O futebol tem uma representatividade imensa na história da Argélia. Não que os argelinos sejam mais apaixonados que outros povos pelo esporte, embora o fanatismo esteja evidente a cada mosaico de fogo feito pelos fiéis às Raposas do Deserto. É que poucos países que podem se dizer libertos um pouco graças ao esporte. Pois, assim como os muitos que lutaram pela independência da França, os jogadores locais também participaram deste processo. Não foram ao campo de batalha, e sim ao de futebol, empunhando a bandeira do nacionalismo.

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A Frente de Libertação Nacional, grupo responsável por batalhar por uma Argélia livre, criou a sua seleção. E conseguiu recrutar vários craques de origem argelina que atuavam no Campeonato Francês. Rachid Mekhloufi, do Saint-Étienne, era a principal referência, ao lado de Mustapha Zitouni e Mohamed Maouche. O time não foi reconhecido pela Fifa, mas rodou o mundo disputando amistosos para expor a luta na Argélia, enfrentando principalmente seleções do norte da África e de países com regimes comunistas.

Em 1962, a Argélia se tornou independente. E o time da FLN se tornou o embrião da seleção nacional. Vinte anos depois, tiveram a chance de disputar a primeira Copa do Mundo. E só não se transformaram no primeiro time africano a passar da fase de grupos por uma enorme injustiça: Alemanha e Áustria fizeram um jogo interessado apenas na vitória simples dos alemães, cômoda aos dois times. Tocaram a bola deliberadamente no meio-campo, em uma cena explícita de não-agressão. A Vergonha de Gijón, que deixou os argelinos eliminados mesmo com a vitória sobre o Chile.

O grito só pôde sair da garganta em 2014. Merecidamente, a Argélia enfim avançou para as oitavas de final. Encheu de alegria os seus torcedores, que lotaram as ruas de Argel, Oran, Constantine, Sétif, Annaba, Bilda e outras cidades importantes do país. E não só de lá, como também de muitos cantos da França, onde nasceram 16 jogadores da seleção e que, mesmo depois da independência, serviu de moradia para muitos argelinos e descendentes.

Nas oitavas de final, o reencontro com a Alemanha. Para tirar a amargura do peito, que dura há tanto tempo. Se os argelinos conseguirem superar o desafio, ainda terão uma motivação a mais para as quartas de final: poderão se cruzar com a França. Para mostrar que a luta da FLN, há cinco décadas, frutificou. Para os argelinos sentirem ainda mais orgulho de seu sangue.

Abaixo, as imagens de Argel, Marselha e Paris durante a comemoração: