A Sampdoria conquistou o Italiano em sua era de ouro e quase faturou também a Champions

A Serie A povoou os sonhos de milhões de torcedores que a acompanharam entre as décadas de 1980 e 1990. Uma época em que a Itália contava com os melhores jogadores do mundo e o melhor campeonato nacional que o futebol já teve. Obviamente, foram muitos os esquadrões formados nestes anos dourados. Por Juventus, Milan, Internazionale, Napoli, Torino, Roma e tantos outros clubes tradicionais do país. E também pela Sampdoria, que viveu seu auge justamente naquelas décadas, tornando suas façanhas ainda mais marcantes.

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O clube modesto se transformou depois da chegada de Paolo Mantovani e seus milhões à presidência. No entanto, não dá para dizer que foi só o dinheiro que levou a Samp ao topo. Existia um excelente trabalho no mercado de transferências, que levou ao Estádio Luigi Ferraris craques como Vialli, Roberto Mancini, Toninho Cerezo, Pagliuca, Vierchowod. E também um grande técnico, Vujadin Boskov.

“Em minha vida, eu ganhei alguns títulos. Mas nenhum foi mais bonito que o Scudetto da Sampdoria, o mais doce. Porque eu ganhei a liga mais difícil e mais equilibrada do mundo. Foi a primeira vez que o clube celebrou essa conquista em meio século de existência. É parecido quando seu primeiro filho nasce. O orgulho é grandioso”, afirmou certa vez o treinador, falecido no ano passado. Um orgulho compartilhado ainda hoje por milhares de torcedores.

Um clube de história, mas modesto

Gênova é um dos berços do futebol na Itália. A cidade portuária recebia grande fluxo de marinheiros ingleses, o que facilitou a introdução do esporte em uma das maiores zonas urbanas do país. Não à toa, o Genoa é o time italiano mais antigo em atividade. Já a Sampdoria demorou um pouco mais para surgir. Naqueles primórdios, os blucerchiati ainda eram divididos nos dois clubes que lhe deram origem: a Sampierdarenese e a Andrea Doria. Equipes representativas, que chegaram a disputar a Serie A. Porém, distantes do protagonismo do Genoa, uma das potências nacionais, dono de nove títulos italianos entre 1898 e 1924.

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Após uma fugaz união dos dois clubes no final da década de 1920, por conta das diretrizes da ditadura de Benito Mussolini em fortalecer agrupar os clubes das principais cidades, Andrea Doria e Sampierdarenese voltaram a caminhar com as próprias pernas. A fusão definitiva só aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, quando ambos os times faziam parte da Serie A. Assim nasceu a Sampdoria, já ascendendo como principal rival do Genoa e dividindo o Estádio Luigi Ferraris com os vizinhos.

Durante as suas primeiras décadas, no entanto, a Sampdoria se acostumou a ser figurante no Campeonato Italiano. Até o início dos anos 1970, os blucerchiati só foram rebaixados uma vez, conseguindo o acesso logo no ano seguinte, enquanto alcançaram uma honrosa quarta colocação em 1960/61. Contudo, o retorno à Serie A marcou um período de vacas magras para a Samp, que mal conseguia figurar na metade de cima da tabela. Já em 1977, o clube amargou uma nova queda. Que, no fim das contas, acabou abrindo as portas para os maiores sucessos dos genoveses.

O homem que mudou a história da Samp

O ano de 1979 foi vital para a Sampdoria. Não exatamente pelos resultados, já que o clube não passou da nona colocação na Serie B. Entretanto, nos bastidores, o presidente que mudou a história do clube assumiu o posto. Paolo Mantovani nasceu em Roma, mas vivia em Gênova desde 1955, onde fez fortuna no ramo petrolífero. Na década de 1970, a crise energética mundial inflacionou o preço do petróleo e, então, o magnata se firmou como um dos homens mais ricos da Itália. Após se aproximar do Genoa, um desentendimento interno o fez entrar na sociedade da Samp a partir de 1973, comprando o clube em julho de 1979.

Mantovani

Mantovani chegou ao comando dos blucerchiati prometendo altos investimentos e, mais do que o retorna à Serie A, também a conquista do Scudetto. Suas metas pareciam devaneios para muita gente e, de fato, a Sampdoria demorou um pouco para engrenar. Mesmo com a injeção financeira e a chegada de muitos jogadores, o time manteve sua penitência na segundona por mais algum tempo. Nas duas primeiras temporadas, a equipe não passou da quinta colocação. Todavia, o dirigente já implantava a sua mentalidade empresarial nos bastidores, revolucionando a gestão do clube.

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Para tentar buscar o acesso em 1981/82, Mantovani encabeçou uma limpa geral no elenco. Não foi uma temporada fácil para o magnata, que passou a enfrentar uma série de acusações de fraudes em sua empresa. Mesmo com vários de seus sócios abandonando a Itália, ele decidiu seguir ao lado da Sampdoria. Além disso, Mantovani ainda sofreu um infarto durante um jogo pela Copa da Itália, precisando enfrentar uma delicada cirurgia cardíaca nos Estados Unidos. Apesar de todos os problemas pessoais, ao menos pôde comemorar o retorno da Samp à primeira divisão após cinco anos de ausência. Sob o comando de Renzo Ulivieri, a equipe terminou com o vice-campeonato da Serie B, subindo ao lado de Verona e Pisa.

Os astros começam a chegar ao Luigi Ferraris

A volta da Sampdoria à Serie A aconteceu no melhor momento possível para a afirmação do clube. Afinal, em 1980 o futebol italiano voltou a admitir a contratação de jogadores estrangeiros. Um passo decisivo para que o país contasse com a melhor liga nacional do mundo. E também para que Mantovani pudesse rechear um pouco mais o seu elenco com craques. Logo em 1982/83, o mercado dos blucerchiati já foi bastante satisfatório.

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Bicampeão europeu com o Nottingham Forest, o atacante Trevor Francis era o principal reforço ao lado de Liam Brady, meia que tinha sido ídolo do Arsenal e da Juventus. Contudo, o negócio mais valioso para o futuro do clube era de um prodígio de 18 anos: Roberto Mancini, que chamava atenção no ataque do Bologna. E, para uma temporada de retorno, a campanha foi bastante satisfatória. A Samp terminou na sétima colocação, já à frente do Genoa, em 12º. Impacto que se refletiu também fora de campo, com o aumento no número de sócios e a média de público batendo a casa dos 35 mil torcedores por jogo.

mancini

A Sampdoria continuou fazendo contratações vitais na temporada seguinte. O clube tirou o goleiro Ivano Bordon da Internazionale e buscou Pietro Vierchowod na Roma para tomar conta de sua defesa. Dois jogadores que tinham feito parte da seleção italiana campeã do mundo na Copa de 1982. Naquele ano, Mantovani também passou a se dedicar mais à presidência, ao ser absolvido de seus processos e abandonar a gestão de suas empresas. Os resultados, entretanto, ainda não haviam melhorado. Com duríssima concorrência, a Samp ficou outra vez em sétimo.

Já em 1984/85, o primeiro fruto dos investimentos. O elenco cada vez mais forte ganhou outra promessa para o ataque com a transferência de Gianluca Vialli, atacante de 20 anos que despontava na Cremonese. Já o escocês Graeme Souness vinha do multicampeão Liverpool para ocupar a lacuna deixada por Liam Brady. A escalada na Serie A colocou a Sampdoria na quarta colocação, a seis pontos do campeão Verona –  à frente dos poderosos Juventus, Roma e Napoli. Mais imponente foi a campanha na Copa da Itália. Eliminando Torino e Fiorentina, os genoveses foram campeões em cima do Milan. Venceram as duas partidas finais, com Vialli e Mancini já mostrando o seu poder de decisão.

O mestre que tornou a Samp grande

O problema é que a temporada seguinte ao título foi de ressaca, em um mercado sem grandes contratações para o elenco. A Sampdoria terminou a Serie A na modesta 11ª colocação, somente quatro pontos acima da zona de rebaixamento. E, na segunda participação continental de sua história, os blucerchiati caíram nas oitavas de final da Recopa Europeia, eliminados pelo Benfica. Nem mesmo o vice na Copa da Itália, perdendo a final para a Roma, amenizou o clima. Quem acabou perdendo o emprego foi o técnico Eugenio Bersellini, que estava em Gênova desde 1984, logo após ser campeão com a Inter e vice com o Torino.

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Para substituí-lo, Mantovani buscou um comandante de renome. Vujadin Boskov tinha passado pelo clube em seus tempos de jogador, quando defendeu a Iugoslávia em duas Copas do Mundo. No entanto, mais bem sucedida ainda era a sua carreira como técnico. Além de dirigir a seleção de seu país, o veterano foi campeão espanhol e vice da Champions com o Real Madrid, onde treinou Vicente del Bosque e José Antonio Camacho. Tinha a fama de dar grande valor à preparação física e à psicológica, além de mesclar talento individual e inteligência tática em seus times. Ao seu lado, também chegava Narciso Pezzotti, seu auxiliar, que seria o responsável pelos treinamentos.

boskov

Junto com os novos comandantes, a Sampdoria renovou a sua legião estrangeira. Toninho Cerezo vinha da Roma para carregar o piano no meio-campo, enquanto Hans-Peter Briegel reforçava a zaga após ser um dos protagonistas do título do Verona em 1985. Já para o gol, com a venda de Ivano Bordon, quem assumiu a posição foi Guido Bistazzoni, mas o jovem Gianluca Pagliuca chegava do Bologna para lhe fazer sombra. Com Vialli e Mancini anotando metade dos gols da equipe, a Samp voltou a subir na tabela do Italiano 1986/87 – enfiando até mesmo uma goleada por 4 a 1 na Juventus de Platini. Terminou em sexto, somente sete pontos atrás do campeão Napoli, com Maradona em seu auge.

A partir de então, a Sampdoria se estabeleceu no Top 5 da Serie A. E, mais do que isso, passou a se tornar um time extremamente copeiro sob as ordens de Boskov. Quarto colocado no Italianão 1987/88, o clube voltou a comemorar a conquista da Copa da Itália. Decisão difícil contra o Torino estrelado por Anton Polster.  Após duas vitórias por 2 a 0 para cada lado, a Samp só triunfou na prorrogação, com Fausto Salsano anotando o gol do título.

Os sucessos continentais

A reconquista da Copa da Itália colocou a Sampdoria outra vez na Recopa Europeia. Desta vez, para o time fazer bonito. Afinal, o elenco que havia recebido várias promessas nos anos anteriores começava amadurecer. E ficou com o vice-campeonato continental, cruzando pela primeira vez com o Barcelona. Julio Salinas e Luis López Rekarte decidiram para os blaugranas, que venceram por 2 a 0 a final disputada em Berna. Como consolação, o time que ficou em quinto na Serie A levantou a Copa da Itália pela terceira vez em cinco anos. Com Vialli inspirado no torneio, os blucerchiatti enfiaram 4 a 0 no Napoli no jogo de volta.

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Também em 1988/89, a Sampdoria estabeleceu uma parceria importante. A partir daquela temporada, o clube passou a ser patrocinado pelo grupo ERG, companhia industrial de Gênova. A chegada dos novos investidores aumentou ainda mais o aporte financeiro, o que refletia em mais poder de compra e a chance de finalmente desafiar Milan, Juventus, Internazionale e Napoli pelo topo da tabela.

O impacto se tornou ainda maior na virada da década. Em 1989/90, com a abertura ao terceiro jogador estrangeiro no futebol italiano, os genoveses trouxeram Srecko Katanec, bom volante do Stuttgart e da seleção iugoslava. Na mesma época chegou Attilio Lombardo. Embora tenha se aproximado da liderança durante todo o primeiro turno, a Sampdoria ficou com a quinta colocação na Serie A. Mas garantiu a comemoração de sua torcida ao finalmente conquistar a Recopa Europeia. A campanha vitoriosa deixou pelo caminho Brann, Borussia Dortmund, Grasshopper e Monaco. Já na decisão em Gotemburgo, os italianos tiveram trabalho para vencer o bom time do Anderlecht, de Grün, Nilis e Oliveira. O triunfo por 2 a 0 só saiu nos acréscimos, com Vialli anotando os gols da consagração.

Enfim, prontos para conquistar a Serie A

O título na Recopa elevava bastante o moral da Sampdoria. Boskov conquistava o título europeu que tinha lhe escapado em 1991, enquanto a equipe ficava ainda mais redonda. As novidades no mercado de transferências eram o meia Ivano Bonetti e o meio-campista Oleksiy Mykhaylychenko. No entanto, mais importante do que isso era a consistência e o entrosamento dos jogadores. Na Copa de 1990, a Samp foi uma das bases da seleção italiana, cedendo quatro jogadores aos semifinalistas: Vierchowod, Mancini, Vialli e Pagliuca.

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O problema é que a Serie A ainda era, com sobras, a melhor liga nacional do mundo. E a maioria dos destaques do Mundial estava dividida pelos clubes italianos. O grande candidato era o Milan de Arrigo Sacchi, então bicampeão europeu. Van Basten, Gullit e Rijkaard formavam o trio de ouro dos rossoneri, que ainda contavam com Maldini, Baresi, Donadoni e Ancelotti para dar apoio aos craques. Na outra parte de Milão, a Internazionale tinha Matthäus, Klinsmann e Brehme, três dos protagonistas da Alemanha campeã do mundo, além de Walter Zenga, que fechou o gol naquela Copa.

Pagliuca

O então dono do título italiano era o Napoli, que começava a ver o declínio de Diego Maradona, suspenso por doping, mas ainda tinha a base de seu supertime, com Careca liderando o ataque. Mesmo em um período de entressafra, a Juventus era a atual campeã da Copa da Uefa e acabara de quebrar o recorde de transferência mais cara da história, ao tirar Roberto Baggio da Fiorentina por US$ 8 milhões – isso sem falar em Hassler, Di Canio, Schillaci e Júlio César, que também engrandeciam o elenco. E mesmo o Torino também vivia boa fase, com um bom grupo estrelado por Müller, Dino Baggio, Lentini e Marchegiani.

O perigo estava até no próprio Estádio Luigi Ferraris. O Genoa tinha um ataque poderoso, com a dupla formada Carlos Aguilera e Skuhravy, além de Collovati e Branco dando segurança à defesa. E era bom não menosprezar outros tantos times que figuravam na elite: o Parma, de Taffarel e Brolin; a Lazio, de Sosa e Riedle; a Roma, de Völler, Aldair, Giannini e Carnevale;  a Atalanta, de Evair e Caniggia; a Fiorentina, de Batistuta, Dunga e Lacatus. Mesmo os pequenos tinham craques espalhados entre si, como Francescoli (Cagliari), Raducioiu (Bari), Mazinho (Lecce), Simeone (Pisa), Silas (Cesena) e Bonini (Bologna). Com uma concorrência tão qualificada, era muito difícil se manter em boa sequência.

Uma dupla de ataque mortal

Boskov montou a Sampdoria alinhada com a tradição do futebol, em um time muito bem composto taticamente e seguro na defesa. Entretanto, para conquistar a Serie A, era preciso ter um diferencial. E os blucerchiati iam além graças à qualidade técnica que tinham à disposição. Mesmo os jogadores de defesa tinham boa capacidade no passe e na condução. Virtude que aumentava à medida que o time se aproximava do ataque, especialmente nos pés de Cerezo, Vialli e Mancini.

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O time era armado no 4-4-2, com um líbero fazendo a proteção da linha defensiva e um meio-campo técnico que garantisse a liberdade para a dupla de ataque. A segurança do time começava nas mãos de Pagliuca, em excelente fase. Atrás da zaga, quem ficava no resguardo era Marco Lanna, outro que vivia a ascensão rumo à Copa de 1994, se alternando com Luca Pellegrini. Já a trinca de defensores era composta geralmente pelos experientes Mannini, Katanec e Vierchowod, dono de uma capacidade de imensa de posicionamento.

Sampdoria

O principal nome do meio-campo era Toninho Cerezo, livre para marcar e também sair para o jogo, mas uma lesão impediu que o veterano participasse de toda a campanha. Sem o brasileiro, a faixa central era dominada por Fausto Pari, enquanto Mykhaylychenko e Invernizzi se revezavam ao seu lado. Mais abertos, Lombardo e Dossena eram dois jogadores de grande visão de jogo, intocáveis com Boskov. De qualquer forma, o poder de decisão se concentrava no ataque. Roberto Mancini jogava vindo de trás, preparando as jogadas e abrindo espaços para o artilheiro Vialli. Mesmo sem muito porte físico, o homem de referência tinha um faro de gol impressionante, além de ótima finalização. No banco, o reserva era Marco Branca.

E, na caminhada rumo ao título, a Samp tinha posturas notadamente distintas de jogar em casa e fora. Dentro do Luigi Ferraris, a equipe ia com muito mais sede ao pote. Não à toa, venceu 13 dos 17 jogos que fez no estádio, com média de mais de dois gols por rodada. Já fora, a tônica era proteger ainda mais a defesa. Foram apenas oito gols sofridos nos 17 duelos longe dos próprios domínios, o que ajudou bastante a vencer partidas importantes. Com a postura mais conservadora, os genoveses foram derrotados apenas uma vez como visitantes.

Deixando os grandes comendo poeira

A Sampdoria deixou sua capacidade bem clara desde as primeiras rodadas da Serie A 1990/91. Com uma tabela inicial relativamente tranquila, o time manteve a invencibilidade por nove jogos. Uma arrancada espetacular, que contou com excelentes resultados contra os primeiros favoritos que apareceram no caminho. Depois de segurar o 0 a 0 com a Juventus em Turim, a Samp desbancou o Milan dentro do San Siro. Toninho Cerezo marcou o gol na marcante vitória por 1 a 0, contra os então líderes. O triunfo permitiu os blucerchiati a assumirem a primeira colocação. Uma posição reafirmada com a goleada por 4 a 1 sobre o Napoli dentro do San Paolo, de virada. Foram dois gols de Mancini e outros dois de Vialli em apenas 50 minutos.

Entretanto, o tropeço no clássico contra o Genoa na rodada seguinte diminuiu o embalo da Samp. Da 10ª à 17ª rodada, os blucerchiati venceram apenas dois jogos – justamente os de mais peso, contra Roma e Internazionale, em Milão. A equipe de Boskov encerrou o primeiro turno na quarta colocação, dois pontos atrás da líder Inter. Embora a diferença fosse pequena, era necessária uma reação urgente, em uma tabela equilibradíssima. Em tempos nos quais a vitória valia dois pontos, a diferença entre o primeiro e o sétimo era de apenas cinco pontos.

O embalo que a Samp tomou a partir da 18ª rodada foi decisivo. A equipe de Boskov emendou oito vitórias e um empate em nove partidas, retomando a liderança a partir da 25ª rodada. Venceu a Juventus por 1 a 0, fez 2 a 0 no e enfiou outra vez 4 a 1 no Napoli, com Vialli anotando quatro gols nestes grandes jogos. No reencontro com o Genoa, não houve revanche com o placar zerado, um placar que não prejudicou na tabela.

Para ajudar ainda mais a Sampdoria, a concorrência não conseguia tirar proveito dos tropeços do time. E a vitória mais importante na caminhada aconteceu na 31ª rodada, no San Siro. Outra vez os blucerchiati saíram triunfantes do estádio, desta vez vencendo a Internazionale por 2 a 0. Dossena e Vialli marcaram os gols na vitória que deixou a equipe com quatro pontos de vantagem na tabela, restando mais três compromissos. A partir de então, só um desastre tiraria a taça das mãos dos genoveses. Após o empate por 1 a 1 com o Torino, a conquista inédita foi confirmada com uma rodada de antecedência. A equipe garantiu a festa no Luigi Ferraris ao bater o Lecce por 3 a 0, com Mannini, Cerezo e Vialli fazendo os gols. Com a derrota do Milan para o Bari, a taça foi garantido com cinco pontos de vantagem.

E quase a Sampodria fez a dobradinha na temporada. Acabou com o vice-campeonato da Copa da Itália, derrotada pela Roma na decisão. Não foi isso ou a eliminação nas quartas de final da Recopa, porém, que estragaram o ano de sonho para os blucerchiati. Vialli foi o artilheiro da Serie A com 19 gols e, junto com Mancini, a dupla foi responsável por mais da metade dos gols do time. A defesa, por sua vez, só foi vazada 24 vezes, a segunda melhor do torneio. E o time encerrava a campanha com apenas três derrotas, metade de Milan e Inter, que ficaram com o segundo e o terceiro lugar. Uma festa que ainda encobriu o feito do Genoa, quarto colocado, na melhor campanha do clube em cinco décadas.

O quase na Champions e a sequência do timaço

O título na Serie A também garantiu a participação inédita da Sampdoria na Liga dos Campeões. O elenco foi mantido e ainda ganhou um ótimo reforço com a incorporação de Silas para dar ainda mais classe ao meio-campo. Entretanto, com os grandes correndo atrás do prejuízo, os blucerchiati ficaram distantes do bicampeonato italiano. A sequência de oito jogos sem vencer no primeiro turno aproximou o clube da zona de rebaixamento. A segunda metade da campanha foi de recuperação, terminando em sexto e vendo o Milan recuperar o caneco.

O jeito foi concentrar forças na Champions, na qual a Samp teve um desempenho marcante. Ao longo das fases eliminatórias, a equipe derrubou Rosenborg e Honvéd. Já na fase de grupos, que dava uma vaga na final, os italianos superaram Anderlecht, Panathinaikos e o grande time do Estrela Vermelha. Embora tivessem mantido a base campeã em 1991, os rivais não puderam mandar seus jogos em casa, por conta da Guerra da Iugoslávia. E a vitória dos blucerchiati por 3 a 1 em Sofia acabou sendo decisiva. Contudo, a Sampdoria reencontrou um velho pesadelo na final em Wembley: o Barcelona, que evoluiu ainda mais sob o comando de Johan Cruyff. O empate por 0 a 0 se manteve ao longo do tempo normal, mas uma cobrança de falta magistral de Ronald Koeman relegou os genoveses a outro vice continental.

Aquela derrota foi a chave para o início do desmanche. Boskov deixou o comando da equipe para assumir a Roma, enquanto o elenco perdeu Toninho Cerezo e Vialli. As chegadas de Jugovic e Des Walker não foram suficientes, com a Samp de Sven Goran Eriksson fazendo uma campanha regular e terminando a Serie A 1992/93 apenas em sétimo. Por fim, a temporada seguinte foi a última em que a Sampdoria se aproximou do topo da Serie A, bem como quando conquistou o seu quarto e último título da Copa da Itália.

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No início da temporada, o clube se movimentou bastante, tirando Ruud Gullit e Alberigo Evani do Milan, além de David Platt da Juventus. Embora não tenha terminado nenhum rodada em primeiro, os blucerchiati ficaram no Top 4 durante toda a campanha, terminando em terceiro. Já na Copa da Itália, o triunfo veio na final contra o Ancona, com a Samp massacrando por 6 a 1 no jogo de volta. A glória em um período difícil, especialmente depois da morte de Paolo Mantovani, que deixou uma lacuna no comando do clube. “De tudo o que fiz na minha vida, a única coisa da qual não me arrependo é ter comprado a Samp”, foi uma de suas últimas afirmações.

O fim do sonho

A partir de 1993, Enrico Mantovani herdou a Sampdoria, mas esteve longe de repetir o sucesso do pai. Em tempos nos quais a Itália abria cada vez mais o seu futebol a estrangeiros e a Lei Bosman mudava a dinâmica do mercado de transferências, o novo presidente se opunha ao que chamava de “doping administrativo” – o gasto acima do que as receitas permitiam. Cada vez mais, o timaço que os blucerchiati tinham montado ia se desmembrando, com as vendas de Mancini, Pagliuca, Katanec e Lombardo. E ainda que contratassem com qualidade (Zenga, Mihajlovic, Seedorf, Verón, Montella, Klinsmann e Ortega estavam entre os craques que chegaram até o final dos anos 1990), não dava para competir com os grandes.

Até o final da década de 1990, a Samp ocupou posições na parte de cima da tabela. Porém, o desastre veio em 1998/99, com o rebaixamento para a Serie B. Os Mantovani deixaram a presidência em 2000, com a ERG e Riccardo Garrone assumindo o comando do clube na década seguinte. Desde então, a melhor colocação na Serie A foi um quarto lugar de 2009/10. Longe de ter o mesmo vigor financeiro, a Sampdoria se tornou um time médio, que por vezes luta para não cair. Mas com o orgulho de ter conquistado o seu único título italiano justamente na época em que era mais difícil de consegui-lo.