Participar da Copa do Mundo é um sonho para muita gente. E você nem precisa estar dentro de campo para viver isso. Só de sentir a atmosfera dos estádios ou participar da festa das ruas era o suficiente para tornar realidade. Para alguns, esse sonho pode se concretizar através do trabalho. E é assim que muitos imigrantes esperam o Mundial de 2022 no Catar. Mesmo que a exploração seja evidente, a morte os ronde nas obras e não há sequer a certeza de que a Copa será mesmo lá, diante de tantas denúncias. É o que resta a muitos.

LEIA MAIS: A Fifa tem os argumentos para tirar a Copa do Catar

Mohammed Ibrahim é um deles. Trabalhava no Kuwait, mas resolveu se mudar para o Catar só por causa da Copa do Mundo. Ele precisou pagar US$ 3.900 para conseguir emprego no novo país, que lhe garante US$ 275 por mês, metade do total que conseguia ganhar no Kuwait. Sequer pode deixar o emprego por causa da kafala, a lei catariana que faz o ‘passe’ do operário ser preso às vontades do empregador, podendo ter seu passaporte retido em caso de denúncia. Mesmo assim, Ibrahim é consciente de sua situação. “Eu não pensava em nenhum outro lugar para trabalhar. Só queria vir ao Catar, por causa da Copa. Independente do torneio vir ou não para cá, não vejo benefícios a mim. Talvez assistir a um jogo ou dois no estádio, mas é isso”, disse, em entrevista à Foreign Policy.

Ibrahim era um dos 1500 homens que se abarrotavam no pátio de uma obra em Doha para assistir à final da Copa. O chão de cascalho era dividido por fitas, para separar as torcidas. O carpete era o único conforto para quem quisesse ver a partida no telão entre andaimes. Aquela obra conta com cerca de 200 operários, mas recebeu reforço de quem queria passar o fim da noite sonhando com futebol, mesmo sob o calor de 45 graus na cabeça. Porque aquela foi só uma brecha à Copa em meio a uma rotina extenuante.

VEJA TAMBÉM: Denúncias da Anistia Internacional no Catar constrangem Fifa

A exploração sobre Ibrahim é a mesma da maioria daqueles homens. Que chacoalham garrafas com cascalho (a caxirola de verdade, não enfiada goela abaixo) e gritam em inglês, árabe, híndi, nepali, vietnamita ou qualquer outra língua que explicitar as suas origens. Os imigrantes correspondem a 94% dos 1,3 milhões de operários que trabalham no Catar. Que suarão sob o calor escaldante (e muitos morrerão) para construir oito estádios, estradas, metrôs, hotéis, prédios comerciais e quantas mais artificialidades a Fifa pedir para estabelecer seu padrão.

São muitas as denúncias contra as condições de trabalho no Catar. As estimativas são de que cerca de 4 mil trabalhadores morram nas construções até 2022. Mais um motivo contra o país acusado de corrupção em sua candidatura e que corre o risco de perder a Copa. Ainda assim, o Mundial é a esperança de que aquelas condições de trabalho mudem. Sem o torneio, as preocupações com a situação tendem a diminuir. E o crescimento do país não vai parar. “Aqui é como uma cadeia. A lei nos força a fazer tudo. Eles dizem que, se você quiser trabalhar, trabalhe. Mas se você não gostar de algo, não podemos ajudá-lo”, afirma Kesar, operário nepalês que também assistia ao jogo. Ao apito final, a volta à rotina de dor e incertezas.

O texto acima foi baseado na reportagem “It’s like a jail here”, da Foreign Policy. Para ler o texto (em inglês) na íntegra, muito mais completo sobre as explorações que sofrem os operários no Catar, basta clicar aqui.