“A sua obra e o seu percurso de vida representam um símbolo dos imperecíveis laços que unem os nossos dois países. A sua memória, a que aqui presto renovada homenagem, jamais se apagará.”

Este é o trecho final da mensagem de condolências enviada nesta semana pelo primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, ao presidente de Moçambique, Armando Guebuza, por ocasião do falecimento do ex-jogador Mário Coluna, ídolo do Benfica e capitão da seleção portuguesa na Copa do Mundo de 1966.

Mais do que um mero gesto diplomático, a atitude de Passos Coelho é um grande retrato da importância de Coluna para além do futebol. Embora venerado em Portugal por tudo o que fez dentro de campo e por sua liderança nata, o ex-meio-campista nunca se esqueceu das suas origens. Foi um dos poucos atletas que retornaram a Moçambique depois que o país africano declarou sua independência de Portugal, em 1975. E foi na terra onde nasceu que teve um funeral com honras militares e transmitido ao vivo pela TV – ele morreu aos 78 anos de idade, vítima de infecção pulmonar.

Eleito pela Fifa como um dos cem melhores jogadores do século XX, Mário Coluna não se imortalizou apenas pelo que fez dentro de campo, embora isso já fosse suficiente. Foram sua personalidade, o espírito de liderança e as atitudes que tomava fora dos gramados – mesmo depois de encerrar a carreira – que o fizeram ganhar os apelidos de Monstro Sagrado e Senhor Coluna.

Ele chegou ao Benfica em 1954, com 19 anos de idade. Sua performance na terra natal havia chamado a atenção dos três grandes clubes portugueses, mas o coração encarnado do pai não permitiria que o filho defendesse o Sporting ou o Porto. Atacante de origem, teve dificuldades de adaptação no início, mas passou a se destacar quando o lendário Otto Glória chegou ao clube e o escalou para atuar no meio-campo.

Seis anos depois, já completamente adaptado, Mário Coluna recebia um jovem moçambicano, que trazia consigo uma carta. Era Eusébio. A carta, assinada pela mãe do Pantera Negra, pedia para que o capitão cuidasse do garoto, amigo da família e sete anos mais jovem que ele. Foi aí que nasceu uma relação especial e uma parceria vitoriosa. Eusébio chamava o amigo de “mais velho”. E Coluna sempre se recordava de que era o padrinho do maior ídolo do futebol português em todos os tempos. “O que eu fiz por ele, nem o pai dele fazia”, disse, quando recebeu o troféu Águia de Ouro, distinção especial dada pelo Benfica. O impetuoso destino, com suas coincidências inexplicáveis, fez com que menos de dois meses separassem a morte de ambos.

Coluna: capitão de Portugal e do Benfica

Coluna: capitão de Portugal e do Benfica

Mário Coluna jogou 525 vezes pelo Benfica, sendo que em 328 delas (62%) utilizou a braçadeira de capitão. Ganhou dois títulos europeus (inclusive marcando gol nas finais), dez títulos nacionais e sete Taças de Portugal. Fez, ao todo, 127 gols. Pela seleção lusitana, esteve em campo 57 vezes e anotou oito gols, sendo o capitão na campanha do terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra.

Os relatos de quem conviveu com ele mostram que a liderança era muito forte em sua personalidade. São várias as passagens que exemplificam que Mário Coluna não era capitão por acaso e que levava o “cargo” muito a sério. Diz a história, por exemplo, que Otto Glória, seja no Benfica ou na seleção, sempre que fazia sua preleção, encerrava lembrando aos jogadores: “Lá dentro de campo, quem manda é o Mário Coluna.”

A trajetória dele antes de chegar ao futebol profissional ajuda a explicar tanta dedicação. Mário Coluna gostava de competir. Na juventude, lutou boxe e participou de competições de atletismo. Chegou até a bater o recorde moçambicano de salto em altura, pulando 1,82 metro.

E foi a trajetória depois de se aposentar que fez dele quase um herói em seu país. Depois da independência de Moçambique, foi deputado e presidente da Federação Moçambicana de Futebol. Ainda chegou a trabalhar nas estradas de ferro do país e também foi treinador. Deixou um legado, ao criar um centro de ensino da modalidade, atualmente batizado de Academia Mário Coluna. Isso tudo sem nunca esquecer seu carinho por Portugal e seu amor pelo Benfica.

“Mário Coluna fez a ponte entre os dois países. Ele nunca renunciou suas raízes”, lembrou o presidente benfiquista, Luís Filipe Vieira, ao comentar o falecimento do ex-jogador. “Após a independência, ele pegou na bandeira, veio a Moçambique para ajudar o país e o esporte, em particular. Foi treinador, fez bom trabalho nos clubes e como dirigente, em especial como presidente da Federação, ajudando a abrir as portas de Moçambique ao mundo”, declarou o ministro do Esporte do país africano, Fernando Sumbana Júnior.

Com o falecimento de Mário Coluna, o futebol perdeu um dos grandes jogadores da história. E o mundo despediu-se de um grande exemplo.