Kevin-Prince Boateng, do Milan, com camiseta contra o racismo (Foto: AP)

Com o fascismo ainda vivo, Itália tem dificuldades para matar o racismo

Mario Borghezzio foi condenado por agressão a um adolescente marroquino. Isso foi em 1991. Catorze anos depois, ele voltou a ser condenado, agora por colocar fogo em latas de imigrantes dormindo debaixo de uma ponte, em Turim, onde nasceu. Não gosta de estrangeiros. Disse que a ex-ministra da integração da Itália, Cecile Kyenge, de origem congolesa, queria impor “tradições tribais” e que “parece uma dona de casa”. Falou também, em relação a Mario Balotelli, que “para chutar uma bola por aí, a pessoa pode ser congolesa ou africana”. Borghezzio era um representante eleito da Itália no parlamento europeu.

LEIA MAIS: A Espanha precisa entender que tem, sim, um problema sério de racismo

Roberto Calderoli, depois do título mundial da Itália em 2006, comentou que a França era um time que abriu mão da sua identidade por resultados, escalando negros, muçulmanos e comunistas. Afirmou, sete anos depois, que Cécile Kyenge, primeira ministra negra da história do país, tinha feições de um orangotango. Calderoli foi ministro de Silvio Berlusconi e atualmente é o vice-presidente do Senado italiano.

O racismo no futebol italiano está tão presente na política quanto no futebol e não apenas em vozes que nunca são ouvidas. No último final de semana, Kevin Constant, do Milan, foi apenas o último exemplo de discriminação e essas são apenas duas importantes figuras públicas com esse tipo de discurso, ambas da Lega Nord, partido de extrema-direita e anti-imigração. Quase todo país tem um representante dessa corrente ideológica, mas o partido italiano não é marginal e nem motivo de piada. Tem 18 cadeiras no parlamento e faz parte da coalizão do governo de Berlusconi.

A política italiana é uma bagunça impossível de passar despercebida. Basta listar o número de mandatos de Berlusconi como primeiro-ministro, apesar de escândalos sexuais e de corrupção, e perceber que um dos seus principais opositores, Beppe Grillo, é, na verdade, um comediante. Mas ninguém recebe votos chamando os outros de orangotangos. O discurso oficial da Lega Nord é muito mais ponderado e brando. Suas críticas a Cécile Kyenge baseiam-se na tentativa de flexibilizar a lei de imigração do país. Apenas filhos de italianos ganham cidadania até completar 18 anos. Com essa idade, estrangeiros podem se candidatar, mas precisam atender a uma série de critérios.

Alessandra Mussolini com Silvio Berlusconi (Foto: AP)

Alessandra Mussolini com Silvio Berlusconi (Foto: AP)

Um dos líderes do partido convidou-a a visitar o norte do país e ver “como a imigração em massa está transformando italianos em minoria nos bairros em que eles cresceram”. Os italianos têm muito apego a esses bairros, essas cidades pequenas, essas vilas onde nasceram. Elas fazem da Itália o paraíso dos românticos, com campos de uva e vinícolas, igrejas e músicas de amor. São lugares que ficaram séculos fechados em si, ainda mais porque a Itália só se unificou em 1861. O conceito de nação demorou para aparecer, e o contato com estrangeiros também. Por isso, há quem veja a chegada de imigrantes como uma quebra de tradição, e, em última instância, uma quebra da autenticidade e da “pureza” desses lugares.

>>>> Inglaterra fez avanços, mas racismo ainda existe e tem novas vítimas

Não espanta que a Itália seja uma península dividida tão claramente, entre uma região norte que se industrializou muito antes de um sul que ainda mantém raízes agrárias. O preconceito dos nortistas com os sulistas é antigo e também aparece de vez em quando em partidas de futebol. Os primeiros consideram-se muito mais desenvolvidos que os segundos. A Lega Nord (deu para entender o uso de “norte” no nome do partido, né?) chegou até em algum momento a adotar um discurso separatista.

Esse preconceito regional se vê nos estádios. Torcidas de clubes do norte constantemente atacam verbalmente torcedores do sul ou do centro-sul. Faixas como “Napoli merda”, “Sicilia merda” e similares são comuns entre os ultras de Udinese, Verona, Lazio, Triestina e Brescia, entre outros clubes. Gritos de “terroni” (forma pejorativa de tratar os sulistas na Itália), mais ainda. Nos últimos meses, viu-se até um movimento contrário. Ultras do Sul começam a levar faixas xingando as cidades do Norte. Não é difícil de entender tantos problemas internos em um país em que ainda há tantas diferenças econômicas, culturais e até linguísticas entre as regiões.

O fenômeno mostra como o país ainda não se livrou do monstro que se apoderou dele na primeira metade do século 20. A Itália tinha apenas 64 anos como uma nação quando passou a ser governada por uma ditadura extremamente desfavorável às minorias, e o legado de Benito Mussolini ainda não desapareceu na Itália. As suas garras fascistas mantêm-se fincadas no governo e representadas na sociedade. Desde 2008, Alessandra Mussolini, neta do ditador, é deputada, também pela coalizão de Berlusconi. Foi o presidente do Milan que costurou alianças com a Lega Nord e com a pós-fascista Alleanza Nazionale para vencer as eleições de 1994. Concedeu legitimidade aos fascistas.

A torcida da Lazio é uma das mais identificadas com o fascismo (Foto: AP)

A torcida da Lazio é uma das mais identificadas com o fascismo (Foto: AP)

Não é nem um pouco difícil encontrá-los nas arquibancadas dos estádios italianos, até porque eles não fazem nenhuma questão de se esconderem. O pesquisador Alberto Testa escreveu um livro chamado “Football, Fascism and Fandom” em que identifica dois grupos de torcedores de Roma e Lazio como os mais violentos da Itália, e ambos contam com uma fortíssima presença da ideologia neofascista. Em novembro de 2012, torcedores do Tottenham, fundado em um bairro judeu de Londres, foram atacados por torcedores da Roma enquanto bebiam em um bar na capital italiana, antes de os Spurs enfrentarem a Lazio pela Liga Europa. Treze ficaram feridos e um deles quase morreu.

O repórter Wright Thompson, para uma longa reportagem sobre racismo na Itália para a revista ESPN norte-americana, acompanhou hooligans do Verona na última partida da segunda divisão da temporada 2012/13, contra o Empoli. Um empate bastava para o acesso e ele foi conquistado. O que chamou a atenção foi a atuação dos torcedores nas arquibancadas, com imitações de macacos, suásticas, saudações nazistas e a expressão tantas vezes dirigida a Adolf Hitler, “Sieg Heil”. Um deles, um dos líderes, falou que “as câmeras de gás não existiram, mas se tivessem existido, seriam pintadas de azul e amarelo”, cores do clube.

>>>> Racismo no futebol: cinco países, e cinco exemplos do que fazer e não fazer

Tudo isso, somado a uma crise econômica grave nos últimos dez anos, um contexto que sempre leva uma antipatia com imigrantes, contribui para que um cidadão, que às vezes nem discrimina os negros no dia a dia, entre no estádio de futebol com uma banana no bolso, arremesse-a no gramado para humilhar outro ser humano e ainda reforce as ofensas com sons e imitações de macacos.

Em fevereiro do ano passado, a Federação Italiana de Futebol estimou que houve 50 incidentes racistas no futebol italiano nos seis anos anteriores. Isso antes de Mario Balotelli ser ofendido por torcedores da Roma, em maio, mas depois do meia Kevin-Prince Boateng chutar uma bola nos torcedores do Pro Patria que o estavam xingando e abandonar o amistoso, em protesto contra o racismo que repercutiu mundialmente.

Balotelli: a esperança da seleção italiana (Foto: AP)

Balotelli: a esperança da seleção italiana (Foto: AP)

Ele garantiu que faria o mesmo em uma partida de Liga dos Campeões ou da Serie A e a situação está se aproximando do momento em que isso será necessário. Porque os números da Federação Italiana parecem muito tímidos em comparação aos do Observatório de Racismo e Anti-Racismo no Futebol da Itália, que conta 282 casos entre 2007 e 2013 e 660 desde 2000. A média das punições: U$ 7,5 mil, aproximadamente R$ 16 mil, e aparentemente nada pra clubes que contam o seu dinheiro em milhões de euros.

Essas penas são muito mais brandas do que as aplicadas para os casos de preconceito regional contra os ultras de direita do Norte. Nesses casos, as autoridades foram muito mais ágeis e enérgicas ao estipular o valor das multas ou mesmo na determinação de que os clubes jogassem com portões fechados por uma ou duas partidas. São sanções justas, mas houve quem perguntasse o motivo de o preconceito racial não ser visto como tão grave.

>>> Balotelli, racismo em Verona e problemas que ainda estão na mesa

A atitude ineficiente da Federação Italiana motivou críticas de Joseph Blatter, depois de uma multa de U$ 65 mil aplicada à Roma depois das ofensas a Balotelli. “O que são U$ 65 mil por um incidente desses? Não estou feliz e vou ligar para a federação. Não é o jeito de lidar com o assunto”, disse. Sim, a Fifa dando lição de moral.

Mario Balotelli é filho de ganenses, mas foi adotado, aos três anos, por uma família da região de Concesio, a 98 km de Milão. Encontrou com a bola nos pés o seu habitat natural. Quando era jogador da Internazionale, ouviu de rivais que não existem “italianos negros”. Passou alguns anos na Inglaterra e voltou para o país onde nasceu, cresceu e aprendeu a jogar futebol, desta vez para defender o Milan. Foi ofendido novamente, pisou em bananas atiradas pelas arquibancadas e viu seus compatriotas imitarem macacos. Mario Balotelli é o principal atacante da seleção italiana e, a partir de junho, a esperança de toda a população na Copa do Mundo do Brasil. Até dos racistas.

VOCÊ TAMBÉM PODE SE INTERESSAR POR:
Talvez nunca seja para sempre: dias depois da banana de Dani Alves, mais racismo na Espanha
León e Cruz Azul dão uma aula de como combater o racismo no futebol
Há 133 anos, o filho de uma ex-escrava se tornava o primeiro negro a defender uma seleção
Uefa pune CSKA por racismo e seguimos tratando do jeito errado o problema
-  A zoeira, meus caros, ela tem limite. Ainda bem