(Foto: The Day We Played in Brazil)

Como a Argentina e uma briga entre dirigentes ajudaram a criar a seleção brasileira

Por mais que existam versões que digam o contrário, oficialmente Charles Miller recebeu o título o “pai do futebol brasileiro”. O paulistano filho de ingleses voltou ao Brasil em 1892, após uma temporada de estudos em Southampton. Trouxe consigo uma bola de futebol e outra de rúgbi, iniciando as duas modalidades no país. Mas a verdade é que Miller foi muito mais do que só o introdutor do futebol. Ele foi um dos grandes craques daqueles primórdios, um dos fundadores da federação paulista e também o técnico do protótipo que se tornaria a Seleção.

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A estreia da equipe nacional aconteceu em 21 de julho de 1914. Na verdade, o primeiro time com chancela de seleção, reunindo jogadores de Rio de Janeiro e São Paulo, os principais polos do futebol brasileiro na época. O jogo contra o Exeter City aconteceu pouco tempo depois da criação da Federação Brasileira de Sports, o embrião da CBD, e foi uma maneira de legitimar a entidade recém-fundada. No entanto, os “combinados brasileiros” já existiam desde quase uma década antes.

O primeiro desafio aos forasteiros

O futebol brasileiro já era razoavelmente organizado nos primeiros anos da década de 1910. A Liga Paulista de Foot-Ball foi a primeira a surgir, em 1901, para logo na sequência serem fundadas as entidades de Rio de Janeiro e Bahia. O esporte crescia no país, levando cada vez mais gente aos estádios. Mais do que isso, o Brasil passou a se tornar rota de excursões de equipes internacionais. E, para encarar equipes bem mais experientes, o jeito era montar selecionados com os melhores jogadores da região.

O primeiro desafio a um combinado brasileiro que se tem notícia aconteceu no dia 31 de julho de 1906. O South Africa Football Club, equipe formada por aristocratas sul-africanos, fazia a sua turnê por São Paulo e acabou convidado para um amistoso pela Liga Paulista, empolgada depois da vitória por 4 a 0 sobre a seleção carioca. Charles Miller era técnico e atacante do time que entrou em campo no Estádio do Velódromo, no centro da capital paulista. A equipe reuniu jogadores de quatro clubes: São Paulo Athletic Club, Paulistano, Internacional e Mackenzie. E poderia ser mais forte, não fosse um desentendimento entre a liga e a Associação Atlética das Palmeiras, que tirou alguns dos destaques do time.

Charles Miller, o pioneiro do futebol brasileiro

Charles Miller, o pioneiro do futebol brasileiro

Sem a melhor formação à sua frente, o goleiro Tutu teve muito trabalho contra o ataque sul-africano. Foram seis bolas na rede do goleiro paulista, 6 a 0 no placar. Apesar da derrota acachapante (que, apesar de tudo, não foi um 7 a 1), aquele era considerado a primeira seleção a representar os brasileiros em uma partida. Uma equipe apenas de paulistas, é verdade, que ainda contava com três ingleses. Mas que foi chamada de “Combinado Brasileiro” naquele duelo.

As partidas seguiram se repetindo nos anos seguintes, mas restritas a Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as equipes de outros países desembarcavam no Brasil, era comum a formação de três seleções especiais para enfrentá-los: o combinado brasileiro, com os jogadores nascidos no país; o combinado estrangeiro, basicamente com os ingleses que jogavam no país; e a seleção da liga, reunindo os melhores, independente da origem. Ainda não existia, porém, uma seleção que juntasse os jogadores de regiões diferentes do país. Afinal, as distâncias pareciam bem maiores em uma época na qual o trem era o principal meio de transporte.

Os primeiros clássicos com a Argentina

A segunda partida de grande porte reunindo os principais craques do futebol brasileiro aconteceu em 1908. Foi um clássico continental contra a Argentina. Em amistoso disputado no Estádio das Laranjeiras, os clubes cariocas emprestaram seus jogadores. Eram cinco atletas do Botafogo, outros cinco do Fluminense e mais um do Rio Cricket. Os cariocas deram trabalho para a Albiceleste, mas foram derrotados por 3 a 2. Chegaram até a empatar a partida depois de começarem perdendo por dois gols, mas não deu. Naquele ano, paulistas e cariocas também chegaram a fazer um “Combinado Rio-São Paulo”, mas acabaram goleados por 4 a 0.

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Em agosto de 1910, outro jogo marcante aconteceu contra o Corinthian. O clube londrino que inspirou a criação do Corinthians era amador, mas com força suficiente para desafiar qualquer adversário profissional na Inglaterra. Por isso mesmo, os cariocas montaram outro combinado brasileiro, com nomes de Botafogo, Fluminense e América. E acabaram goleados por 5 a 2 nas Laranjeiras.

Em 1914, a Seleção enfrenta o Exeter nas Laranjeiras

Em 1914, a Seleção enfrenta o Exeter nas Laranjeiras

Já a partir de 1912, esses amistosos internacionais se tornaram ainda mais frequentes. Em setembro, a seleção argentina veio ao Brasil durante as comemorações do 90º aniversário da Independência do Brasil. A primeira parada aconteceu em São Paulo, onde a Albiceleste enfrentou um combinado brasileiro com os jogadores de clubes paulistas. Era a estreia de Arthur Friedenreich em um amistoso internacional, mas nem isso evitou a goleada dos vizinhos por 6 a 3 – com direito a um gol de honra do Tigre.

Quatro dias depois, os argentinos encararam o combinado de cariocas nas Laranjeiras. Mais um passeio, desta vez por 4 a 0. E um terceiro jogo aconteceu quase na sequência, contra um combinado brasileiro. Diante de 7 mil torcedores, a Argentina abriu três gols de vantagem durante o primeiro tempo. Um resultado que fez Julio Roca, ex-presidente que estava no estádio em missão diplomática, pedir aos seus compatriotas para tirarem o pé. “Rapazes, o Brasil está festejando sua data nacional. Hoje vocês têm de perder. Por favor, façam isso pela pátria argentina! Percam pela pátria!”, disse, em um momento no qual os dois países viviam tensões comerciais e militares. Os argentinos venceram por 5 a 0, embora tenham dito a Roca depois que desaceleram o ritmo.

Até o final de 1913, foram pelo menos outros quatro jogos de combinados nacionais: duas derrotas e um empate contra um combinado chileno, mais uma derrota para o Corinthian. O interesse pelo futebol no Brasil aumentava, assim como os jogos entre as equipes nacionais. Até que um movimento maior de organização culminou na formação da verdadeira seleção brasileira em 1914.

A confederação que tem um time

O início do processo que deu origem à Seleção começou em uma briga política. As disputas pelo poder no futebol paulista eram marcadas por duas entidades diferentes, a LPF e a Associação Paulista de Sports Athléticos, que seguiriam em disputa por décadas. Organizações rivais, que também almejavam centralizar o controle do esporte no país. A Apsa (depois aportuguesada para Apea) se antecipou e se uniu à LMSA (Liga Metropolitana de Sports Athléticos), do Rio de Janeiro. Juntas, fundaram em junho de 1914 a Federação Brasileira de Sports, que também reunia outras entidades. Na mesma reunião que originou a nova entidade, também surgiram o Comitê Olímpico Brasileiro e a Federação Brasileira de Sports Terrestres.

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O time organizado pela FBS, futura CBD, era justamente a seleção brasileira. O adversário escolhido foi o Exeter City. A Argentina estava organizando a vinda de um clube inglês para o país e tentava trazer o Tottenham. Só conseguiu acordo com os Grecians, da terceira divisão local. O Rio de Janeiro era uma das paradas do navio. E os alvirrubros acabaram marcando três amistosos no Brasil antes do retorno ao país – um deles, contra o Brasil, em duelo arranjado pela LMSA. Por causa da entidade, portanto, que este é considerado o primeiro jogo da Seleção.

Foram jornalistas que deram a ideia de formar um time que não contasse com os estrangeiros que jogavam no país, para “demonstrar com maior precisão o grau de desenvolvimento em que se acha o querido esporte do Brasil”, como relatou o Correio da Manhã. Além disso, o Brasil já tinha marcado para setembro uma excursão para a Argentina, onde disputariam uma taça contra a seleção vizinha – doada justamente por Julio Roca, para servir de “estímulo à juventude que em nossos países cultiva esse nobilíssimo esporte”.

A primeira formação da Seleção, em 1914

A primeira formação da Seleção, em 1914

O confronto com o Exeter contou com boa repercussão na imprensa de Rio de Janeiro e de São Paulo. Os jogadores ingleses ficaram hospedados no Hotel dos Estrangeiros, considerado o melhor do Rio de Janeiro, e eram tratados como estrelas pelo público. E, mesmo sendo disputada em uma tarde de terça-feira, a partida nas Laranjeiras contou com excelente público. Cerca de 10 mil pessoas se aglomeraram na arquibancada e nas cercas ao redor do campo para assistir ao grande encontro prometido – incluindo marinheiros escoceses, apoiando os jogadores britânicos ao som de gaitas de fole. Senhores e senhoras elegantes para o evento social que se organizava no estádio.

Em sua primeira página, o Estado de S. Paulo publicou no dia seguinte ao jogo: “As arquibancadas do campo do Fluminense Foot-Ball Club começaram desde cedo a encher-se de inúmeras famílias pertencentes à mais distinta sociedade. À volta do campo, uma compacta multidão espremia-se de encontro à tela de arame que protege o campo. A todo momento os bondes e automóveis despejavam dezenas de espectadores. Bem cedo não havia mais acomodações, estando as arquibancadas completamente repletas, muitos por falta de lugar, subiram ao teto do pavilhão”.

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O primeiro jogo e o primeiro título

O Brasil, escalado por uma comissão de jogadores, entrou em campo com: Marcos Carneiro de Mendonça; Píndaro de Carvalho e Nery; Sylvio Lagreca, Rubens Salles e Rolando; Abelardo, Oswaldo Gomes, Friedenreich, Osman e Formiga. Sete jogadores de clubes cariocas e quatro de paulistas formavam aquela Seleção. O grupo de amadores teriam pela frente os temíveis profissionais ingleses, para começar a escrever a história da equipe nacional.

Friedenreich é retirado de campo contra o Exeter

Friedenreich é retirado de campo contra o Exeter

O Exeter City não estava muito interessado no jogo durante o primeiro tempo. E isso permitiu que o Brasil tomasse vantagem. Oswaldo Gomes abriu o placar em um chute de fora da área, logo aos 15 minutos. E coube a Osman ampliar a diferença, pouco antes do intervalo, para “o público prorromper em aclamações verdadeiramente delirantes”, como descreveu o Estado. No segundo tempo, os ingleses partiram para cima, mas o Brasil segurou o resultado. Então, os visitantes resolveram partir para a violência. A imagem de Friedenreich ensanguentado, após perder dois dentes, é emblemática. O Tigre acabou carregado nos braços da torcida.

O primeiro episódio épico de uma história de mais de 100 anos, de mais de mil jogos. Em setembro de 1914, a Seleção viajou à Argentina para mais alguns amistosos e para a disputa da Copa Roca. O jogo aconteceu no dia 27, em Buenos Aires. Rubens Sales abriu o placar durante o segundo tempo. Já na segunda etapa, Leonardi empatou. Um gol ajudado por um toque de mão, que o árbitro (brasileiro, em um tempo de cavalheiros) Alberto Borgeth ia confirmando. Os argentinos, porém, denunciaram a própria infração e abriram caminho para a vitória. O goleiro Marcos Carneiro de Mendonça chegou a ser carregado em exaltação pela torcida adversária. A seleção brasileira encerrava o seu primeiro ano de existência com a primeira taça.