Bilhões de reais foram gastos em estádios de futebol, e alguns deles terão muitas dificuldades em se viabilizar financeiramente. Esse dinheiro público seria gasto de forma mais adequada nas necessidades da sociedade brasileira, como habitação popular. Mas será que está tudo perdido? Por que não aproveitar as estruturas dos estádios para instalar casas de interesse social?

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Essa foi a ideia dos arquitetos franceses Axel de Stampa e Sylvain Macaux no projeto Casa Futebol do trabalho 1 Week 1 Project. A ideia foi publicada no último dia 6, e acabou tendo alguma repercussão nos últimos dias como uma proposta para utilização dos potenciais elefantes brancos da Copa do Mundo. O único problema é que essa ideia não deve ser levada a sério, e nem pretende ser.

Há uma série de problemas técnicos facilmente identificáveis:

– Os módulos-casa provavelmente teriam estrutura de concreto ou metal (pela espessura das paredes no desenho, mais chance de aço). Em qualquer uma dessas suposições, um empilhamento de módulos como o apresentado acarretaria em um considerável aumento do peso, e as estruturas do estádio não foram projetadas para suportar a sobrecarga;

Arena das Dunas por dentro no Casa Futebol. Moradores dos módulos teriam vist aprivilegiada do gramado (Divulgação)

Arena das Dunas por dentro no Casa Futebol. Moradores dos módulos teriam vist aprivilegiada do gramado (Divulgação)

– Como seria o acesso para as habitações? Teria de haver escadas (elevadores encareceriam demais a obra) na parte interna, mas isso parece bem difícil no estádio de Natal;

Visão externa da Arena das Dunas no 1 Week 1 Project (Divulgação)

Visão externa da Arena das Dunas no 1 Week 1 Project (Divulgação)

– Não adianta apenas empilhar módulos pré-fabricados. É preciso fazer instalações hidráulicas, elétricas e de esgoto, algo que exige um grande espaço que não está claramente exposto nos desenhos;

Detalhe dos módulos-moradia do 1 Week 1 Project (Divulgação)

Detalhe dos módulos-moradia do 1 Week 1 Project (Divulgação)

– Já se foi o tempo em que acreditava-se que habitação popular poderia ser qualquer quarto-sala tosco. Por mais carentes que sejam seus moradores, eles merecem espaço digno para valorizarem o espaço. Um empilhamento de módulos pré-fabricados parece mais abrigo provisório do que moradia.

Estádio Mané Garrincha com módulos habitacionais (Divulgação)

Estádio Mané Garrincha com módulos habitacionais (Divulgação)

Resumindo, a proposta não tem condições de ser real. E não é para ser. Adele Peter entrevistou Macaux para falar do projeto no site Fast Company. E escreveu: “O design é apenas um conceito, e pretende ser mais uma experiência de pensamento do que algo que será construído”. Macaux acrescenta: “É um pouco ambicioso, mas gostaríamos de fazer as pessoas questionarem a si próprias sobre o contexto social que sempre acompanha esses programas.

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É esse o ponto. A proposta de Macaux e De Stampa, do ponto de vista técnico, não tem pé nem cabeça. Mas eles nunca pensaram nisso. O Casa Futebol é muito mais uma obra de arte provocativa do que um projeto de arquitetura. A imagem inusitada de casas se embrenhando em vãos de um estádio de futebol visa instigar as pessoas a refletirem sobre o tamanho do gasto com a Copa e como as prioridades sociais ficaram de lado.

Nesse aspecto, a iniciativa dos franceses é interessante. E é assim que ela deve ser vista. Tratá-la como algo sério vai levantar mais problemas do que soluções e, no final das contas, afastar a obra de seu objetivo real.