“Matt Busby costumava dizer a seus jogadores: vão para o campo e se divirtam. Mourinho frequentemente parece dizer a seus jogadores: vão a campo e assegurem que ninguém se divirta”. Esta precisa avaliação do futebol praticado pelo Manchester United em algumas partidas foi escrita pelo jornalista Jonathan Wilson, autor do livro Pirâmide Invertida, em uma coluna para o The Guardian, na prévia do clássico entre os Red Devils e o Liverpool, neste sábado, em Old Trafford. Quem assistiu ao jogo do primeiro turno, em Anfield, em outubro, tem certeza que José Mourinho deu a seus jogadores alguma versão desse discurso hipotético imaginado por Wilson.

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Foi um jogo muito chato. Obviamente, terminou 0 a 0. O Manchester United defendeu-se o tempo inteiro e acertou apenas um chute ao gol de Mignolet. Pior do que isso, ao adotar esta postura, desperdiçou um contexto favorável: estava com seis vitórias em sete rodadas da Premier League, com 21 gols marcados e dois sofridos, enquanto o Liverpool sofria uma sequência ruim, com empates na Champions League, derrota na Copa da Liga e aquela goleada sofrida para o Manchester City.

Dificilmente seria uma partida fácil, independente da postura do United, mas a vitória era muito acessível pelos momentos dos dois times. No entanto, os visitantes mal ambicionaram mais do que um ponto, e a tabela reflete a falta que isso fez. Atualmente, os dois rivais do norte da Inglaterra estão separados por apenas dois pontos, com os Red Devils em segundo, e o Liverpool em terceiro. E os momentos se aproximaram. Depois daquele empate, os Reds foram goleados pelo Tottenham, mas, em seguida, perderam apenas para o Swansea. O United, por sua vez, perdeu cinco vezes pela Premier League nesse período.

O pragmatismo de Mourinho foi o assunto das entrevistas pré-clássico, principalmente em contraste com o futebol mais ofensivo do Liverpool. E a defesa mais empolgada do português saiu justamente do treinador adversário: Jürgen Klopp. “Eu sei o que todos estão dizendo: eles jogam um tipo específico de futebol, nós jogamos um tipo específico de futebol, e todo mundo faz disso uma grande coisa”, disse. “Mas é tudo sobre vencer. Há maneiras diferentes de vencer jogos de futebol, mas temos outra história nos últimos anos. Nos últimos anos, o Manchester United teve mais sucesso do que nós. Essa é a verdade, respeitamos isso, mas isso não nos preocupa no momento”.

Klopp elogiou os atributos físicos e técnicos do Manchester United e descartou a dicotomia entre sistemas e filosofias. Disse que são apenas dois times de futebol muito bons se enfrentando e garantiu que, se for necessário, seu time defenderá com afinco. “Quando o United atacar, eu espero que todos meus jogadores estejam envolvidos em defender. Se alguém então disser que estacionamos o ônibus, então estacionamos o ônibus. Não tenho problema com isso. Ao longo de 95 minutos, claro que queremos colocar nosso futebol em campo. Acho que será uma grande luta, como clássicos costumam ser. Espero que com um resultado positivo no final”, explicou.

Enquanto isso, Sadio Mané, em entrevista exclusiva ao Telegraph, precisou escolher em qual estilo de jogo gostaria mais de jogar: no futebol ofensivo do Liverpool ou no do pragmático José Mourinho. “Claro que eu prefiro o Liverpool. O jeito que jogamos é bom para todos nossos jogadores. Não sou só eu que pensaria assim. Mas você tem que respeitar uma estratégia diferente. Nem todo mundo consegue jogar da mesma maneira. Gostaria de jogar a favor e contra um time ofensivo”, disse.

A coluna de Jonathan Wilson é interessante porque discute os motivos que levam o ambiente do Liverpool a estar melhor do que o do United neste momento, embora os Reds estejam dois pontos atrás da tabela. As expectativas têm um papel: o Liverpool, neste momento, ainda se satisfaz com classificação à próxima Champions League e percebe que seu time está se desenvolvendo temporada a temporada; ao mesmo tempo, o United ainda tem frescas na memória as lembranças da era Alex Ferguson e já passou por dois anos modorrentos com Louis van Gaal. Mas, além disso, também há o fator diversão, e os jogos do Liverpool são geralmente muito mais divertidos do que os do rival.

Taticamente, Wilson aponta que o Manchester United parece montar o seu time no improviso. Contrata grandes jogadores e muda a estratégia para encaixá-los. “Cada nova contratação parece uma outra parte aparafusada, uma solução de curto prazo para resolver o problema mais recente”, escreveu. Ao contrário, Jürgen Klopp tem uma política de recrutamento coerente, que leva em consideração o estilo de jogo que pretende desenvolver. E pouco a pouco, qualifica o time e o elenco, embora, de vez em quando, em ritmo lento demais para uma torcida que aguarda por um título inglês há mais de 25 anos.

Wilson não é o único analista do futebol inglês que critica Mourinho. Gary Neville, ex-jogador do clube, foi duro nos comentários depois da virada contra o Crystal Palace. Disse “nunca ter visto um time de Mourinho tão ineficiente quanto este”. E recebeu a resposta. “Alguns dos caras com opiniões não conseguiam resolver seus próprios problemas quando eram treinadores, e agora estão dando opiniões como se tivessem soluções para tudo, mas não é assim”, disse o português. Neville teve uma passagem breve e tenebrosa pelo Valencia, com apenas três vitórias em 16 jogos.

Mas Neville, apesar das críticas ao último jogo do Manchester United, acredita que Mourinho precisa, sim, ter uma postura um pouco cautelosa em Old Trafford. “Para ser justo, eu acho que é necessário um nível de cautela nos primeiros 60 minutos do jogo”, disse, na Sky Sports, da qual é um dos comentaristas. “Qualquer um que se abra contra o Liverpool está sujeito a ser explodido em campo nos primeiros 30 minutos. Eles são incríveis quando têm espaço e você simplesmente não pode se abrir para contra-ataques. O que eu quero ver é uma abordagem controlada no primeiro tempo e uma vontade de vencer evidente no segundo”.

Para Neville, a chave é esta: vontade de vencer. “A ideia de que o jogo pode ser igual ao de Anfield é inaceitável. Não pode haver jogos chatos em grandes duelos em Old Trafford. Isso não significa necessariamente gols, mas ser apaixonado, intenso, físico e lutando pela vitória. É sobre mostrar vontade de vencer o jogo, o que eles podem fazer cada vez mais à medida em que o jogo contra o Liverpool avançar”, disse. Há diferentes abordagens que ganham jogos de futebol, todos já falaram isso, mas, como disse Neville, a questão é jogar para tentar vencê-los.