Há pouco mais de um mês, a Ucrânia passou a centralizar atenções ao redor do mundo. O entrave político que cindiu a população entre os favoráveis à aliança com a União Europeia e aqueles que apoiavam os laços com a Rússia têm um significado histórico para a nação. Mas também seus reflexos para muitos outros países. A postura do governo russo em incentivar o separatismo da Crimeia e intervir militarmente na península (de localização estratégica no Mar Negro) reascende alguns temores adormecidos desde o fim da Guerra Fria.

A situação ganhou proporções maiores nas últimas horas. Embora o referendo fosse apontado como inconstitucional pelos Estados Unidos e pela União Europeia, a população da Crimeia aprovou a anexação de seu território novamente à Rússia – da qual fez parte ainda em períodos imperiais, a partir do Século XVIII. Como resultado, milícias favoráveis aos russos passaram a atacar bases militares ucranianas, naquele que pode ser o estopim para um conflito armado na região. Um oficial ucraniano foi a primeira vítima.

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E, embora a maior preocupação seja mesmo a segurança da população, o futebol é bastante afetado pela crise. Enquanto os clubes do país disputaram seus jogos pelos 16-avos de final da Liga Europa em campo neutro ou com os portões fechados, o Campeonato Ucraniano teve o início de seu segundo turno adiado em duas semanas por conta das disputas políticas. Recomeçou neste final de semana, mas sem que os clubes da Crimeia pudessem jogar em seus estádios. Em um duelo simbólico pela queda de braço das duas regiões, Dynamo Kiev e Tavriya Simferopol se enfrentaram na capital, ainda que o mando fosse do clube do interior. Vitória do Dynamo por 2 a 1, para a alegria de seus torcedores, muitos nacionalistas que participaram das manifestações que culminaram na queda do presidente Viktor Yanukovich, pró-Rússia. Já nas arquibancadas, foi exibido um mosaico com a bandeira da marinha ucraniana (na foto que abre do texto), o que representa a posição contra o referendo na Crimeia.

Os próximos meses deverão ter outros embates em campo que coloquem frente a frente as divergências dos antagonistas na crise ucraniana. O discurso dos clubes de futebol é de neutralidade e em prol da paz, enquanto os próprios ultras dos clubes da primeira divisão assinaram um acordo para manter a ordem diante da situação delicada do país – apontando que o inimigo era ‘a polícia e o governo’. No entanto, as diferenças são evidentes entre clubes do oeste e do leste do país.

Dynamo Kiev e Karpaty Lviv, entre os principais clubes ocidentais, viram muitos de seus torcedores organizados de extrema direita se transformando em milicianos na luta contra as forças policiais de Yanukovich. Do mesmo lado, o Dnipro é bancado por Ihor Kolomoyskyi, bilionário que financiou políticos pró-Europa, responsáveis pela Revolução Laranja em 2005. Já os dois principais clubes do lado oriental, Shakhtar Donetsk e Metalist Kharkiv são bancados por magnatas com ativa participação política, favoráveis a Yanukovich e às alianças com os russos. Rinat Akhmetov, do Shakhtar, foi deputado do partido do ex-presidente, enquanto Sergei Kuerchenko, do Metalist, teve suas contas congeladas após a queda do governo.

Clubes do Campeonato Ucrâniano 2013/14. Ao sul, a Crimeia. O rio Dniper, que corta o país de norte a sul, ajuda a demarcar também a cisão entre o oeste pró-Europa e o leste pró-Rússia

Clubes do Campeonato Ucrâniano 2013/14. Ao sul, a Crimeia. O rio Dniepre, que corta o país de norte a sul, ajuda a demarcar também a cisão entre o oeste pró-Europa e o leste pró-Rússia

Diante do jogo de forças, é difícil imaginar que o futebol passará ileso à crise. E, com a separação da Crimeia, existe a articulação de que esta seja a última temporada dos clubes da península no Campeonato Ucraniano. O Sevastopol admite que já está preparando uma carta para a Uefa e para a Fifa, solicitando a mudança. Já o Tavriya, que enfrenta graves problemas financeiros, deve tomar o mesmo caminho. Único time a quebrar o duopólio de Dynamo e Shakhtar na liga desde que a Ucrânia se tornou independente (campeão na primeira edição no torneio, em 1992), os Krymchyany são os lanternas do certame nesta temporada, somando apenas duas vitórias em 18 rodadas. Seu presidente honorário é Anatolii Mohyliov, ex-Primeiro Ministro da Crimeia e braço direito de Yanukovich na região durante a campanha presidencial de 2010.

“Ainda não tivemos ofertas da Federação Russa, nem conversamos com ninguém. É preciso esperar antes a resolução final sobre a união da Crimeia ao protetorado russo. A federação ucraniana deve decidir se aceitarão clubes em território vizinho, enquanto os russos devem legitimar a situação. Fifa e Uefa terão a palavra final”, declarou Alexander Boytsan, diretor de futebol do Tavriya, em entrevista à agência Reuters.

Por enquanto, a Federação Ucraniana mantém os panos quentes sobre a questão. Prefere não tomar posição, especialmente diante da efervescência política. Porém, lavar as mãos talvez não seja a melhor opção no ambiente que se cria na região. Em fevereiro, durante a pausa de inverno, Shakhtar e Metalist disputaram a ‘Supercopa Unida’, um torneio amistoso contra CSKA Moscou e Zenit – dois clubes fortemente ligados ao Kremlin, pela origem militar dos moscovitas e o gerenciamento da Gazprom sobre o time de São Petersburgo. Foi o protótipo de uma ideia defendida por muitos, de unir os dois campeonatos nacionais em breve. Algo que, pelo menos nos campos de futebol, reforçaria a perda de autonomia dos ucranianos.

Uma competição que unisse os dois países poderia até mesmo ressuscitar rivalidades grandes, como a que existe entre Dynamo Kiev e Spartak Moscou, e impulsionar a liga ao poderio que tinha nos tempos de União Soviética. Contudo, neste momento, não é isso que o projeto representa. Neste momento, está mais para uma aproximação política que é contrária aos anseios que culminaram na queda de Yanukovich. A tradução de uma instabilidade social que se reflete nos clubes de futebol. E que deverá ter novos episódios nas próximas semanas, principalmente envolvendo Tavriya e Sevastopol.


3 respostas para “Como fica a situação do futebol ucraniano após o referendo da Crimeia?”

  1. Anderson disse:

    Me lembra muito o que aconteceu na então Iugoslávia, quando Estrela Vermelha e Dínamo de Zagreb, desempenharam embates gloriosos no gramado, fora a seleção do país que era espetacular.

  2. SH Lee disse:

    Campeonato Russo ganharia muito, mas os times ex-Ucrania talvez não.

  3. Anderson Argoitia Spasic Nunes disse:

    Alguns pontos. Moscou não incentivou o separatismo na Crimeia. Tudo começa quando o governo golpista que está hoje em Kiev aboliu o russo como um dos idiomas oficiais da Ucrânia. Segunda questão, quem governa hoje tem uma tendência russófoba e neofascista, o desejo do Svoboda (partido político de extrema-direita) e do Pravyi Sektor (agrupamento de milicianos de extrema-direita, com alguns deles lutando contra os russos na Chechênia) é expulsar os russos e os judeus da Ucrânia, formar uma nação 100% ucraniana, idealizada nos desejos de Stepan Bandera, ultranacionalista ucraniano, antissemita, russófobo e colaboracionista com as forças do III Reich. Na Crimeia, mais de 54% da população tem origem russa. Não precisava portanto, Moscou incentivar qualquer onda separatista, até porque os próprios crimeianos gostariam de rever toda a situação que envolveu a cessão da Crimeia por parte de Nikita Kruschev. Depois da implosão da URSS, Kiev não fez absolutamente nada para melhorar as perspectivas de vida do povo da Crimeia. Sabe-se que a União Europeia, a OTAN, os Estados Unidos mantém interesse ativo na região, uma forma de amedrontar a Rússia e fincar sistemas de defesa bem perto de suas fronteiras. Washington financiou grupos ligados ao Svoboda e políticos republicanos se reuniram com gente do Pravyi Sektor (Setor Direita). Yanukovich, a despeito de ser corrupto, oligarca e ter atitudes desprezíveis, foi eleito democraticamente. Como ele mantinha laços com Moscou, Washington, através da administração patética de Barack Obama, resolveu “intervir” – como aliás os EUA fazem desde 1945, em mais de 60 países. Franco-atiradores que atiraram contra os ucranianos em Maidan eram pessoas contratadas pelos neofascistas do Pravyi Sektor e do Svoboda. Conversas telefônicas interceptadas por uma importante liderança da UE, Catherine Alshton e, um político da Estônia, mostram que a Europa e os EUA sabiam disso. Então, por tudo isso, fica difícil de aceitar que a Rússia, estimulou algum separatismo na região ou que invadiu a Crimeia. A ideia de trazer a situação dos dois clubes crimeianos depois do referendo – considerado válido por observadores da UE, a despeito de Washington, Berlim, Londres e Paris considerarem inválido – foi ótima. Porém, não podemos demonizar Moscou e tampouco a política externa de Vladimir Putin em todo esse imbróglio que na opinião de grandes especialistas foi criado pelos Estados Unidos.

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