O Estádio do Pacaembu não pode ficar abandonado

Temos algumas sugestões para que o Pacaembu não se torne o elefante branco de São Paulo

As cidades de Cuiabá, Manaus e Brasília, sem times nas duas primeiras divisões do futebol brasileiro, construíram estádios muito maiores do que o potencial que elas têm de ocupá-los. O risco é que a Arena Pantanal, a Arena da Amazônia e o novo Mané Garrincha sejam sub-utilizados. No popular, virem elefantes brancos e causem prejuízos ao poder público, que a princípio os administra, ou desmotivem a iniciativa privada a assumi-los. Mas mesmo o município mais rico do Brasil pode se ver em uma situação complicada. O que São Paulo vai fazer com o Estádio do Pacaembu depois que Corinthians e Palmeiras inaugurarem suas arenas?

Em 2012, o Pacaembu gerou R$ 4 milhões de receitas e R$ 5 milhões despesas. Um prejuízo de R$ 1 milhão que caiu no colo da prefeitura. Isso porque houve 77 partidas de futebol naquele ano, muito mais do que deve acontecer depois que o Allianz Parque e a Arena Corinthians abrirem as portas. Como o município de São Paulo tem prioridades mais importantes que bancar um estádio sub-utilizado, a Secretaria de Esportes, responsável pelo Paulo Machado de Carvalho, busca opções.

Em contato com a Trivela, a pasta informou que o planejamento para o futuro do estádio ainda está sendo avaliado. Em março do ano passado, o secretário Celso Jatene chegou a cogitar pedir dinheiro ao Ministério dos Esportes para modernizá-lo, embora toda reforma no Pacaembu seja uma desafio, pois se trata de um patrimônio tombado. Nos últimos meses, a ideia mais forte vem sendo a cessão do Pacaembu para uma empresa privada, por R$ 350 milhões, que ficaria responsável pelas obras, por administrá-lo e, mais importante, por pagar a conta da manutenção, aliviando os cofres da prefeitura. A Secretaria afirmou que o valor da concorrência ainda não está definido.

Agora o problema é convencer um empresário a assumir a bucha. A associação de moradores Viva Pacaembu entrou na Justiça em 2004 para impedir que o estádio seja utilizado para shows. A decisão foi mantida em 2010. A mesma entidade impediu, ano passado, a realização do UFC São Paulo naquele local. Além dessas restrições, o tombamento impede que sejam feitas muitas mudanças na estrutura do estádio. O novo Santiago Bernabéu, por exemplo, vai abrigar um shopping e um hotel.

Por isso, o argumento mais forte é o futebol, mas será que compensa financeiramente? O Corinthians não tem previsão de mandar partidas no Pacaembu depois que se mudar para Itaquera. E nem faria muito sentido gastar uma nota para construir um estádio e pagar aluguel para jogar em outro lugar. Quem está mais interessado é o Santos, mas não como administrador.

No espírito da colaboração, decidimos sugerir algumas alternativas para que o estádio não fique às moscas. Nenhuma delas é definitiva ou exclui a outra. Todas podem ser feitas para que o Pacaembu não se transforme no elefante branco de São Paulo depois da Copa do Mundo de 2014.

Agora quem dá bola é o Santos
O Santos foi tricampeão da Libertadores no Pacaembu lotado (Foto: AP)

O Santos foi tricampeão da Libertadores no Pacaembu lotado (Foto: AP)

A gestão do presidente Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, sucedido por Odílio Rodrigues, tentou se aproximar da torcida paulistana desde o começo, em 2010. O número de partidas com mando de campo no Pacaembu aumentou. O clube criou até uma sede na capital, na região da Avenida Paulista. Naturalmente, está muito interessado no futuro do estádio Paulo Machado de Carvalho.

Mas o Santos não quer assumir o problema. O desejo da diretoria é associar-se a um grupo privado para vencer a licitação da prefeitura, ainda sem data definida. A gestão ficaria por conta da parceira. O compromisso do clube seria proporcionar os jogos de futebol do plano de negócios, cerca de 40% das partidas que disputar no ano, dentro do possível – às vezes, a Polícia Militar proíbe por conflito com outras partidas.

“Nossa casa é a Vila Belmiro e queremos o Pacaembu como nossa segunda casa”, afirma Odílio em entrevista à Trivela. “A função de administrar o estádio é do investidor. Não é o business do Santos. Outros fazem isso com mais especialização que a gente. Cabe ao Santos, como parceiro, levar jogos para motivar a torcida. O dia em que a licitação for realizada, o Santos evidentemente vai querer participar através de investidores.”

A Vila Belmiro atualmente comporta cerca de 16 mil pessoas, e o clube já tem 65 mil sócios. Invariavelmente, os inscritos no plano de sócio-torcedor de qualquer grande equipe vão superar o número de cadeiras do estádio, mas a discrepância não pode ser desse tamanho. Os projetos de uma arena em Cubatão foram abandonados. A nova casa na beira da Imigrantes, para 40 mil pessoas, também.

Por isso, hoje em dia, a prioridade da diretoria de Odílio, quando o assunto é estádio, é o Pacaembu. Pela primeira vez, a CBF recebeu um requerimento para que sete partidas do Santos sejam transferidas para São Paulo com antecedência. Um jeito de já ir acostumando a torcida à ideia de que nem sempre o time de Oswaldo de Oliveira vai jogar perto da praia.

“O Pacaembu é muito simpático, o Santos tem muita história nele, é um estádio muito bem localizado, todo mundo gosta. Santos é nossa origem, nossa casa, e a Vila Belmiro representa isso, mas, com o nosso crescimento, não podemos perder contato com os torcedores de São Paulo”, finaliza.

O show tem que continuar
Eric Clapton tocou no Pacaembu em 2001

Eric Clapton tocou no Pacaembu em 2001

Como já mostramos, o mercado de shows internacionais no Brasil não anda muito aquecido, mas o Pacaembu tem capacidade de ser uma arena intermediária entre os pequenos e os grandes concertos musicais. O problema é que o estádio tem uma estrutura muito ruim para esse tipo de evento e tem moradores, digamos, muito engajados. Desde 2005, não há shows no Pacaembu por causa da liminar que a associação de moradores conseguiu na Justiça. Segundo a decisão, de novembro daquele ano, é proibida a utilização do Estádio do Pacaembu e da Praça Charles Miller para a realização de eventos que “sejam prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde.”

“Existe uma liminar de 2005 que proíbe qualquer evento não desportivo no complexo do Pacaembu. Nossa preocupação é que a lei seja cumprida. Eventos desportivos são sempre bem-vindos”, disse o presidente da Viva Pacaembu, Rodrigo Mauro, em entrevista à Rádio CBN, em novembro. Bom, nem sempre. Em 2012, o estádio receberia uma edição do UFC, mas a organização proibiu, baseada na Lei do Psiu. No texto da reivindicação, vetou qualquer evento depois da 1h. As lutas das artes marciais mistas costumam invadir a madrugada.

Ou seja, não pode fazer barulho, nem ficar acordado até muito tarde. “Os vizinhos enchem tanto o saco que não dá para fazer nada lá”, diz o jornalista André Barcinski, blogueiro do Portal R7, experiente na produção de shows, tanto no Brasil, quanto fora dele. “E por ser tombado, tem uma dificuldade muito grande para montar o palco. Não é um estádio feito para shows. O Pacaembu é um caso clássico de estádio lindo, tombado, uma beleza arquitetônica, mas não tem a infraestrutura necessária para fazer shows.”

Em estádios mais acostumados a eventos musicais, há uma estrutura básica disponível, mas não é o caso do Pacaembu. O Paulo Machado de Carvalho não foi projetado para shows. Toda a estrutura precisa ser montada do zero. Ele precisa ser reformado para ficar mais próximo dos concorrentes. E como ele é tombado, superar essas dificuldades é muito difícil. “Difícil não, impossível”, opina Barcinski.

Fabio Kadow, um dos diretores de atendimento da Agência Ideal e especialista em marketing esportivo, acredita que a reforma é fundamental para concorrer com outros palcos da cidade. “Se ele sai do ambiente futebol e entra na área de entretenimento, como concorrer com o estádio do Palmeiras, que está sendo construído com acústica, infraestrutura, wi-fi, montagem de palco? Ou mesmo o Morumbi, se houver reforma?”, pergunta. “Se não houver uma reforma, vai ser uma atração turística. Vai virar o Coliseu de Roma.”

Os problemas de infraestrutura não são decisivos porque já houve shows relativamente grandes no Pacaembu e até festivais de música, mas eles complicam bastante a vida de quem quiser promover esse tipo de evento no estádio.

Por que tem que ser jogo de futebol, profissional e entre homens?
O Couto Pereira recebeu a final do futebol americano com um bom público

O Couto Pereira recebeu a final do futebol americano com um bom público

O Estádio Nacional do Partido Fascista da Itália sediou a final da Copa do Mundo de 1934 e foi a casa de Roma e Lazio até os dois principais clubes da capital mudarem-se para o Estádio Olímpico, em 1953. Quatro anos depois, o estádio foi batizado como Estádio Flaminio e era utilizado pelo Lodigiani, que mudou de nome várias vezes até fechar as portas, em 2011, como Atletico Roma.

Esse clube não era atrativo suficiente para manter as contas do Flaminio no azul. A solução encontrada foi usá-lo para partidas da seleção nacional de rúgbi. Deu tão certo que o esporte ficou grande demais para o estádio. A capacidade de 32 mil pessoas era a menor do Six Nations, uma espécie de Eurocopa anual da modalidade, e as partidas da Itália passaram para locais maiores, como o Artemio Franchi, em Florença, e o próprio Olímpico.

Por que não transformar o Pacaembu na casa de outros esportes de campo em São Paulo? A ideia já passou pela cabeça da Confederação Brasileira de Rugby, mas ainda não saiu do papel. “O Pacaembu serviria plenamente o rúgbi, mas ainda não avançou nesse sentido”, conta o diretor de Torneios e Eventos, Bernardo Costa Duarte.

Ano passado, as semifinais do Super 10, principal torneio de rúgbi do Brasil, tiveram público de três mil pessoas. A final, na Arena Barueri, levou 4,5 mil almas. A CBRu fez uma parceria com a prefeitura da cidade para usar o estádio. Também houve amistosos da seleção brasileira no local.

O futebol americano tem ainda mais público que o rúgbi. O São Paulo Storms e o Corinthians Steamrollers, duas equipes paulistas, chegaram a levar quatro mil pessoas para o Ibirapuera. A decisão do Campeonato Brasileiro do ano passado atraiu 7,5 mil pessoas para o Couto Pereira, com o ingresso a R$ 20. Segundo o técnico da seleção brasileira Danilo Muller, a ideia de uma parceria com o Pacaembu existe. “Isso já foi pensado, mas acho ninguém fez contato ainda”, diz. Já houve, porém, contato para alugar o Pacaembu em situações pontuais, mas o preço assustou. “Provavelmente esse preço vai baixar ou a prefeitura vai ficar mais aberta a outros esportes”, completa. 

Em Cuiabá, onde o público do futebol americano supera o do próprio futebol, o Cuiabá Arsenal tem a melhor média de público do Brasil e vai ser usado pelo poder público para amenizar o custo de manutenção da Arena Pantanal, que está sendo levantada para a Copa do Mundo. “É o time de futebol americano que mais atrai público no Brasil. Os estádios estão sempre cheios. Eles atraem mais público que os times de futebol de Cuiabá. Lá existe a possibilidade de eles usarem (o estádio) para o futebol americano. Se sobrar um estádio ‘velho’ para nós, está ótimo”, brinca. A seleção brasileira não tem um calendário fixo para usar o Pacaembu regularmente.

Quem andou jogando bastante no Pacaembu foi a seleção brasileira de futebol feminino. Foi palco do Torneio Internacional Cidade de São Paulo entre 2009 e 2012. Também há a final da Copa São Paulo de Futebol Júnior, que sempre é disputada lá, em 25 de janeiro. Ele poderia se tornar a sede de um dos grandes clubes da cidade na fase de grupos e receber até outras partidas eliminatórias. E precisa haver uma negociação para haver pelo menos um UFC por ano.

Com tudo isso, já há um calendário de programação com atividades atrativas no Pacaembu, que pode incluir até torneio de várzea ou universitários. Essa é a ideia mais criativa, segundo Fabio Kadow, mas a prefeitura não pode cobrar aluguel, porque nenhum esporte consegue igualar o que o futebol costumava pagar. “A solução seria a cidade e a prefeitura usar aquilo como espaço público, como se fosse o Parque do Ibirapuera para eventos que têm um mínimo de atrativo”, comenta.

Os custos seriam cobertos pela exposição de marcas interessadas em aparecer “uma hora ou outra” na televisão. Por exemplo, as finais do rúgbi aparecem na SporTV, o Campeonato Brasileiro de Futebol Americano passa na Bandsports e a TV Bandeirantes mostra o futebol feminino. A Copa São Paulo de Futebol Júnior é transmitida pelas principais emissoras do Brasil e a decisão pode ser vista na Rede Globo. “Seria até uma oportunidade para tornar tudo isso um pouco mais visível, mas teria que ter um trabalho grande para deixar isso atrativo”, conclui.

Seja o que for, o estádio que recebeu seis jogos da Copa do Mundo de 1950, viu o Palmeiras ser campeão 26 vezes, foi palco de 113 gols de Pelé, do histórico Campeonato Paulista de 1957 do São Paulo e do título mais importante do Corinthians não pode ficar abandonado. E o maior perigo que ele corre não é a debandada dos seus antigos inquilinos, mas a falta de criatividade de quem ficar com ele.