Com vários craques brasileiros, o Deportivo montou um esquadrão capaz de superar Barça e Real

Se forem listados os maiores esquadrões da história do futebol espanhol, Barcelona e Real Madrid dominarão a maioria das posições. Atlético de Madrid, Athletic Bilbao, Real Sociedad e Valencia terão algumas menções. E, para orgulho do povo galego, o Deportivo de La Coruña também será citado. Por mais de uma década, os blanquiazules viveram uma realidade muito além do que seus melhores sonhos poderiam apontar até a década de 1980. Montaram times fortíssimos e, apesar de baterem na trave muitas vezes, conquistaram o Campeonato Espanhol.

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A equipe de Javier Irureta pode até não ser a preferida de muitos torcedores. É compreensível, com o Super Depor do início dos anos 1990 ameaçando até o Barcelona de Johan Cruyff. Contudo, nunca em sua história o Depor conseguiu superar a eficiência que teve em 1999/2000. O time tornou o Estádio Riazor um caldeirão para superar Rivaldo e Figo no Barça e o Real Madrid que ganhou a Champions em 1998 e 2000. Graças ao talento de Djalminha, Fran, Mauro Silva, Makaay e outras lendas do clube galego.

A primeira Era de Ouro foi exceção

Fundado em 1906, o Deportivo não demorou a se tornar um clube de peso na Galícia. No entanto, a região não tinha grande representatividade nos primórdios do futebol espanhol, polarizado entre castelhanos, catalães e bascos. Apesar dos quatro títulos galegos entre 1927 e 1933, os blanquiazules não tinham peso suficiente para entrar na primeira divisão de La Liga, em 1929, mesmo participando da fundação. O requisito mínimo para estar da elite era ter chegado ao menos a uma final da Copa do Rei até então, algo limitado a times de quatro regiões. Sem ter ido além das quartas de final, o Depor acabou na segundona.

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O clube passou mais de uma década militando na segunda divisão, até conseguir o sonhado acesso no início dos anos 1940. Entre muitas campanhas brigando para não cair, viveu seu melhor momento no início da década de 1950. Vice-campeão espanhol em 1949/50, a equipe contou com grandes nomes do futebol local – revelando inclusive Luis Suárez, craque da Espanha campeã da Eurocopa de 1964. Contudo, o sucesso não foi duradouro. De 1957 a 1971, a equipe foi e voltou da segundona cinco vezes. Para começar a viver sua maior baixa a partir de 1973.

Em duas temporadas seguidas, o Depor sofreu dois descensos e foi parar na terceira divisão. O retorno foi imediato, mas o clube ficou relegado ao segundo nível entre as décadas de 70 e 80. Postulantes ao meio da tabela, os blanquiazules ainda enfrentaram uma grave crise financeira, com dívidas altíssimas. Problema que se refletia diretamente dentro de campo, com as trocas constantes no comando e a falta de competitividade.

O ano da mudança em A Coruña

A temporada 1986/87 foi de respiro para o Deportivo. Por muito pouco a equipe não retornou à elite. Depois de ficar na vice-liderança da fase de classificação da segundona, acabou caindo para o rival Celta na etapa final do torneio. O problema é que a esperança se rompeu em desespero na temporada seguinte, com os blanquiazules se safando da queda à terceirona de maneira épica. Na rodada final de 1987/88, venceram o Racing de Santander com um gol nos acréscimos, salvos da degola apenas nos critérios de desempate. O último sufoco que o Depor passaria antes de começar a desfrutar de suas glórias.

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A mudança vital aconteceu na presidência do clube. Augusto César Lendoiro chegou ao comando do Deportivo em um momento de vácuo político, na terceira rodada de candidaturas e sem a necessidade de eleições. Dirigente com boa experiência em equipes regionais, especialmente no hóquei sobre patins, o novo chefe tratou de sanar as contas dos galegos e iniciar o projeto de retorno à primeira divisão. Que, em pouco tempo, deixou claro que poderia ir além disso.

Fran, um dos maiores ídolos da história do Deportivo

Fran, um dos maiores ídolos da história do Deportivo

O escolhido para reerguer o time dentro de campo foi Arsenio Iglesias. Atacante idolatrado do Depor na década de 1950, o veterano se tornou o técnico do clube pela segunda vez em 1988, após uma passagem no início dos anos 1980. O Raposo de Arteixo tinha grande liberdade para conduzir o novo projeto, apostando principalmente em jovens jogadores. Entre os nomes que já apareciam na equipe principal estava o meio-campista Fran, garoto de grande qualidade técnica que foi trazido do Fabril também em 1988.

Embora tenha sido apenas o 10º colocado na segunda divisão em 1988/89, o Deportivo demonstrou seu potencial na Copa do Rei, eliminado apenas nas semifinais. O clube quase conseguiu subir no ano seguinte, para finalmente cumprir o seu objetivo em 1990/91. O vice-campeonato na segundona já foi suficiente para o acesso direto. Daquele momento em diante, os blanquiazules passariam a viver sua verdadeira transformação. Atraindo mais torcedores e com a crise financeira controlada, o Depor aproveitaria a exposição de La Liga para crescer.

O Super Depor encantou, mas frustrou

O Deportivo reestreou no Campeonato Espanhol após 19 anos com um lema: “Caminha ou reinventa”. E a reinvenção comandada por Lendoiro e Iglesias foi praticamente imediata. A equipe começou a ganhar força a partir de 1991/92, com a contratação de jogadores com rodagem. O lateral Luis López Rekarte, que defendia o Barcelona, foi o principal acréscimo naquele ano, em que também foram comprados o goleiro Francisco Liaño e o atacante Claudio Barragán. Todavia, a campanha no ano de retorno foi sofrível, com os galegos escapando da queda só depois de vencer o Betis nos playoffs de rebaixamento.

Muro

Já a montagem definitiva do esquadrão do Deportivo aconteceu a partir do segundo semestre de 1992. Advogado por formação, Lendoiro era conhecido por ser um negociador muito duro e hábil. E sua capacidade nas conversas foi considerada o principal motivo para as duas estrelas que desembarcaram no Estádio Riazor naquele ano: o consagrado Bebeto e o promissor Mauro Silva, ambos especulados por outros clubes europeus. O presidente convenceu os dois jogadores sobre as semelhanças entre o clima da Galícia com o do Brasil. Além disso, aproveitou o dinheiro da transformação do Depor em sociedade anônima para investir: pagou 500 milhões de pesetas, valor alto para a época. Ainda assim, menos do que o Real Madrid tinha gasto para tirar Ivan Zamorano do Sevilla, por 750 milhões de pesetas.

O impacto dos brasileiros no Riazor foi imediato. A equipe mostrou do que era capaz em 3 de outubro de 1992, dia que ficou conhecido como o nascimento do Super Depor. O Real Madrid foi recebido sob vaias em A Coruña, mas bastaram 25 minutos para os merengues abrirem dois gols de vantagem. Para uma reação inimaginável do Depor. Empurrado pela torcida, o time da casa balançou as redes duas vezes com Bebeto e contou com um gol contra de Ricardo Rocha para vencer por 3 a 2. Trezes dias depois, a confirmação da fase com a vitória por 1 a 0 sobre o “Dream Team” do Barcelona, outra vez sob o brilho de Bebeto. Líderes por 13 rodadas, os galegos perderam força no segundo turno, mas ainda assim acabaram em terceiro, quatro pontos atrás dos blaugranas. Bebeto foi o artilheiro da liga e Fran, eleito o melhor jogador.

Classificado para um torneio continental pela primeira vez, o Deportivo seguiu investindo em reforços, incluindo o brasileiro Donato, trazido do Atlético de Madrid. Eliminados nas oitavas da Copa da Uefa, os blanquiazules ficaram a um triz do título espanhol em 1994. A equipe de Iglesias aumentou sua solidez defensiva e o jogo vertical, assumindo a liderança a partir da 14ª rodada. Nada parecia tirar a taça dos galegos, que chegaram ao último jogo um ponto à frente do Barcelona. No entanto, o time não foi além do empate por 0 a 0 com o Valencia no Riazor, permitindo o tetra dos blaugranas. Aos 44 do segundo tempo, a maior dor da história do clube: o pênalti que poderia consagrar o Depor foi negado por Bebeto e desperdiçado por Miroslav Dukic. Chute defendido (e comemorado) pelo goleiro José Luis González – tempos depois, os jogadores dos Ches admitiram a “mala branca” paga pelo Barça para aquele jogo.

Apesar da frustração, o Deportivo se manteve no mesmo patamar na temporada seguinte. Com as chegadas do veterano Julio Salinas e de Emil Kostadinov, destaque da Bulgária na Copa de 1994, o clube foi outra vez vice-campeão espanhol. Desta vez, porém, a equipe de Iglesias liderou por apenas um curto período, sem alcançar no topo o Real Madrid. Em compensação, os galegos conquistaram o primeiro título nacional de sua história. Ironicamente, o adversário na final da Copa do Rei foi o Valencia, derrotado no Santiago Bernabéu por 2 a 1.

Da entressafra do supertime ao time campeão

A conquista da Copa do Rei também marcou a saída de Arsenio Iglesias, que estava decidido a se aposentar – embora tenha aceitado uma proposta do Real Madrid tempos depois. Sob o comando de John Toshack, o Deportivo começou a oscilar muito mais, ainda que mantivesse um excelente elenco. O time decepcionou em 1995/96, terminando apenas na nona colocação de La Liga, e foi semifinalista da Recopa Europeia, eliminado pelo Paris Saint-Germain. Era o momento para mudanças mais profundas.

A atuação do Deportivo no mercado de transferências foi intensa. O elenco perdeu Bebeto, Liaño e Rekarte, mas compensou bem nas contratações. Em tempos nos quais o futebol espanhol vivia sua bonança, Lendoiro aproveitou a alta recente dos blanquiazules para tentar competir com Real Madrid e Barcelona. Se blaugranas e merengues quebravam a banca para trazer Ronaldo e Mijatovic, o Depor não ficou muito atrás, ao tirar Rivaldo do Palmeiras. Dos alviverdes também veio Flávio Conceição, enquanto Renaldo chegou do Atlético Mineiro. Se a aposta nos brasileiros tinha dado tão certo anos antes, o trio de jovens talentosos era a nova aposta dos galegos. Já a defesa ganhou dois ótimos acréscimos com o goleiro Jacques Songo’o e o zagueiro Noureddine Naybet.

Rivaldo

A sequência de oito jogos sem vencer na virada dos turnos, bem como as brigas constantes com Rivaldo, fizeram com que Toshack fosse demitido para a chegada de Carlos Alberto Silva. O apoio ao craque foi óbvio: com 21 gols e lances espetaculares, Rivaldo carregou o Deportivo à terceira colocação na liga. O problema mesmo é que Real Madrid e Barcelona tinham dado um salto significativo naquela temporada e encerraram a campanha mais de 15 pontos à frente.

O sucesso imediato de Rivaldo o tirou do Riazor já na temporada seguinte. Ao perder Ronaldo para a Inter, o Barcelona foi buscar o meia em A Coruña, batendo o recorde de contratação mais cara feita por um clube espanhol até então, cerca de US$ 16 milhões. A ausência de Rivaldo foi insuperável naquele momento, por mais que a reposição tenha sido de respeito: os espanhóis voltaram a bater nas portas do Palmeiras e contrataram Djalminha, além do atacante Luizão, que teve vida curta na Galícia. Porém, em mais uma temporada na qual demitiram o técnico no meio da campanha, os blanquiazules ficaram na modesta 12ª colocação em La Liga.

O cara que pôs o Deportivo no topo

A ascensão do Deportivo rumo ao título espanhol teve um passo importante em meados de 1998. Naquela temporada, Lendoiro finalmente acertou na escolha de um herdeiro para o legado de Iglesias: apostou em Javier Irureta. O técnico basco não tinha feito trabalhos muito duradouros na década de 1990, mas vinha de uma passagem louvável pelo Celta, classificando a equipe modesta à Copa da Uefa. Os rivais não tiveram pudores em levá-lo ao Riazor, onde chegou com a missão de solidificar a renovação da equipe.

Sua primeira temporada à frente serviu mais para o encaixe das peças. Alguns jogadores importantes foram contratados pelo Deportivo, entre eles Manuel Pablo, Enrique Romero, Turu Flores e Pauleta. E os blanquiazules melhoraram bastante o seu desempenho no Campeonato Espanhol, ainda que tenham ficado longe de disputar o título. A sexta colocação era uma evolução tremenda, apenas cinco pontos atrás do Real Madrid, vice-campeão. A goleada sobre os merengues por 4 a 0 no primeiro turno, bem como o triunfo por 1 a 0 sobre o Barcelona semanas antes, serviram para recuperar a confiança na Galícia.

Irureta

Classificado à Copa da Uefa, o Deportivo fez contratações pontuais para a temporada do título. Negócios que se mostraram mais do que acertados nos meses seguintes. O principal reforço vinha para o ataque: Roy Makaay havia sido o destaque do rebaixado Tenerife na temporada anterior, com 14 gols marcados. Para o meio-campo, Slavisa Jokanovic e Jaime Fernández eram duas apostas de baixo custo, enquanto Victor Sánchez vinha como promessa frustrada do Real Madrid, pronto para se redimir. A renovação estava completa, com apenas três remanescentes do Super Depor: Mauro Silva, Donato e Fran. Três lideranças indiscutíveis no grupo, e que seguiam como titulares.

Independente da qualidade do Deportivo, a concorrência era duríssima. O Barcelona tinha Rivaldo em fase espetacular, ainda que às turras por Louis van Gaal, e muito bem acompanhado no setor ofensivo por Kluivert e Luís Figo. O Real Madrid, mais dedicado à Champions, tinha à disposição o talento de Raúl, Roberto Carlos, Redondo e Morientes. Em ascensão, o Valencia era liderado por Mendieta e Cláudio López. Embora prometesse mais do que tenha feito, o Atlético de Madrid tinha contratado Hasselbaink e Gamarra no início da temporada. E outros tantos pareciam prontos para surpreender, como o Celta (de Makélélé e Karpin), o Mallorca (de Eto’o e Tristán) e o Zaragoza (de Milosevic e Toro Acuña).

Pioneiros em uma inovação tática

Javier Irureta contava com um elenco bastante equilibrado para montar a sua equipe. À disposição do técnico, havia defensores consistentes, meio-campistas técnicos e atacantes matadores. O comandante era conhecido por sua postura conservadora ao montar o time, preferindo evitar maiores sustos. No entanto, o talento individual permitiu uma inovação tática que hoje é praxe no futebol: para dar mais liberdade a Djalminha na armação, o técnico adaptou o 4-4-2 em 4-2-3-1, esquema muito funcional para as peças que tinha.

Deportivo became the second-smallest team to win La Liga in 2000

Djalminha era o craque do time. Solto para criar e chegar mais à frente, o meia desequilibrou em várias partidas daquela campanha com seus dribles e lances de genialidade. Era quem mais se aproximava de Roy Makaay, a outra grande referência ofensiva. Centralizado na grande área e dono de um faro de gol impressionante, o holandês foi mortal durante a campanha do título, anotando 22 tentos em 36 partidas. O camisa 7 era intocável no time, ainda que tivesse Pauleta para lhe fazer sombra. Outra alternativa era Turu Flores, que podia deixar o time em um 4-4-2 mais tradicional, com dois atacantes de ofício.

O meio-campo robusto tinha a proteção garantida pela ótima dupla de volantes. Mauro Silva era o cabeça de área com ótima qualidade para saída de bola e presença física, atuando ao lado de Flávio Conceição, com mais liberdade para avançar – até mesmo pela potência de seus chutes. Já nas meias, as opções preferidas eram Victor Sánchez e Fran, o outro cérebro do time. Contudo, diante da ausência do veterano em parte da campanha, o seu principal substituto era Jokanovic.

Deportivocampo

Recuado da cabeça de área para o miolo de zaga, Donato era o líder da defesa. O brasileiro atuava ao lado de Naybet, um dos maiores jogadores da história da seleção marroquina, que possuía muita força física. Já nas laterais, Manuel Pablo e Enrique Romero eram bastante contidos nas subidas ao ataque. Tudo para reforçar a proteção ao bom goleiro Jacques Songo’o, que primava pela agilidade e já tinha a experiência de três Copas do Mundo com a seleção de Camarões.

Um alçapão chamado Riazor

A campanha histórica do Deportivo começou com goleada e bom presságio: 4 a 1 sobre o Alavés, com três gols de Makaay. Oscilando demais no início da campanha, os galegos arrancaram mesmo a partir da décima rodada. A equipe recebeu a visita do Barcelona no Riazor e se impôs sobre os atuais campeões. Makaay balançou as redes duas vezes logo nos primeiros 15 minutos e deu tranquilidade para a vitória por 2 a 1. Nem mesmo Rivaldo, melhor jogador do mundo em 1999, pôde evitar o tropeço dos blaugranas. A partir de então, o time emendou sete vitórias seguidas, assumindo a liderança na 12ª rodada. Para não sair mais.

Makaay

A três rodadas do fim do primeiro turno, o Depor chegou a abrir oito pontos de vantagem. Para ajudar, Barcelona e Real Madrid viviam momentos de transição e sequer apareciam nas três primeiras colocações, ocupadas por Celta e Zaragoza. Foi só depois da virada do ano que os galegos viram a sua tranquilidade diminuir, com uma sequência de quatro partidas sem vencer, reduzindo a diferença na ponta para só dois pontos.

Então, imperou a força do time dentro do Riazor, por mais que os resultados longe de casa fossem ruins. Empurrado por sua fanática torcida, o Deportivo venceu nove dos dez jogos que fez como mandante no segundo turno. O maior momento veio na 23ª rodada. Com Djalminha endiabrado, os blanquiazules enfiaram 5 a 2 no Real Madrid. Mauro Silva tinha aconselhado o meia a fazer “algo especial para surpreender” os merengues. Logo de cara, deu uma lambreta em cima de Raúl, que foi questioná-lo pelo lance. “Você faz gols, mas eu, mais do que isso, sou boleiro”, respondeu. Pouco depois, ainda fez o segundo gol em cobrança de falta magistral.

Até a 29ª rodada, o Depor havia vencido todos os jogos em casa e perdido todos fora. Uma sequência que complicou os comandados de Irureta quando o time visitou o Camp Nou. O Barcelona venceu por 2 a 1 e ficou apenas dois pontos atrás na tabela. O término da liga se prometia sofrível para a torcida blanquiazul. O filme de 1994 parecia pronto para se repetir.

Aos trancos e barrancos, o Deportivo recebeu o surpreendente Zaragoza em seu penúltimo compromisso. Após tomar o primeiro gol, o time da casa buscou a virada. Mas a alegria de Djalminha ao marcar o segundo gol se transformou em desespero, quando ele tirou a camisa e tomou o segundo amarelo. A equipe cedeu o empate por 2 a 2 e, sem o craque, ficou no 0 a 0 com o Racing em Santander no duelo seguinte. Por sorte, o Barcelona também tropeçou contra a Real Sociedad, três pontos atrás na rodada final. E o Depor, que precisaria de um simples empate contra o Espanyol, fez a sua parte. Donato e Makaay marcaram os gols que garantiram a vitória por 2 a 0 e o título inédito. O Barcelona acabou com o vice e o Real Madrid, campeão da Champions naquele ano, foi o quarto colocado.

A taça não se repetiu, mas a história continuou sendo feita

A conquista do Deportivo resultou em uma festa incomparável na Galícia. Então com 180 mil habitantes, A Coruña se tornava a cidade menos populosa a vencer uma edição de La Liga. O campo foi invadido pelos 34 mil que lotaram as arquibancadas do Riazor. Uma multidão que se juntou a mais dezenas de milhares de pessoas nas ruas, recebendo os campeões em desfile com a taça. A façanha com a qual os blanquiazules tanto sonharam estava completa.

O sucesso acabou tirando alguns dos destaques do elenco. Flávio Conceição foi levado a peso de ouro pelo Real Madrid, enquanto Pauleta e Jokanovic também saíram. Todavia, Lendoiro não poupou dinheiro para entrar forte na luta pelo bicampeonato e pela Liga dos Campeões. Diego Tristán foi o principal reforço em um mercado que também levou ao grupo Duscher, Molina, César Sampaio e Pandiani. Os galegos chegaram até as quartas de final da Champions, eliminados pelo Leeds após baterem Milan, Juventus e Paris Saint-Germain nas fases de grupos. Já no Espanhol, a sina foi ser outra vez vice-campeão, sem conseguir competir com o Real Madrid em seu primeiro ano galáctico, com Figo.

Em 2001/02, as novidades no time foram Valerón e Capdevilla. Para o time cair de novo nas quartas da LC após boas fases de grupos, desta vez eliminado pelo Manchester United. E para ser vice de La Liga, após liderar parte do segundo turno sete pontos, atrás do Valencia de Rafa Benítez. O último título veio com a segunda conquista da Copa do Rei. Dentro do Santiago Bernabéu, durante as comemorações do centenário do Real Madrid, o Depor desbancou os merengues por 2 a 1. Sergio e Tristán fizeram os gols que calaram o estádio e tornaram aquela decisão conhecida como Centenariazo.

Por fim, o Depor viveu os seus últimos grandes momentos nas duas temporadas seguintes. Duas vezes terceiro colocado no Campeonato Espanhol, o time passou algumas rodadas na liderança, alimentando alguma esperança de reconquista. Já na Liga dos Campeões, a melhor lembrança foi nas quartas de final de 2003/04 contra o Milan, quando os blanquiazules reverteram a derrota por 4 a 1 em Milão, se classificando com os 4 a 0 no Riazor. Contudo, a equipe de Irureta não resistiu ao Porto de José Mourinho na semifinal.

Do topo à beira do caos

Aos poucos, o elenco campeão pelo Deportivo foi se desfazendo. Makaay rumou ao Bayern de Munique, Djalminha entrou em declínio técnico, os veteranos do Super Depor começaram a pendurar as chuteiras. A partir de então, as contas do clube começaram a não bater mais. Oitavo colocado de La Liga 2004/05, o elenco se despediu de Irureta ao final daquela temporada. Sem conseguir montar elencos tão competitivos, os galegos passaram a frequentar o meio da tabela, muito longe dos esquadrões de Barcelona e Real Madrid.

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Lendoiro soube lidar muito bem com a situação quando assumiu o clube. Entretanto, muito mudou ao longo de sua gestão no Riazor. A Lei Bosman inflacionou o mercado de transferências, fazendo os blanquiazules gastarem mais do que tinham para brigar por títulos. As disparidades na distribuição dos direitos de TV também aumentaram o abismo em relação aos grandes. E a leniência do governo espanhol em relação às dívidas dos clubes permitiu que os dirigentes cavassem um buraco cada vez mais fundo.

lendoiro

“Meu grande erro foi não ter vendido os jogadores quando pude, mas o sonho era ganhar títulos. Agora tenho que buscar soluções para os problemas derivados desse objetivo. Mas como canta a torcida do Riazor Blues: ‘Como vou me esquecer que o Deportivo conquistou a liga se foi o melhor que se passou em minha vida’?”, analisou Lendoiro, em entrevista ao El País em 2009, quando o Depor não passava de um time mediano. “Só seria possível repetir o Super Depor se Barcelona e Real Madrid fossem naquela época, não como agora, que têm € 500 milhões para gastar. É preciso respaldo econômico… e um milagre”.

O problema é que o Deportivo esteve muito longe desse milagre. Pelo contrário. Rebaixado após 20 temporadas na elite, o clube vive o sobe e desce desde 2009/10. E poderia ter sido pior, já que os blanquiazules entraram em concordata e estiveram ameaçados de cair à terceirona por conta de dívidas trabalhistas com os jogadores. Atualmente, seus débitos são estimados em € 160 milhões, 50 vezes mais do que quando Lendoiro assumiu a presidência. O dirigente renunciou ao cargo no final de 2013, encerrando uma era de 25 anos. E os galegos, na lanterna de La Liga 2014/15 após sete rodadas, só esperam permanecer na primeira divisão.