É muito comum vermos clubes da Ásia buscarem o talento brasileiro para reforçar o seu elenco. O caso do Chiangrai, da Tailândia, vai além disso. São cinco no elenco, que fazem o time mais forte em campo. Fora dele, o time também importou brasileiros. O técnico é Alexandre Gama, que tem na sua comissão técnica o assistente Cesar Diniz, o preparador de goleiros Marcos Cesar e o preparador físico Anderson Nicolau. E logo no primeiro ano com a legião brasileira, o clube de anos oito anos de vida conseguiu o sucesso: conquistou a Copa da Tailândia em 2017.

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O Chiangrai recheou o elenco com brasileiros. O camisa 10 é Vânder, ex-Bahia, Flamengo e Vitória. Além dele, estão no time o zagueiro Everton, ex-Luverdense, Henrique Silva, que fez carreira na Austrália, Rafael Coelho, ex-Náutico, Avaí, Vasco e Figueirense, além do grande destaque do time, Felipe Azevedo, ex-Sport e Ponte Preta. Felipe Azevedo, por sinal, foi o artilheiro do time. Marcou 18 gols no Campeonato Tailandês.

O talento individual ajuda, mas a preparação é muito importante, especialmente quando se trata de um clube ainda novo. É o caso do Chiangrai, fundado em 2009 e, portanto, com apenas oito anos de vida. O time começou na terceira divisão e subiu rapidamente para chegar na primeira já em 2011. Em 2016, com novos patrocinadores e um acordo com um grupo empresarial, o time passou a ter mais força financeira. E apostou em um projeto comandado por brasileiros para ir adiante.

Na sua primeira temporada, quarto lugar no Campeonato Tailandês, o título da Copa da Tailândia e o vice-campeonato na Copa da Liga. A Trivela conversou com Anderson Nicolau, preparador físico do Chiangrai, para saber mais sobre essa ideia de juntar tantos brasileiros, inclusive fora de casa.

Você trabalhar no Iraque, na Arábia Saudita e na Tailândia. Primeiro de tudo, o que o levou a trabalhar na Tailândia quando recebeu a proposta do Buriram?

Eu recebi a proposta em 2015 e, de cara, o que pesou foi o nome do Buriram. É uma equipe que vem crescendo muito nos últimos anos e é um dos grandes times asiáticos na atualidade. É um clube que sempre brigou por títulos tanto nas competições na Tailândia quanto nas internacionais. Outra coisa que influenciou foi o convite ter vindo do treinador Alexandre Gama, que é um profissional de expressão na Ásia.

Em termos de preparação física, quais as diferenças entre Brasil, Arábia Saudita e Tailândia? Existem diferenças significativas em termos físicos entre os jogadores desses três países que você passou?

Cada país tem a sua peculiaridade, assim como cada jogador tem que ser visto de uma forma diferente. Hoje a preparação física é trabalhada de uma forma muito individualizada em qualquer lugar do mundo, inclusive, no Brasil.  Claro que isso é feito sempre respeitando o modelo de jogo e aquilo que o treinador pensa em implantar, mas fora do país, principalmente, é preciso também entender os aspectos de cada lugar, até mesmo culturais. Nos países árabes, por exemplo, é necessário ter uma atenção ainda mais redobrada ao que se refere aos costumes e à religião, principalmente ao período do Ramadã, que é o mês sagrado para os árabes. Então tem que estar muito atento a este tipo de questão também. Na Tailândia é a mesma coisa, tem um pouco da religião, outra parcela na questão da alimentação, por isso tenho sempre que tomar muito cuidado com essas coisas. Agora, o principal, independente do país ou do clube, é tentar individualizar o máximo as questões do treinamento. Individualizando isso, com certeza você vai obter um ganho em todas as variáveis e vai aumentar consideravelmente o desempenho dos atletas.

Por que você deixou o Buriram?

O Alexandre Gama já trabalhava no Buriram United desde 2014 e eu cheguei no início de 2015. Após uma temporada maravilhosa em 2015, onde conquistamos todos os títulos possíveis dentro da Tailândia, houve um desgaste natural e o Alexandre junto com a diretoria resolveu encerrar o trabalho e, como fora ele que me levou para lá, eu devia essa lealdade a ele. Por mais que existisse o interesse do clube em minha continuidade, eu achei que era o momento de sair em respeito a essa lealdade ao treinador que me levou para lá.

O que te fez aceitar o projeto do Chiangrai?

Naquele período eu estava trabalhando no Al-Faisaly, da Arábia Saudita, com o Hélio dos Anjos, que também é um treinador respeitadíssimo no mundo árabe, um profissional fantástico que eu tive o prazer de trabalhar e conviver, mas a gente tinha um assunto inacabado na Tailândia, pois conquistamos tudo com o Buriram por lá, ganhamos todos os títulos possíveis no país, mas como o Buriram é a maior equipe de lá, sempre se colocava em xeque a metodologia. Então surgiu o convite do Chiangrai e nosso projeto era sermos campeões e poder mostrar que o trabalho da comissão técnica brasileira pode ser implantado e render frutos em qualquer equipe. Inicialmente, o projeto do clube era a médio e longo prazo para começar a ter destaque nos principais campeonatos, mas já no primeiro ano colhemos frutos com a conquista da Copa da Tailândia. Então, como queríamos mostrar isso, eu já tinha dado minha palavra ao Alexandre Gama que, caso ele retornasse à Tailândia, eu voltaria com ele. E quando ele me convidou, conversei com o Hélio, e fui para esse desafio de tentar ganhar em um clube de menor expressão. E terminar o ano campeão é muito bom e mostra que o trabalho foi executado de uma forma muito bacana.

Como é trabalhar com tantos brasileiros? Quais os benefícios de ter tantos brasileiros, na comissão técnica e entre os jogadores?

Eu, particularmente, gosto bastante de trabalhar com jogadores brasileiros, pois acho que facilita muito o desenvolvimento do trabalho. Para a comissão técnica, ter brasileiros no time facilita muito a montagem e execução dos treinamentos, pois pensamos o futebol de uma maneira muito parecida. Quanto aos jogadores, é inegável a qualidade dos brasileiros, além do fato de eles entenderem o jogo muito bem. Por isso, acredito que este fato ajuda bastante, pois você consegue levar para dentro do campo tudo aquilo que pensamos. Facilita na elaboração dos trabalhos, é possível individualizar ainda mais os treinos específicos, então, na minha opinião, trabalhar com atletas brasileiros é uma situação muito interessante, que deu resultado agora no Chiangrai, já havia dado no Buriram, e é algo bem próximo do ideal. Claro que sempre estamos abertos a qualquer jogador, até porque neste período todo de carreira eu já trabalhei com atletas de várias nacionalidades, mas gosto muito de trabalhar com os brasileiros.

E quais as desvantagens?

Não vou falar que são desvantagens, mas é preciso redobrar a atenção para as outras pessoas não acharem que existe um protecionismo, por isso nosso tratamento com jogadores de qualquer nacionalidade sempre é bem igual. Não importa se o jogador é brasileiro, tailandês, coreano ou venezuelano, nossa obrigação é dar as melhores condições para os atletas desenvolverem o plano de trabalho da melhor maneira possível. Isso é o fundamental.

Qual é o impacto do calendário nos atletas? É mais tranquilo que no Brasil?

O grande problema do calendário na Tailândia se deve não ao volume de jogos, que é uma quantidade interessante, onde quem chega a todas as finais faz, em média, 50 jogos por ano. O problema que vejo é a distribuição dessas partidas ao longo da temporada, pois lá se respeita a Data Fifa como em outros lugares, já que os jogadores vão para suas seleções muito antes do período estipulado, as vezes até 15 dias antes e, por isso, acabam ficando muitos dias em regime de concentração com as suas seleções. Por isso existem muitas paradas ao longo do ano. O campeonato chega a parar quatro ou cinco vezes no decorrer da temporada. Então, quando o atleta está atingindo sua melhor performance esportiva, tem a parada e quebra o ritmo de jogo e até o aspecto psicológico. Portanto, creio que este é o grande problema. Para você ter noção, neste ano de 2017, chegamos a ter uma parada entre um jogo e outro de 35 dias, e como temos vários jogadores nas seleções, ficamos treinando com um grupo de 12 atletas e isso acaba gerando um prejuízo muito grande. O fato de os selecionados treinarem com seus países e outros ficarem no clube acaba que o time perde a competitividade. Depois há períodos que tem muitos jogos em sequência. Por isso acredito que o problema mesmo seja a distribuição, mas essa é uma reclamação que já foi levada à federação tailandesa e eles estão vendo uma forma de melhorar isso nos próximos anos.