CUIABÁ, BRASÍLIA E SÃO PAULO - Estava lá, na Chapada dos Guimarães, andando calmamente por entre aqueles maravilhosos paredões de pedra, cerrado e água. No meio da trilha, escuto um inglês falando para o outro: “Cara, vou fazer uma tatuagem do Brasil assim que chegar a Londres”. O outro responde: “Eu também!” Eu queria saber o desenho que eles iam fazer, mas logo passa um casal de russos falando alto, os ingleses param para ver uma arara e eu fico sem saber se eles vão desenhar um Fuleco, um escudo da CBF, uma praia ou um boi Caprichoso. São muitas emoções – e trocentas opções.

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O aeroporto de Brasília, quem diria, conseguiu dar conta de receber todas essas pessoas 

O russo, é bom que se diga, não falava nada que eu pudesse compreender, mas falava alto o suficiente para encobrir a tatuagem do inglês. Ele fez vários selfies na cachoeira, na trilha, na vida. Seria legal saber o que ele achou da caipirinha ou das araras, mas o máximo de russo que sei são resquícios da União Soviética: perestroika, glasnost e Boris Iéltsin. Não ficaria bem, claro, começar uma conversa falando “Me, Perestroika! Rússia… Glasnost!”. Enfim, mais uma oportunidade perdida nesta longa estrada da vida. Encontrei centenas de russos em Cuiabá, e o máximo de interação possível foi escutar de um deles, num restaurante: “Me, Sibéria. From Sibéria to Moscou. From Moscou to Madri. From Madri to São Paulo. From São Paulo, very interesting, very interesting city, to Cuiabá. From Cuiabá to the rest of Brasil. Bonito. Iguaçu. Very good, beautiful country”. E eu ficava imaginando como aqueles caras estavam se virando pelo país sem falar inglês, português ou qualquer outra língua em alfabeto latino.

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As cenas ainda estavam frescas na cabeça, e precisei recorrer a elas durante o final de semana. Estava conversando com um grupo de amigos, já em São Paulo. Fiz uma parada em casa antes de continuar a cobertura da Copa. Vários deles, com razão, são bem críticos ao Mundial – e têm vários motivos para isso. Um deles me perguntou como estava o caos nos aeroportos. Eu disse que não tinha visto nada. Pelo contrário, as coisas estavam funcionando bem.

- Você teve sorte, ele me disse.
- Vários amigos estão viajando, e as coisas estão realmente funcionando bem, respondi. – É porque os gringos não vieram, ele replicou.
- Eu vi milhares deles país afora, e os meus amigos também, repliquei.
- Não é possível. Não é possível que a gente esteja conseguindo fazer alguma coisa direito. Deve ter alguma coisa errado, o pior deve estar por vir, ele insistiu.
- Cara, se até russos que não falam inglês estão conseguindo se virar, olha, não sei muito bem o que pode dar de muito errado…

Então eu narrei as duas imagens que abrem este texto para explicar que, mais do que funcionar, as coisas estão realmente andando bem. Ele continuou em estado de negação. A coisa chegou naquele impasse em que não adiantava falar mais nada. Neste ponto, para nossa sorte, logo recomeçou o jogo entre Alemanha e Gana. Nós dois agradecemos ao Klose, em silêncio, por ter nos tirado daquele momento chato. Mas que foi, por uma série de razões, bastante interessante.

Russos se divertindo em Cuiabá

Russos se divertindo em Cuiabá: festa é algo que a gente continua sabendo como fazer (foto: Helson França/Portal da Copa)

Um país, um Estado ou uma cidade, no final das contas, também é a soma das histórias que nós contamos sobre ele. Paris não nasceu como a cidade do amor – ela se tornou a cidade do amor a partir das centenas de histórias que as pessoas contaram sobre como o coração bateu mais forte em uma das suas avenidas. Da mesma forma, o “Rio, Cidade Maravilhosa” deve muito da sua fama não apenas à geografia, mas às histórias sobre a vida na cidade durante o período da Bossa Nova.

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O Brasil de hoje é uma história complicada. Ela começou após a ressaca ufanista da ditadura militar e entrou em um período prolongado de fracassomania, um dos raros termos que unem Lula e FHC. Chegamos à conclusão que tudo, no Brasil, está destinado a naufragar miseravelmente num vale de lágrimas. O fracasso virou a obsessão nacional, e o “imagina na Copa” foi só mais uma expressão a engrossar o nosso dicionário de pessimismo menino, pessimismo moleque. Nós fomos engalfinhados pela inflação, pelos impostos, pela desigualdade social, pela violência dos criminosos, pela violência dos policiais, pelo caos urbano. Tudo isso ficou tão grande e tão forte que soterrou qualquer outra narrativa sobre o Brasil. Viramos o país ao contrário do que dizia Pero Vaz de Caminha: em se plantando, nada dá.

Turistas na Chapada dos Guimarães

Turistas na Chapada dos Guimarães: um grupo de ingleses queria até fazer tatuagem do Brasil… (Foto: Leandro Beguoci)

Há uma série de motivos justos para ficar de mau humor com o país. Mas, por alguma razão, algumas coisas boas realmente têm acontecido – e a Copa deu visibilidade a algumas delas.

Algumas, nós já conhecíamos – mas quase tínhamos esquecido. O país é bonito, as pessoas são hospitaleiras e nós fazemos festas muito bem – coisas que os ingleses e os russos lá de Cuiabá não precisaram de muito tempo para perceber. A segunda é que, por incrível que pareça, algumas coisas estão funcionando com eficiência alemã. Vi um grupo de milhares de colombianos desembarcar calmamente pelo belíssimo aeroporto de Brasília, que acabou de passar por uma boa reforma. A Manaus de 2014 é completamente diferente da Manaus que conheci em 2009 – e para melhor, com ônibus mais modernos e linhas que fazem sentido. Até o metrô de São Paulo, quem diria, tem sido apreciado pelos estrangeiros, como mostra essa reportagem do EstadãoEncontrei até gringos bem felizes com o sistema de barcos que ligam o interior do Amazonas a Manaus… É. Pois é.

E há os progressos invisíveis, aqueles que não aparecem no Mundial. Alguns deles, em um dos nossos campos mais esburacados. Segundo a Transparência Internacional, o Brasil está em 72º lugar no ranking mundial de corrupção, entre 177 países. O país mais bem colocado é a Nova Zelândia. O lanterninha é a Somália. Entre as principais economias emergentes, o Brasil é o mais bem colocado: estamos à frente de África do Sul, China, Índia e Rússia. Na América Latina, estamos à frente de Argentina, Colômbia e México. Nas últimas duas décadas, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, passando por Lula e Dilma, o país tem dado passos significativos em educação e redução de desigualdades sociais. Aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo que perdemos um tanto a medida das coisas – e aconteceu também que nós nos tornamos um país mais crítico, na medida em que mais e mais gente entrou na universidade. Nós estamos aprendendo a exigir melhores governos, melhores produtos, melhores serviços. Nem os Estados nem as empresas podem ficar na zona de conforto.

Russos na Chapada dos Guimarães

Russos na Chapada dos Guimarães: eles não falam inglês nem português, e estão se virando bem. Quem diria? (Foto: Leandro Beguoci)

Obviamente, nada disso apaga os nossos problemas nem a urgência em resolvê-los. Só quem vive o país todo dia sabe o quanto as nossas cidades podem rapidamente se transformar num dos círculos do inferno – e sem metrô para dar uma fugidinha ao purgatório. Porém, tem alguma coisa boa acontecendo. Várias, aliás, como essa Copa está mostrando.

Tanto o pessimismo quanto o otimismo exagerado enganam, e a Copa é um bom exemplo de quanto o pessimismo exagerado pode criar uma enorme dissonância cognitiva. É preciso ter serenidade para colocar a bola no chão, entender o que está acontecendo e usar a cabeça para, quem sabe, começar a construir uma narrativa para o Brasil que vá além da euforia de Aquarela do Brasil ou do catastrofismo de que a melhor saída para o país é o… aeroporto (com passagem sem volta para algum lugar da Europa). Não é fácil, é verdade. Mas uma hora teria de começar – e justamente por uma das nossas melhores ferramentas para entender o Brasil.

Essa Copa mostra que o futebol continua sendo uma das ideias mais poderosas para entender o Brasil, como defende o escritor José Miguel Wisnik no livro “Veneno Remédio” . Por meio dele, a partir deste Mundial, a gente está dando os primeiros passos para compreender que o país é muito mais complicado, mais interessante, do que os chavões da nossa rotina. Ele mostra os limites do governo e da oposição, dos clichês otimistas e da nossa indiferença cínica. De ópio do povo, o futebol virou um dos nossos melhores remédios para fugir da loucura dos debates insanos – e dar o passo seguinte para construir um país do qual a gente se orgulhe muitas vezes por ano, e não apenas durante a Copa.

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