Duas semanas atrás, escrevemos que a Internazionale havia melhorado com a chegada de Hernanes e que parecia ter acordado. A equipe treinada por Walter Mazzarri havia engatado uma sequência de seis jogos sem perder, com quatro vitórias, após a contratação do brasileiro, e parecia viva na briga por uma vaga na Liga dos Campeões, mesmo 11 pontos atrás do Napoli, terceiro colocado. Hoje, três jogos depois, esqueça aquilo: a Inter tropeçou nas próprias pernas, como já havia feito outras vezes neste campeonato, e jogou fora qualquer oportunidade de lutar pela Champions.

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Nos três jogos que se passaram de lá para cá, a Inter somou apenas um ponto em dois jogos em casa (perdeu para a Atalanta e empatou com a Udinese) e ainda permitiu que o Livorno, ameaçado de rebaixamento, empatasse, em uma partida que os nerazzurri venciam por 2 a 0. Após o vexatório empate frente aos toscanos, a Inter chegou a um número incômodo: cedeu nove empates e perdeu três jogos nos últimos 10 minutos neste campeonato, deixando de somar 21 pontos. Destes empates todos, apenas o cedido à Juventus, na terceira rodada, foi para uma equipe melhor colocada atualmente na tabela.

O prejuízo é enorme. Caso a Beneamata houvesse conquistado estes pontos, seria terceira colocada, com um ponto a menos do que a Roma. Não há time mais esbanjão nesta Serie A. Ao fim da partida, Mazzarri definiu bem a situação interista: “a diferença entre o campeão feito e aquele em construção é a cabeça”. Esta Inter tem uma cabeça fraca, concede espaços demais a lapsos de atenção e, por isso, a Beneamata amarga a quinta posição, com apenas 49 pontos, hoje 13 atrás do Napoli, que mesmo com uma tabela mais complicada nestes três jogos (enfrentou Fiorentina, Catania e Juventus), somou mais pontos. Certamente a experiência e qualidade de nomes como Reina, Hamsík, Callejón, Pandev, Higuaín e Benítez ajudou os azzurri a segurarem as pontas no momento de instabilidade. A Inter, ao contrário, sucumbiu, e hoje todos estão sob avaliação.

Mazzarri é o primeiro que está sendo questionado. Diretores do clube de Milão, além do próprio dono, Erick Thohir, já declararam que o treinador é o nome adequado para os próximos anos, mas um eventual vexame, que envolva a não classificação da equipe à Liga Europa, pode fazer os planos mudarem. Aí não vai adiantar nem mesmo comer garrafa plástica.

O técnico tem sido louvado por ter acertado a defesa, mas tem sido muito criticado por não estar utilizando muito Kovacic, maior contratação do clube na última temporada. O croata, de apenas 19 anos, jogou fora de posição diversas vezes e, quando é utilizado pelo técnico, joga apenas poucos minutos no segundo tempo das partidas. Pouco para quem chegou com status de substituto de Sneijder e perdeu espaço com a contratação de Hernanes.

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Sem dúvidas, o meio-campo da Beneamata é um dos melhores da Itália: Cambiasso é um líder em campo, Kuzmanovic e Taïder são bons carregadores de piano e Hernanes, Guarín, Álvarez, Botta e Kovacic são jogadores criativos e com potencial para decidir partidas. Porém, assusta como uma equipe com tanto poder de fogo tenha tanta dificuldade de penetração nas defesas adversárias. A Inter é o time com mais posse de bola no campo adversário, segundo dados da Liga Serie A (por ordem, seguem-na Fiorentina, Milan, Roma e Juventus), mas a equipe se mostra previsível e sem ideias em alguns momentos das partidas. Toca muito a bola de lado e tenta cruzamentos pelas pontas.

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Pelo material humano que tem, a equipe azul e preta poderia render mais. E, quem sabe, poderia utilizar outro esquema. O 3-5-2 recuperou jogadores como Jonathan e, com o passar do tempo, acertou uma defesa que vivia em afã desde a saída de José Mourinho. No entanto, pensar em um meio-campo que possa abrigar três entre Hernanes, Guarín, Álvarez e Kovacic deveria ser dever de Mazzarri como treinador. Ficar refém de um esquema tático fixo sem pensar nos jogadores à disposição, na Inter, não tem se mostrado vantajoso – que o digam Benítez e Gasperini. A não ser que Mazzarri opte por trocar peças (Kovacic, sem espaço, pode acabar vendido) e tenha o aval da diretoria, algo que não aconteceu nos casos dos dois treinadores supracitados.

A venda de alguma das estrelas da equipe pode acabar sendo obrigatória, uma vez que o clube não chegará à Champions e precisará de receita. Erick Thohir já declarou que serão dois anos difíceis, uma vez que os investimentos que o magnata indonésio fará só devem acontecer após o saneamento da grande dívida do clube. Ultimamente, todas as reuniões do conselho administrativo nerazzurro tem servido para discutir estratégias de amortização da dívida e geração de receita.

Sem dúvidas, conseguir, por meio do futebol, verba de televisão e premiações com a Liga dos Campeões seria fundamental. Por isso, o cargo de Mazzarri (ou de qualquer outro técnico que passe pelo clube) estará condicionado, por motivos econômicos, à classificação para o torneio continental. Sem ele, até mesmo os planos de construção de um novo estádio para a Inter podem ficar de lado.

Sem a LC e com menos para gastar, a Inter pode, ao menos, utilizar uma boa quantidade de jovens jogadores emprestados a outros clubes e que tem futuro – alguns se destacam nesta Serie A pelo mesmo Livorno que foi buscar o empate nesta semana. Bardi, Mbaye, Duncan, Benassi, Belfodil (os cinco no Livorno), Schelotto, Obi (ambos no Parma), Laxalt (Bologna), Biraghi (Catania), Bianchetti, Longo (ambos no Verona), Pasa, Spendlhofer (ambos no Varese), Alborno, Pecorini, Di Gennaro (os três no Cittadella), Garritano (Cesena), Belec e Daniel Bessa (ambos no Olhanense-POR). A lista de jogadores de propriedade da Inter que podem ter algum futuro no clube – ou em outro, rendendo receita à equipe – é grande.

Alguns destes jogadores estão prontos, outros estão em formação e podem nem alcançar o patamar esperado. Mas, por enquanto, a Inter tem boas cartas na manga para o jogo. Thohir já declarou várias vezes que pretende ter mais jogadores formados no clube como parte da equipe e alguns dos jogadores citados devem ser reintegrados em 2014-15, sobretudo porque atletas experientes, como Samuel, Zanetti, Milito e, talvez, Cambiasso, não façam mais parte do elenco. Outros destes jovens jogadores continuarão rodando por outros clubes, mas ainda ligados à equipe de Milão, e outros devem ser negociados em definitivo. Porém, à parte das estratégias de mercado, a torcida tem pressa para que uma questão seja elucidada: quando a Inter deixará de ser o time do futuro e passará a dar frutos mais uma vez no presente?