Como a Copa da Ásia ajuda a contar a história geopolítica de todo o continente

A mera presença da Palestina na Copa da Ásia de 2014 é uma enorme vitória. Para um país que luta por seu orgulho nacional e convive com as mortes do sangrento conflito com Israel, o fato de possuir uma seleção nacional se torna uma dificuldade imensa. Os clubes da Faixa de Gaza e da Cisjordânia não se enfrentam, os jogadores encontram enormes dificuldades apenas para se encontrar e as próprias instalações esportivas são alvos de bombardeios. Mesmo assim, os palestinos superaram todos os prognósticos ao vencerem a AFC Challenge Cup de 2014 e alcançarem a inédita classificação para o torneio mais importante do continente. E isto em um ano no qual a guerra com os vizinhos judeus se intensificou.

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Os conflitos e tensões políticas, aliás, são costumeiros na Copa da Ásia. Nestas eliminatórias, três seleções sequer puderam mandar os seus jogos dentro do próprio país, por causa das guerras civis: Síria, Iraque e Iêmen. Episódios que se repetem ao longo da história do torneio. Afinal, quando a competição nasceu, em 1956, muitas das nações asiáticas começavam a conquistar a independência, enquanto utras buscavam a afirmação depois dos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial. E as recorrentes lutas armadas na região, sobretudo no Oriente Médio, também tiveram os seus efeitos dentro de campo.

Edição a edição, confira as vezes em que a história de geopolítica no continente se cruzou com a Copa da Ásia.

1956, Hong Kong – Coreia do Sul campeã

A primeira edição da Copa da Ásia contou com a participação de apenas oito seleções desde as eliminatórias, entre diversas desistências de países que ainda engatinhavam no futebol. A organização ficou por responsabilidade de Hong Kong, que seguia sob administração britânica. O primeiro título foi conquistado pela Coreia do Sul, que havia saído de uma guerra civil três anos antes. Já entre os outros participantes da fase decisiva estavam Israel, que lidava com a crise pelo controle do Canal de Suez na Península do Sinai, e o Vietnã do Sul, que se proclamou como república no ano anterior, após a independência da França.

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1960, Coreia do Sul – Coreia do Sul campeã

Sinal da reconstrução vivida no país após a guerra, a Coreia do Sul ganhou o direito de sediar a segunda edição da Copa da Ásia. Israel e Vietnã do Sul outra vez figuraram na fase final, mas não evitaram o bicampeonato dos sul-coreanos. Já a novidade foi a participação da República da China, atual Taiwan. Após a guerra civil, que instaurou o regime comunista de Mao Tsé-Tung a partir de 1949, a federação de futebol chinesa transferiu-se para a ilha e seguiu organizando a sua antiga seleção, filiada à Fifa. Durante as eliminatórias, ainda houve um explosivo grupo reunindo Israel, Irã, Paquistão e Índia, que mantiveram a diplomacia na ocasião.

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1964, Israel – Israel campeão

Sinal da relativa tolerância na confederação, Israel ganhou o direito de organizar a terceira edição da Copa da Ásia, distribuindo as partidas em quatro cidades – entre elas, Jerusalém. No entanto, nenhum país muçulmano sequer participou das eliminatórias do torneio. Com o caminho aberto, a Índia disputou pela primeira vez da fase final da competição, dois anos depois de ter enfrentado a Guerra Sino-Indiana, por desacordos nas fronteiras com a China.

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1968, Irã – Irã campeão

Cinco anos depois da Revolução Branca, em que o Xá Mohammed Reza Pahlavi ocidentalizou o país com uma série de reformas, o Irã sediou a Copa da Ásia. A qualificação chegou a contar com o duelo entre Paquistão e Índia, que dois anos antes haviam se enfrentado em uma guerra por regiões fronteiriças. Já entre os classificados, a seleção da Birmânia, que havia sofrido um golpe militar em 1962. O jogo mais importante, no entanto, aconteceu entre Irã e Israel, confirmando o título dos anfitriões. Embora os persas não tenham tomado parte no conflito, a Guerra dos Seis Dias havia mexido com a geopolítica do continente em 1967. E vencer aquela partida passou a ser questão de honra. Vitória de virada dos iranianos por 2 a 1, com os dois gols anotados depois dos 30 minutos do segundo tempo, para uma enorme festa em Teerã.

1972, Tailândia – Irã campeão

Embora servisse de base para os Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, a Tailândia acabou escolhida para receber a Copa da Ásia. Originalmente o torneio deveria ser disputado em Israel, mas a intensificação do conflito com os árabes tirou o país do torneio. Pela primeira vez, o Vietnã do Sul ficou de fora da disputa das eliminatórias. Da mesma maneira, a Guerra Indo-Paquistanesa de 1971, que também culminou na independência do Bangladesh, tirou Índia e Paquistão do páreo. Entre os estreantes na fase final, estavam a República do Khmer (atual Camboja, que vivia um conflito civil entre comunistas e capitalistas, em paralelo à Guerra do Vietnã) e o Iraque (em um período de relativa estabilidade política, após os golpes de estado da década anterior). Pela segunda vez seguida, o Irã ficou com a taça.

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1976, Irã – Irã campeão

Três anos antes da revolução que levou o Aiatolá Khomeini ao poder e transformou o país em uma república islâmica, o Irã sediou a Copa da Ásia outra vez. Naquele momento, uma nação suficientemente estável diante dos conflitos que se desenrolavam pelo continente. A pressão encabeçada pelo Kuait expulsou Israel da confederação asiática em 1974, um ano depois da Guerra do Yom Kippur, que também envolveu Egito, Síria e Iraque. Já a China também barrou a participação de Taiwan nas eliminatórias. A fase final do torneio contou com a participação inédita dos chineses, e também do Iêmen do Sul, país socialista que se dissolveu após a unificação com o Iêmen do Norte em 1990. A Coreia do Norte também deveria estar na etapa decisiva, mas abriu mão da vaga.

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1980, Kuait – Kuait campeão

O interesse do Xeique Fahad Al Ahmed pelo esporte tornou o Kuait uma potência na Ásia entre os anos 1970 e 1980. Uma influência decisiva para a saída de Israel da confederação e também para que o país se tornasse sede do torneio em 1980. Entretanto, o certame esteve ao lado de um barril de pólvora naquele ano. A Guerra Irã-Iraque estourou durante a fase de grupos, e a imprensa kuaitiana passou a apoiar os iraquianos. Apesar da situação difícil, que incluía a morte do irmão do atacante Hassan Rowshan no conflito, a seleção iraniana se manteve no torneio e caiu para os anfitriões nas semifinais. Apesar da guerra iniciada pela União Soviética, o Afeganistão participou da fase qualificatória. Já a Síria, que lidava com um conflito civil com os islâmicos, chegou à etapa final do torneio pela primeira vez, assim como a Coreia do Norte, Bangladesh, Catar e Emirados Árabes Unidos – os três últimos, após conquistarem a independência do domínio britânico na década de 1970.

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1984, Cingapura – Arábia Saudita campeã

Desfrutando de um grande crescimento econômico, Cingapura recebeu a Copa da Ásia. Apesar da guerra com o Iraque, o Irã resolveu entrar na disputa e se classificou para a fase final, assim como aconteceu com a Índia, em conflito com o Paquistão. Sob o comando do Rei Fahd, um dos incentivadores do futebol no país, a Arábia Saudita avançou pela primeira vez ao torneio. E a equipe que já contava com alguns dos futuros convocados para a Copa de 1994 deu aos sauditas o seu primeiro título continental.

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1988, Catar – Arábia Saudita campeã

Investindo no futebol desde o início da década de 1980, quando contratou o técnico Evaristo de Macedo, o Catar conquistou o direito de sediar o torneio em 1988. As questões diplomáticas pautaram a divisão das eliminatórias, com Iêmen do Sul e do Norte em grupos diferentes, assim como Paquistão e Índia. E aquela edição do torneio marcou a inédita classificação do Japão, que começava a organizar o futebol profissionalmente, após ter aberto mão de disputar o qualificatório em seis das oito edições anteriores.

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1992, Japão – Japão campeão

Às vésperas de realizar a primeira edição da J-League, o Japão trouxe a Copa da Ásia para o país. E os nipônicos foram à desforra ao superarem na caminhada rumo ao título dois duelos com pano de fundo político: o empate por 1 a 1 com a Coreia do Norte ajudou na classificação durante a primeira fase, enquanto os Samurais Azuis bateram a China por 3 a 2 nas semifinais. Apesar da Guerra do Golfo ter se encerrado no ano anterior, o Kuait chegou a disputar as eliminatórias, enquanto a Arábia Saudita caiu na decisão. O Iraque, por sua vez, ficou de fora.

1996, Emirados Árabes Unidos – Arábia Saudita campeã

Seguindo a rotatividade entre as novas potências futebolísticas do Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos ganharam o direito de sediar a Copa da Ásia. E aquela foi a primeira edição que contou com as antigas repúblicas soviéticas nas eliminatórias, com o Uzbequistão conseguindo a classificação. Já o Iraque retomou as suas atividades no torneio e conquistou a vaga após 20 anos de ausência, chegando a vencer o Irã na fase de grupos – em jogo que contou até mesmo com um pôster de Saddam Hussein no gramado e com volta olímpica dos iraquianos após o triunfo por 2 a 1.

2000, Líbano – Japão campeão

Dez anos depois da guerra civil que deixou mais de 100 mil mortos, o Líbano sediou a Copa da Ásia para demonstrar a tranquilidade que imperava no país naquele momento. O qualificatório também contou com a participação inédita da Palestina, que fora reconhecida pela Fifa em 1998. Outra vez Irã e Iraque se enfrentaram na fase de grupos, desta vez com triunfo dos persas por 1 a 0, gol de Ali Daei. Já nas semifinais o Japão bateu a China por 3 a 2, vitória essencial para o terceiro título continental dos Samurais Azuis.

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2004, China – Japão campeão

Vivendo o seu auge econômico, a China sediou a Copa da Ásia de 2004 e viveu a sua melhor campanha, repetindo o vice-campeonato de 1984. No entanto, a decisão contra o Japão ficou marcada pelo ranço entre os dois países. A torcida em Pequim vaiou o hino nacional japonês e levou às arquibancadas cartazes de cunho político. Além disso, uma provocação de Koji Nakata causou a fúria dos chineses na saída do estádio, com 5 mil policiais reforçando a segurança nas ruas da capital. Aquela edição das eliminatórias do torneio também marcou a inédita participação do Timor Leste, após a independência em 2002. Apesar da invasão dos Estados Unidos, o Afeganistão disputou o qualificatório. Já a Coreia do Norte perdeu a chance de classificação depois que o governo local não autorizou os vistos dos jogadores da Jordânia para o duelo em Pyongyang – por conta do episódio, o país acabou banido também da Copa da Ásia de 2007.

2007, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã – Iraque campeão

Os “novos Tigres Asiáticos” receberam a Copa da Ásia em 2007, dividindo as partidas em quatro países. E aquela edição marcou uma das maiores histórias de superação do torneio, com o título do Iraque. Invadido pelos Estados Unidos, o país teve que disputar os seus jogos nas eliminatórias nos Emirados Árabes Unidos. Avançou à fase final e comemorou o título após bater a Arábia Saudita na decisão. O triunfo serviu para reforçar o orgulho nacional dos iraquianos, com jogadores fazendo críticas abertas à situação política vivida no país. As celebrações nas ruas de Bagdá, entretanto, registraram mais de 50 mortes, após um atentado a bomba contra os torcedores. Aquela Copa da Ásia também contou com a desistência do Líbano em meio às eliminatórias, após o início de um conflito entre o Hizbollah e o exército israelense em 2006.

(FILES) A picture taken on July 29, 2007

2011, Catar – Japão campeão

Enquanto Mohammed Bin Hammam presidia a confederação asiática, o Catar foi escolhido para receber a competição pela segunda vez, vencendo Índia e Irã na disputa. A Coreia do Norte voltou à fase final da Copa da Ásia após 19 anos, graças ao título na AFC Challenge Cup de 2010 – época em que o ataque a um navio sul-coreano aumentou as tensões na península. Apesar das chances de cruzamento entre os dois países nas quartas de final, os norte-coreanos caíram na primeira fase. A Copa da Ásia de 2011 também ocorreu concomitantemente com o início da Primavera Árabe no Oriente Médio, que, entre os participantes daquela edição, afetou Jordânia, Bahrein, Síria, Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos. Já o Mianmar, que passava por turbulências políticas, sequer entrou nas eliminatórias.

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