Um dos grandes argumentos que se diz em época de sorteio é sobre os campeões do mundo serem os cabeças de chave. O principal ponto é a tradição das equipes, que têm camisas mais pesadas e, portanto, deveriam estar entre os times que lideram os grupos. A ideia parece boa se pensarmos em Itália, Alemanha, Brasil e Argentina. Mas por que o Uruguai deveria ser cabeça de chave na Copa de 2002, por exemplo, quando voltava a uma Copa do Mundo depois de duas ausências consecutivas em 1994 e 1998? Esse é só um exemplo, mas poderiam ser vários.

Nem sempre os campeões mundiais são as seleções mais fortes do mundo. A Holanda, que não é campeã do mundo, é uma seleção colocada acima de Inglaterra e de Uruguai, por exemplo, entre as favoritas. Foi vice-campeã do mundo três vezes e chegou mais longe que a Inglaterra na maioria das Copas.

O critério de colocar os campeões como cabeças de chave é uma forma de escrever na pedra quais sãs seleções mais fortes do mundo. Nem sempre será assim. Pouca gente defenderia que o Uruguai fosse cabeça de chave em 2010. Não havia nenhuma justificativa técnica. Por que a Colômbia tem menos méritos que a Inglaterra? Se a Espanha cair de rendimento e ficar sem participar de duas Copas, ela ainda deveria ser cabeça de chave quando voltar?

Usando um exemplo mais próximo: o Independiente é um dos maiores campeões da Copa Libertadores. Vive um péssimo momento, rebaixado à segunda divisão da Argentina. Se conseguir se recuperar e voltar à Libertadores, deveria ser cabeça de chave do torneio por ter tradição e camisa? Sim, eu sei que a Conmebol não usa critério nenhum para designar cabeças de chave na Libertadores, apenas o político, e isso está errado, é claro. O exemplo é partindo do pressuposto que houvesse um critério para definição de cabeças de chave.

Isso não quer dizer que o critério adotado pela Fifa seja satisfatório. Usar um ranking de seleções que considera os resultados dos últimos quatro anos parece uma excelente ideia. O problema é que o ranking da Fifa é mal feito. Coloca, por exemplo, a Suíça à frente da Holanda, sendo que a Suíça sequer conseguiu classificação para a Eurocopa de 2012, por exemplo.

É o mesmo caso da Bélgica, que por mais que tenha uma geração promissora, não conseguiu classificação à mesma Euro 2012. E essas duas seleções estão à frente do Brasil, que de fato não teve resultados importantes nos últimos anos. Perdeu a Copa América de maneira ridícula nas quartas de final, perdeu de várias seleções grandes mundo afora. Mas também não teve chance de fazer jogos importantes entre a Copa América de 2011 e a Copa das Confederações de 2013. E, assim, fez amistosos que valeram pouco e despencou para a sua pior posição no ranking da Fifa. O que, naquele momento, não significava nada. Na Copa das Confederações, venceu de forma categórica a atual campeã do mundo. Isso tem mais peso que qualquer amistoso dos últimos quatro anos.

Parecia improvável que a Fifa usasse o ranking como critério único para definir os cabeças de chave, justamente porque daria a Colômbia e Bélgica lugares como cabeças de chave. Uma das ideias usadas nas últimas Copas do Mundo misturar o ranking e as últimas participações em Copas do Mundo, o que sempre é usado para dar um jeitinho e colocar seleções pesadas entre as favoritas. Não foi o que aconteceu. A Fifa acabou favorecendo as seleções sul-americanas e deixando pouca tradição europeia entre os cabeças de chave.

Os cabeças de chave devem ser seleções que estão entre as melhores no momento da Copa do Mundo. A França chegou a reclamar do critério que definiu os cabeças de chave da repescagem, criticando com razão o fato do ranking da Fifa não considerar que ela fez menos jogos que os rivais porque estava em um grupo com uma seleção a menos.

A ideia de usar o ranking não é ruim. Permite que seleções ascendentes, que estão subindo de produção nos últimos anos, possam estar melhor colocadas e eventualmente até serem cabeças de chave. A tradição não torna um time eternamente merecedor de privilégios. É baseado nisso que alguns defendem, por exemplo, que times grandes não devem ser rebaixados. Então, temos que tomar um certo cuidado. Além disso, se uma seleção inédita for campeã em 2014, como ficaria para escolher os cabeças de chave para 2018, considerando que todos os campeões se classifiquem novamente? Isso poderia tornar ainda mais injusto – tirando, por exemplo, o Brasil do grupo de cabeças de chave e colocando, digamos, a Inglaterra, campeã uma única vez quando jogou em casa?