A chamada “cultura de arquibancada” sofreu uma transformação massiva no Brasil ao longo da última década. A realização da Copa do Mundo de 2014 abriu as portas do país ao megaevento, mas a enxurrada de consequências a partir disso foi gigantesca. Em especial, impactando no próprio conceito que se tem das torcidas. O chamado “Padrão Fifa” introduziu uma série de modificações estruturais profundas nos estádios de vários cantos do país, sob a premissa de “modernizar”, mas que também respingaram sobre outras questões socioculturais. E que a melhora das condições oferecidas aos espectadores não seja problema em si, em praças esportivas que permaneceram por décadas sob decrepitude, o preço a se pagar pegou em cheio os torcedores. A elitização das novas arenas se tornou massiva, em uma realidade que ainda concentra o turbilhão de escândalos envolvendo o Mundial e um projeto econômico que não se enquadra totalmente ao futebol brasileiro.

As repercussões da Copa de 2014 sobre a cultura de estádios brasileira é objeto de diversos estudos. E sobre este ponto é que se debruça o livro ‘Clientes versus Rebeldes’, de Irlan Simões, mestre em Comunicação pela UERJ. A publicação se aprofunda na maneira como formatou-se a “nova cultura torcedora”, atendendo interesses que não necessariamente eram dos próprios torcedores. Entretanto, o enraizamento do negócio nas arquibancadas não apenas enquadrou as torcidas como uma clientela da realidade imposta nas novas arenas. Também surgiram movimentos de resistência que discutem a própria necessidade do futebol em se manter popular. E estes gritos rebeldes são cada vez mais ouvidos pelos clubes, em uma contrarreforma que atende pelo nome de “democratização”, prometendo ser paulatina nos próximos anos.

“O trabalho tem a expectativa de demarcar o fim de um ciclo do futebol brasileiro. As grandes arenas chegavam ao término do seu terceiro ano de utilização nas principais competições brasileiras com resultados bem longe de parecerem positivos, contrariando tanta exaltação que seguiu às suas inaugurações nos anos de 2013 e de 2014”, escreve Irlan. “A nossa intenção de demarcar historicamente o fim desse ciclo vem aliada de alguns prognósticos para os anos que virão. A maior participação dos torcedores nas ações dos clubes, seja de forma direta e ativa, seja na luta constante e não oficial nas arquibancadas e redes, não permitirá uma continuidade do estado das coisas que tínhamos até aqui. Os grandes cartolas, oriundos das tradicionais famílias que sempre comandaram os clubes brasileiros, aparentam começar a compreender o momento histórico, assimilando as demandas por maior participação dentro dos clubes”.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, o autor faz uma cronologia histórica do futebol, tentando compreender o desenvolvimento da indústria ao redor da modalidade. A segunda parte se aprofunda sobre os efeitos das transformações mercantilizantes do futebol nas praças esportivas. Por fim, a terceira discute a resistência dos torcedores diante do novo modelo. O estudo ainda aplica uma compreensão sobre as próprias características internas do futebol brasileiro, considerando os atores políticos e econômicos que influenciaram os rumos dessa indústria no país.

“O livro tem a expectativa de servir aos amantes do futebol, oferecendo ferramentas que permitam a instrumentalização de novos estudos e pesquisas, bem como sirvam de material capaz de contribuição e formação para novas iniciativas torcedoras que possuam os anseios das experiências estudadas. A crença que norteou e manteve o ímpeto para a conclusão deste trabalho na sua melhor forma foi a de que os torcedores precisam, o quanto antes, (re)tomar o futebol para os interesses coletivos daqueles que construíram tudo o que se tem hoje em termos de história, de estórias, de simbologia e de costumes. Serão os torcedores, organizados em movimentos, coletivos, grupos, torcidas ou conselhos, que resgatarão o caráter popular do futebol, dos seus clubes e dos estádios brasileiros, motivos da relevância desse jogo na vida de tantas pessoas ao redor do mundo”, escreve Irlan.

As discussões propostas por ‘Clientes versus Rebeldes’, porém, não se concentram nas páginas do livro. O lançamento contará com a realização de debates que abordarão o tema central da obra: o contraditório surgimento de uma postura crítica, intransigente e rebelde, no momento em que tudo indicava a transformação do público dos estádios brasileiros para uma massa de clientes. Os eventos, apoiados pela Trivela, acontecerão em três cidades – Rio de Janeiro (14 de setembro), São Paulo (23 de setembro) e Salvador (5 de outubro). Contarão com a participação de representantes de movimentos de torcida, pesquisadores do futebol e comunicadores, que registraram os momentos que moldaram o futebol brasileiro nos últimos anos.

Ganhe o livro ‘Clientes versus rebeldes’

Além de promover e divulgar os debates, abertos ao público, a Trivela também oferece uma edição do livro aos seus seguidores. Para tanto, basta responder a questão “Qual o pior legado que o Padrão Fifa deixou para os estádios brasileiros?” na caixa de comentários deste texto, no Facebook ou no twitter @trivela, sempre com a hashtag #clientesversusrebeldes – neste caso, aceitaremos mais de um tuíte encadeado. A resposta mais bem elaborada será escolhida pela redação. A promoção será encerrada às 12h da próxima quarta-feira, 6 de setembro.

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Clientes versus Rebeldes – novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno

Irlan Simões
Selo Drible de Letra / Editora Multifoco
336 páginas

PARTE I – Clube, Jogador, Estádio e Torcida
Capítulo 1 | Aquecimento
Capítulo 2 | Do Jogo ao Esporte e ao Espetáculo
Capítulo 3 | Indústria do Futebol
Capítulo 4 | Plastic Football

PARTE II – Prezados Clientes: assistência nas arenas multiuso
Capítulo 5 |Matchday
Capítulo 6 |De Leitch a Hillsborough
Capítulo 7 |Modelo Inglês com American Way
Capítulo 8 | Copa 2014: vetor da arenização à brasileira
Capítulo 9 | Mineirão e Beira-Rio

PARTE III – Torcidas Rebeldes: resistências ao “futebol moderno”
Capítulo 10 |Esquenta
Capítulo 11 |Torcedores que lutam
Capítulo 12 |Mercantilização do futebol e formas de resistência
Capítulo 13 | Luta torcedora e direito à cidade
Capítulo 14 | Resistência Azul Popular e Povo do Clube