Belgrano e Talleres protagonizam uma das maiores rivalidades do interior da Argentina. O clássico de Córdoba por vezes demora a acontecer na elite, mas carrega consigo uma concentrada rixa local e duas torcidas fanáticas. O dérbi de abril de 2017 deveria ser especial. Depois de 15 anos, as duas equipes voltavam a duelar na primeira divisão. Mas terminou marcado por uma história bastante triste. Torcedor do Belgrano, Emanuel Balbo foi assassinado nas tribunas do Estádio Mario Kempes, em um crime que parece ter saído do enredo de um filme. O rapaz de 22 anos se encontrou com Óscar Gómez, acusado de atropelar e matar o irmão mais novo de Emanuel quando participava de um racha. Gómez, então, afirmou a outros torcedores do Belgrano que Balbo seria um seguidor infiltrado do rival Talleres. O jovem foi linchado por várias pessoas, antes de ser arremessado de um dos setores das arquibancadas. Seis acusados, incluindo Gómez, estão detidos em prisão preventiva, aguardando o julgamento.

A morte de Emanuel Balbo ainda é uma ferida aberta em Córdoba e em seu maior clássico. Por isso mesmo, o reencontro das equipes nesta semana, pelos torneios de verão, contou com uma mensagem de paz entre as torcidas. Por iniciativa do jornal La Voz, o Estádio Mario Kempes contou com um setor misto para o dérbi amistoso, com centenas de espectadores. A medida pode não ser novidade a muitos estádios brasileiros, mas possui uma representatividade enorme na Argentina, até mesmo pelo histórico de violência entre as barras. E o que se viu ao longo da partida foi a convivência harmoniosa entre os seguidores de Belgrano e Talleres.

Assim como ocorre no Brasil, as imagens de Córdoba mostraram a boa relação entre as duas torcidas. Famílias ficaram lado a lado, assim como amigos puderam compartilhar o momento com brincadeiras e alegria. O caráter do jogo auxiliou, por mais que tenham ocorrido outros incidentes – com a detenção de sete indivíduos e paralisação da partida por causa de cânticos xenofóbicos. Ainda assim, a reunião das torcidas não deixa de ser significativa, depois do escabroso ocorrido de 2017. Na entrada em campo, os jogadores de ambos os times carregaram uma faixa pedindo paz. Já quando a bola rolou, prevaleceu o empate por 1 a 1. Igualdade que é apenas um detalhe, diante do que se demonstrou além das quatro linhas.