para fazer sexo com uma princesa, jamais”.

Chapéu em Pelé

Foi na sua estreia pelo Botafogo, em 1972. Marinho Chagas havia acabado de chegar do Náutico e ninguém o conhecia muito bem. Pelé até chegou a alertar que se tratava de um “galego craque e meio doido”, mas o Rei não prestou atenção ao próprio aviso. Na primeira vez que cruzou com o maior jogador da história, deu um chapéu que fez o Maracanã tremer. Depois da partida, Pelé pediu “mais respeito”, brincando. Marinho Chagas, também brincando, xingou: “Mandei tomar no cu e saí rindo”, disse à Trip.

Neste mesmo jogo, Jairzinho, ídolo do Botafogo, estava pronto para bater uma falta, chegou a avançar em direção à bola, mas Marinho Chagas cobrou sem avisar o companheiro, que ficou ligeiramente irritado. A resposta veio com o mesmo linguajar: “Bicho, vai tomar no cu, o gol tá feito”. E estava mesmo: a bola entrou no ângulo.

Pênaltis a 360 graus

Foi no torneio Teresa Herrera, de 1977, com a camisa do Fluminense. Marinho Chagas, o “jogador show”, achou muito chato cobrar pênaltis da forma usual. Então inventou uma paradinha na qual dava um giro de 360 graus antes de chutar, para a loucura do presidente do clube Francisco Horta. Quando precisava, também sabia cobrar seriamente, como nessa goleada do Flu sobre o Vitória do Espírito Santo por 6 a 0. Fez três gols: um de falta e dois de pênalti. Na última cobrança, com o placar de 4 a 0, tentou fazer uma paradinha normal, mas o árbitro mandou voltar. Ele converteu mesmo assim:

Você também pode se interessar por:

>>>> Há 80 anos nascia Dida, o dono da 10 antes de Pelé e Zico

>>>> Há 30 anos morria Fleitas Solich, o técnico que trocou o Flamengo pelo Real Madrid de Di Stefano

>>>> Mário Travaglini foi o líder de uma academia e de uma democracia

>>>> O homem que poderia ter parado Ghiggia em 50