A máquina de marketing estava preparada, como sempre. Os fones de ouvido saíram do boné com as iniciais, que também batizam a marca de Neymar Jr, e foram colocados à mesa, para todo mundo ver. Atrás, a dúzia de patrocinadores da CBF e, à frente, uma placa alternando entre cada um deles. Mas algo muito importante diferenciou esta das outras centenas de entrevistas que a principal estrela da seleção brasileira deu na sua tão curta quanto brilhante carreira. As declarações não foram de um garoto alheio à realidade e com medo de assumir uma posição. Foram de um homem que fala o que pensa e tem a consciência da sua responsabilidade depois da tragédia de Belo Horizonte. E as lágrimas – espontâneas, enfim! – de alguém que ficou ciente da própria fragilidade.

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Neymar não revelou nenhum segredo de Fátima, não foi categórico em todas as respostas, nem folclórico ou engraçado. Não deu um show, mas foi firme, sem medo de se complicar, algo que se tornou raro no menino que passou por um forte media training quando ainda era muito jovem. As frases não pareciam pré-estabelecidas depois de uma reunião com o assessor de imprensa e os jornalistas não precisaram arrancar as palavras à força. Disse o que estava com vontade de dizer.

Tanto na hora de criticar a entrada de Zúñiga, quanto ao estender-lhe o perdão e apagar as tochas das mãos dos plebeus que ainda se dirigem para crucificar o lateral colombiano. Não se importou em confirmar que vai, sim, torcer pela Argentina na final do Maracanã porque atua ao lado de dois jogadores daquela seleção – Messi e Mascherano – e prometeu xingar o agente Wágner Ribeiro, que usou as redes sociais para ofender Luiz Felipe Scolari.

Em abril, Neymar ativou uma campanha publicitária contra o racismo depois que uma banana foi atirada aos pés de Daniel Alves. Criticamos, neste texto, que até mesmo uma atitude de apoio a um companheiro precisava ser minimamente calculada por uma agência de marketing. Não duvidamos da sinceridade do jogador – acreditamos que ele seja contra o racismo -, mas da falta de espontaneidade do gesto. Questionamos se ainda era possível acreditar que ele tem a capacidade de ser autêntico e fugir da imagem artificial que foi tão bem produzida pelos profissionais.

Ficamos felizes de constatar que foi diferente nesta quinta. Ou Neymar é um ator no nível do Daniel Day Lewis ou chorou as lágrimas que interromperam o marketing. Não foi uma cena preparada para vender a imagem de um homem sentimental ou algo do gênero. Foi a reação esperada de quem se recordava do pior momento pelo qual já passou. O momento que poderia encerrar a sua carreira, por fim ao sonho, do qual desfruta de olhos abertos desde que virou jogador de futebol profissional. Não importa se a diferença entre a recuperação completa e a paralisia foram apenas três centímetros, seis, nove ou 18 quilômetros. O medo não reconhece sistema métrico.

Até janeiro deste ano, Neymar nunca havia passado por uma lesão séria na carreira e tem a energia e a arrogância de todos os jovens. É fácil sentir-se indestrutível aos 22 anos, intocável e imortal, ainda mais uma pessoa admirada, conhecida e famosa como ele. Sofrer uma entrada em algo tão corriqueiro quanto uma partida de futebol, não sentir mais as pernas e ouvir do médico que por pouco não ficou na cadeira de rodas são o pesadelo que acorda qualquer um do sonho mais doce e agradável.

Ainda é cedo para termos certeza que isso aconteceu com Neymar, mas sua primeira entrevista desde o jogo contra a Colômbia indica que ele está começando a percorrer esse caminho. Mesmo sair do Guarujá e aceitar o desafio de enfrentar jornalistas ávidos por sangue – embora essa missão fosse da direção da CBF, que continua calada -, mostra como ele não tenta fugir da sua posição de líder da equipe e que a idade não o impede de servir de para-raios, se isso aliviar o peso e o pesar dos seus companheiros.

Torcemos para que continue assim. Porque o melhor Neymar é o que sorri com a mesma facilidade com que muda de ideia no gramado e decide ir à esquerda ao invés de continuar à direita. O melhor Neymar é o espontâneo, dentro e fora de campo, e se a sua lesão na Copa do Mundo significar que veremos um pouco mais desse ser humano daqui para frente, há ao menos um lado positivo na entrada de Zúñiga que fraturou a terceira vértebra do melhor jogador do Brasil.

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