Organizadas precisam ser convidadas para a festa do futebol brasileiro

É impossível avaliar as torcidas organizadas sob um ponto de vista maniqueísta, a nova moda de análise que vemos ao redor da internet. São bandidos ou fazem uma festa bonita. A maioria dos problemas de violência nos estádios realmente surge dos seus quadros, e muitos, os que aparecem em centros de treinamento para apavorar os jogadores no meio da tarde, não parecem ter um emprego que não seja ir a partidas de futebol e balançar bandeiras. Ao mesmo tempo, a generalização é sempre um perigo, e as arquibancadas brasileiras ficariam muito mais tristes e frias sem essas agremiações.

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O problema para as torcidas organizadas é que essas mesmas arquibancadas foram reformadas e não são mais o palco com o qual elas estavam acostumadas. Há alguns corpos estranhos, como cadeiras e barras, que as obrigam a mudar os hábitos. A se adaptarem aos novos tempos do futebol brasileiro, que depois da Copa do Mundo terá uma cultura diferente de torcer e a cobrança cada vez maior para os clubes se profissionalizarem. E dentro desse contexto, qual seria o papel dos organizados?

Os clubes precisam atrair cada vez mais os torcedores consumidores. Em outras palavras, os fãs de futebol que não são necessariamente tão apaixonados e não curtem necessariamente tanto futebol. Porque a prioridade não é o fanatismo, mas atingir quem tem mais dinheiro para gastar. E também porque, para falar a verdade, o fanático não precisa de outro motivo para ir ao estádio, além da oportunidade de assistir ao seu time de coração.

Tudo serve como argumento para trazer o consumidor. A qualidade da partida, o conforto, o preço e os serviços oferecidos, como alimentação e estacionamento, por exemplo, precisam ser levados em consideração. Entre esses aspectos está também o show das arquibancadas. O jogo de futebol torna-se um produto muito melhor quando o estádio está lotado de pessoas, bandeiras e gritos de guerra. “O torcedor fanático é o que dá o colorido ao jogo”, afirma Fernando Ferreira, especialista de gestão e marketing esportivo e diretor da Pluri Consultoria. “Mesmo na Copa do Mundo, em que a torcida brasileira foi um desastre, toda apática, todos falavam: ‘os colombianos são demais, os argentinos dão show’. Tem que ter um lugar para o torcedor fuleirão, com preços mais interessantes.”

O maior exemplo de futebol profissional geralmente é a Alemanha, e os estádios da Bundesliga têm o seu espaço para os torcedores fazerem os seus mosaicos. Há setores com preços mais baratos e sem cadeiras, que são colocadas quando as partidas são organizadas pela Uefa, que segue os mesmos padrões de exigência da Fifa. O Campeonato Alemão tem a maior média de público do mundo, e torcidas como a do Borussia Dortmund e a sua Muralha Amarela, por exemplo, transformaram-se em uma atração extra.

A segunda maior média de público pertence ao Campeonato Inglês, que proíbe setores sem cadeiras. A explicação remete aos anos 1980 e à modernização dos estádios paralelamente à criação da Premier League. Naquela década, as estruturas eram muito precárias e resultaram em muitos feridos – e mortos, no caso de Hillsborough. Com as recomendações do relatório Taylor, as cadeiras foram introduzidas para controlar o número de torcedores com acesso às partidas, e o preço dos ingressos subiu para afastar a maioria dos hooligans violentos. A medida, do ponto de vista da segurança do espectador, funcionou tão bem que virou um tabu na Inglaterra, embora o governo britânico esteja começando a considerar uma flexibilização.

PREÇO DOS INGRESSOS: O brasileiro nunca pagou tanto para ir ao estádio. Vale a pena?

A avalanche da torcida gremista poderia ter sido transferida da geral do Olímpico para a da Arena Grêmio, mas uma das primeiras tentativas terminou em confusão. O primeiro jogo oficial do estádio, contra a LDU, pela Libertadores, teve um acidente que deixou oito pessoas feridas. O resultado foi a instalação de barras para evitar que os gremistas realizassem a sua marca registrada, correndo desde os últimos lances das arquibancadas aos primeiros, para comemorar um gol. A festa ficou menos bonita, embora a geral ainda continue como um espaço com ingressos a preço popular e reservado às organizadas. – aliás, esse setor norte do estádio passará a ser frequentado exclusivamente por torcedores organizados.

A geral do Maracanã era o lugar para a população mais pobre do Rio de Janeiro assistir às partidas, colada ao gramado e a preços baixos. Com as inúmeras reformas, o setor perdeu a sua identidade e ganhou as cadeiras exigidas pela Fifa. O Fluminense manteve ingressos mais baratos, mas nas arquibancadas, no anel superior. A cara do principal estádio do país mudou e os torcedores perceberam isso. O blog do sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, autor de livros como “O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro” e “Hooliganismo e a Copa de 2014”, conduziu uma pesquisa que reuniu 426 questionários entre 1º de agosto e 16 de outubro do ano passado no Maracanã e em São Januário. A ideia era avaliar como os torcedores organizados avaliavam as mudanças.

Para isso, primeiro, precisou definir quem eram os torcedores organizados: quem vestia camisa, boné, calça da facção, portavam bandeiras ou instrumentos musicais. Apesar do debatível valor científico, foi em busca dos mais engajados e os dados apresentam ao menos uma ideia do nível de satisfação deles. “Para 66% dos entrevistados, o novo Maracanã prejudicou as formas de apoio e de animação das torcidas de futebol aos seus clubes na cidade do Rio de Janeiro. A configuração arquitetônica da arquibancada do estádio e o uso de cadeiras fixas individualizadas são reclamações recorrentes entre os torcedores”, descobriu. A Trivela entrou em contato duas vezes com a Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro, mas não foi atendida até o fechamento desta reportagem.

O Maracanã precisa se adaptar aos torcedores e vice-versa (Foto: AP)

O Maracanã precisa se adaptar aos torcedores e vice-versa (Foto: AP)

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Eles vão precisar se adaptar à nova realidade e esse processo precisa ser uma via de mão dupla, o que parece estar acontecendo no Corinthians. Houve problemas no primeiro jogo oficial da Arena Corinthians, e não apenas com a derrota do Alvinegro para o Figueirense. As torcidas organizadas aproveitaram o fim de jogo para protestar contra Andrés Sanchez, responsável pelas operações do estádio, e o preço dos ingressos. Além disso, mais de 50 cadeiras foram quebradas no setor reservado às organizadas, um alto prejuízo financeiro ao clube. Elas limitam a movimentação dos apaixonados, nesse caso específico, por exemplo, quando colocam as mãos nos ombros uns dos outros e fazem o tradicional “poropopó”. Por isso, Sanchez está inclinado a retirar as cadeiras desse setor específico. Ainda vai esperar alguns jogos antes de tomar uma decisão final.

A pressão por uma profissionalização dos clubes brasileiros cria rusgas nas relações entre diretoria e torcidas organizadas. Ano passado, o presidente Paulo Nobre rompeu relações com as principais facções do Palmeiras, depois que a delegação foi atacada em um aeroporto, e o goleiro Fernando Prass ficou machucado. Acabaram as facilidades nas compras dos ingressos, uma atitude que serviu para mostrar como é difícil tomar uma decisão como essa. Em março deste ano, durante a venda de bilhetes para o clássico contra o Santos, uma sala no Palestra Itália foi depredada e um funcionário do Avanti, programa de sócios-torcedores do clube alviverde, levou um soco.

Nesta quinta, algo parecido voltou a ocorrer. Os torcedores organizados do Palmeiras “assumiram” o posto de venda de ingressos no Pacaembu para o clássico contra o Corinthians. Eles não tinham nenhuma autoridade para isso, mas se impuseram pela força dos seus punhos. Impediam que qualquer um que não fosse associado comprasse algum dos 1,7 mil ingressos disponíveis para os visitantes. As organizadas palmeirenses também estão irritadas com o preço dos ingressos para quem não é sócio-torcedor.

Por mais importantes que sejam as torcidas organizadas, esse tipo de atitude prejudica diálogos razoáveis entre as duas partes. O excesso de brigas das facções do Cruzeiro fez com que o presidente Gilvan de Pinho Tavares as proibisse de usar os símbolos do clube (atitude que o Atlético Paranaense já havia tomado na década passada). As repetidas multas causam um prejuízo financeiro ao clube e sanções de mando de campo. Ele disse que a renda média de R$ 1,5 milhão no Mineirão cai para R$ 200 mil quando precisa jogar em outra cidade.

No Mané Garrincha, ano passado, houve uma grande briga entre torcedores do Corinthians e do Vasco, facilitada pela frágil separação entre torcidas no estádio da capital federal, com acesso entre os setores. Essa confusão ergueu algumas sobrancelhas dentro da segurança pública brasileira em relação à segurança das novas arenas. Há alguns, como o major Luiz Gonzaga de Oliveira, do Segundo Batalhão de Choque de São Paulo, que consideram essa situação muito perigosa. Se é para usar as novas arenas com duas torcidas, a separação precisa ser mais rígida. “O conceito de Arena não vislumbra a separação das torcidas”, explicou em entrevista à Rádio Jovem Pan. “Isso precisa ser melhor analisado. Acredito que a torcida do Brasil ainda não está amadurecida para essa situação”.

Só que o problema de violência dos estádios brasileiros, latente, escancarado com a batalha entre vascaínos e atleticanos em Joinville no final do ano passado, não pode servir de desculpas para excluir as torcidas organizadas das partidas. A solução precisa ser outra. “Se você tem um problema com torcidas organizadas, de segurança, você efetivamente não tem um modelo de segurança possível de controlar esses caras”, afirma Fernando Ferreira. “Na Copa do Mundo, tinha confusão, chegavam os fiscais, tiravam e acabou. A quebradeira é uma outra discussão, que não passa necessariamente por ter ou não um espaço para torcida organizada.”

Os problemas das torcidas organizadas não podem ser ignorados. O excesso de violência precisa ser coibido, assim como a criminalidade que muitas vezes percorre os corredores das suas sedes, sempre sem generalizar. Afinal, em qualquer grupos de milhares de pessoas há mocinhos e vilões. O ruim seria transformar o futebol brasileiro em uma grande festa – processo que ainda engatinha – e não convidá-las, especialmente porque são elas as responsáveis por levarem o bolo, as cervejas e as músicas.

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