Entre a incomparável conquista da Copa Libertadores e a decisão da Copa Sul-Americana, 36 anos se passaram ao Flamengo. Um hiato longo para figurar nas finais das competições continentais atualmente vigentes na Conmebol, mas que compreende uma história maior dos rubro-negros além das fronteiras. Ao longo da década de 1990, época em que o calendário da confederação sul-americana era recheado de torneios secundários, o Fla registrou relativo sucesso. Foi campeão da efêmera Copa Ouro e duas vezes vice da Supercopa. Mas nada comparado ao sucesso vivido em 1999, quando o time dirigido pelo lendário Carlinhos celebrou a vitória na Copa Mercosul. Um triunfo simbólico para o clube na virada do século, mas que nem sempre acaba destacado como merece.

Eram tempos, afinal, de entressafra para o Flamengo nas competições nacionais. As conquistas, comuns por longos anos, secariam depois de 1992. Pior do que isso, o Fla sentiria o gosto amargo dos resultados. No Campeonato Brasileiro, de 1993 a 2006, apenas uma vez o clube figurou entre os sete primeiros, e justo no ano em que tomou uma goleada acachapante do Vasco, antes de ver os maiores rivais erguerem a taça em temporada infernal de Edmundo. Para piorar, depois de 2000, por vezes os rubro-negros flertaram com o rebaixamento, salvos por entidades místicas e folclóricas que os torcedores vacinados preferem guardar a gratidão, mas não a terrível lembrança. Enquanto isso, na Copa do Brasil, o clube da Gávea era um costumeiro favorito e sempre chegava às fases finais. Para só então ter seu sonho extirpado pelas mais cruéis eliminações.

A geração de flamenguistas que se forjou naquela época aprendeu a sofrer. Era um trauma ver um clube como o Flamengo sequer avançando aos mata-matas do Campeonato Brasileiro, limitado ao coadjuvantismo, sofrendo baques dolorosos principalmente quando atravessava os limites do Rio de Janeiro rumo a outros estados. Porém, este grupo de rubro-negros recém-catequizados aprendeu a valorizar ainda mais a paixão como símbolo da grandeza do clube. E as vitórias, em tempos sofridos e sofríveis, eram melhor saboreadas. A ligação com o que o Flamengo representava, acima do que conquistava, era soldada naqueles anos de desilusão.

Mas não que o pensamento do Flamengo fosse pequeno, longe disso. Se não havia a megalomania da época do centenário, ainda permanecia um Romário imparável para cultivar a geração de fãs. De qualquer maneira, era um time de mais operários do que de grandes estrelas. De jogadores aguerridos, que faziam valer em campo uma palavra mágica ao coração rubro-negro: a raça. E, além do mais, aquele Fla também fincava a máxima de que “talento se cria em casa”, com alguns bons talentos da base despontando.

Já no banco de reservas, o trunfo do Flamengo estava em uma lenda. No comandante que melhor resumiu o espírito rubro-negro, e em diferentes épocas. Carlinhos havia assumido o time em fevereiro, substituindo Evaristo de Macedo. Entre os momentos como interino e efetivo no banco de reservas, o Violino estava em sua sexta passagem como técnico. Trazia uma bagagem de quem, além de tudo o que representou como jogador, faturara os dois últimos títulos do clube no Campeonato Brasileiro. E uma serenidade de quem, mais do que gerir o elenco, também sabe cativar a torcida na simplicidade. Os flamenguistas tinham um deles à beira do campo. Que sublinhou suas virtudes como técnico ao encher um pouco mais a sala de troféus.

Se o impacto do Flamengo, naquele momento, era pequeno nos principais torneios do país, o clube ainda cantava de galo no Campeonato Carioca. E a primeira alegria em 1999 veio justamente no estadual, dando início ao tricampeonato tão sublime aos torcedores. Campeão da Taça Guanabara, o Fla pegaria na finalíssima um Vasco histórico. O time que, menos de um ano antes, havia faturado a Libertadores e dado trabalho para o Real Madrid no Mundial. Na decisão da Taça Rio, um mau presságio veio com a vitória vascaína por 2 a 0, dois gols de Edmundo, que evitaram o título antecipado dos rubro-negros. E o favoritismo dos cruz-maltinos se reforçou após o empate por 1 a 1 no primeiro jogo da finalíssima, que dava a garantia de nova igualdade no reencontro. Mas a equipe de Carlos Germano, Mauro Galvão, Felipe, Ramón, Donizete e Edmundo não teve motivos para comemorar. Dois anos antes de Pet, uma cobrança de falta de Rodrigo Mendes garantiu o triunfo por 1 a 0 e uma volta olímpica de doce sabor.

Depois do título carioca, o Flamengo teve cerca de um mês de descanso, até iniciar suas duas principais campanhas na metade final de 1999: o Campeonato Brasileiro e a Copa Mercosul. E o torneio continental, mesmo que tenha durado apenas quatro edições, era visto como a grande oportunidade de erguer uma taça sul-americana no segundo semestre. Em tempos nos quais a Supercopa e a Copa Conmebol perdiam prestígio, os dirigentes da Conmebol trataram de revitalizar o seu calendário com a criação da Mercosul e da Merconorte a partir de 1998. E a primeira tratava de reunir algumas das camisas mais pesadas de Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai.

Vale considerar que algumas das principais potências do continente na época preferiram priorizar outras frentes – como, em 1998, o Vasco, o Corinthians e o Boca Juniors, escalando majoritariamente jogadores reservas. Mas isso não diminui o peso que a Mercosul realmente teve a quem se empenhou por ela. Na primeira edição, o Palmeiras viveu uma prévia do que viria meses depois. Com vários craques que se consagrariam na conquista da Libertadores, os alviverdes derrotaram um forte Cruzeiro, cheio de remanescentes do título continental em 1997 e que também seria vice-campeão brasileiro em 1998. A Raposa de Levir Culpi venceu o primeiro jogo, no Mineirão. O Palmeiras de Felipão daria o troco no reencontro, no Parque Antárctica, e ficaria com a taça ao vencer também o terceiro jogo, com um gol de Arce.

Neste contexto é que o Flamengo entrou na Mercosul de 1999. O embalo pelo Campeonato Carioca até poderia botar o time de Carlinhos entre os mais cotados, mas o escalão de favoritos contava com equipes melhor referendadas no momento. O Palmeiras vinha do título da Libertadores e, embora tenha escalado uma equipe mista por vezes, deu prioridade à competição como preparação ao Mundial. O Corinthians tinha elenco forte para as duas frentes e tentava dar sua resposta ao incômodo jejum além das fronteiras que o perseguia. E mesmo o Boca Juniors lançou os seus áses, chegando a enfiar 5 a 1 no São Paulo de Raí na fase de grupos.

No entanto, o Flamengo tratou de manter o moral elevado depois do Carioca e ia de vento em popa no retorno à rotina. O desempenho no início do Brasileirão era de candidato ao título. Os rubro-negros venceram oito de seus primeiros 12 jogos, chegando ao fim de setembro em liderança compartilhada com o Corinthians. Neste período, fizeram algumas partidas bastante simbólicas, como a que quebrou a invencibilidade dos corintianos no Pacaembu ou o empate com o Gama em que Caio Ribeiro precisou calçar as luvas depois que Clemer foi expulso. Neste ritmo, a Copa Mercosul era objetivo concomitante, mas até soava como secundário.

O Flamengo começou bem sua campanha no torneio continental. Venceu os dois primeiros jogos, derrotando o Olimpia num esvaziado Maracanã, com dois gols de Romário, e goleando o Colo-Colo por 4 a 0 no Estádio Monumental David Arellano, diante de 60 mil chilenos. Todavia, o desempenho não se manteria, especialmente pelos jogos fora de casa e pelo excesso de expulsões dos jogadores rubro-negros – cinco, só na fase de grupos. O Fla perdeu nas visitas a Universidad de Chile e Olimpia, antes de empatar em casa com o Colo-Colo, em noite na qual cedeu o empate com dois gols sofridos depois dos 34 do segundo tempo. Queda que colocava em risco a classificação aos mata-matas.

Além do mais, o próprio ambiente do Flamengo começava a ruir. Romário entrou em rota de colisão com Gilmar Rinaldi, então superintendente de futebol do clube. Para piorar, os rubro-negros deviam milhões para o Baixinho. E mesmo nos bastidores os atritos começavam a aumentar, com as relações tempestuosas do presidente Edmundo dos Santos Silva. Era a chave para que o cenário mudasse totalmente nos últimos três meses do ano. A partir de derrotas para Atlético Mineiro e Vasco, o Fla começou a despencar no Brasileirão. Acabaria se agarrando à Mercosul.

Para tanto, porém, era necessário assegurar um lugar nas quartas de final. E em um torneio com cinco grupos, apenas os três melhores segundos colocados passavam de fase. O Flamengo tinha chances mínimas de assegurar a liderança da chave, como de fato aconteceu, com a vitória do Olimpia sobre o Colo-Colo, que deixou os guaranis na ponta. Assim, recebendo a Universidad de Chile, o Fla precisava aplicar uma goleada por pelo menos quatro gols de diferença para, com a mesma pontuação dos piores segundos, não ficar de fora dos mata-matas. Assim aconteceu, na atuação mais fulminante dos rubro-negros naquela temporada.

Já sabendo do que precisava para ultrapassar ao menos Corinthians e Nacional-URU entre os melhores segundos colocados, o Flamengo partiu para cima. Em apenas 35 minutos, a missão já estava cumprida. E o time de Carlinhos não se satisfez por aí, enfiando 7 a 0 sobre La U. Romário, sozinho, balançou as redes quatro vezes, em noite completamente insaciável. De quebra, ainda chegou à marca de 200 tentos pelo clube naquela noite, entre os cinco maiores artilheiros da história rubro-negra. O saldo de gols foi suficiente para botar o Fla nas semifinais. Além do Nacional-URU, quem pagou o pato foi o Boca Juniors, atrás do Corinthians nos critérios de desempate.

No Brasileirão, o Flamengo continuou despencando. Perdeu o clássico para o Botafogo, tomou 3 a 0 do Guarani, empatou com o Palmeiras e também saiu derrotado diante do Cruzeiro. Até venceu a Portuguesa, retornando à zona de classificação, mas o clima turbulento já tomara conta da Gávea. A torcida chegou a apedrejar o ônibus e protestava contra o time, sobretudo contra Romário. O artilheiro também vivia às turras com os dirigentes publicamente. O elenco se fechou ao redor do craque, assim como tratou de proteger Carlinhos, em meio à queda livre. E se ainda faltavam duas rodadas para a fase de classificação da Série A terminar, a Mercosul parecia muito mais propícia a salvar a lavoura naquele segundo semestre.

O adversário nas quartas de final era o Independiente, algoz na decisão da Supercopa de 1995, mas eliminado no mesmo torneio um ano depois. O Rojo apostava em um time jovem, no qual despontavam Gabi Milito e Esteban Cambiasso. E, diante do turbilhão que se vivia em vermelho e preto, o empate por 1 a 1 em Avellaneda aconteceu com contornos de heroísmo. O Fla ficou com um a menos ainda no primeiro tempo, após a expulsão de Beto. Abriu o placar no início da segunda etapa, com Fábio Baiano, mas Reinaldo também recebeu o vermelho aos 25 e deixou o time com nove. O Rey de Copas até conseguiu igualar, com Garnero, mas parou por aí graças às intervenções salvadoras de Clemer. Após a partida, Carlinhos exaltou a humildade e a solidariedade de seus jogadores, deixando de lado as vaidades para buscar o resultado.

Três dias depois, a volta aconteceu no Maracanã. E o Flamengo, enfim, teve um motivo para sorrir. Os rubro-negros não tomaram conhecimento do Independiente no reencontro, goleando por 4 a 0. Em apenas 24 minutos, já haviam aberto três gols de vantagem, com Leandro Machado, Fábio Baiano e Romário. Já no segundo tempo, Leandro Machado fechou a conta. Classificado às semifinais, o time esperaria três semanas até fazer o primeiro jogo contra o Peñarol. Momento para voltar sua cabeça ao Brasileirão, na sexta colocação.

Nada saiu como o esperado. Apenas dois dias depois da goleada sobre o Independiente, o Flamengo voltou a campo no Maracanã. Pois o cansaço pesou nas pernas e a equipe, diante de 62 mil torcedores, perdeu para o Santos por 1 a 0. Dodô foi o carrasco. Os rubro-negros voltavam a sair do G-8 e dependiam de uma combinação de resultados para avançar às quartas de final. Porém, sequer a sua parte conseguiram fazer no compromisso derradeiro, derrotado pelo Juventude por 3 a 1, no Alfredo Jaconi. Romário não escondia a frustração, por mais uma vez não cumprir a promessa de levar à Gávea a taça do Brasileirão. E se ainda havia uma esperança de se classificar à recém-ampliada Copa Libertadores, ela se esvaiu nos dois jogos seguintes. Na seletiva que nasceu e morreu naquela edição da Série A, o Internacional logo descartou as chances do Fla.

Restava a Mercosul. Restava o Peñarol. E já não estava mais Romário. O jogo contra o Juventude foi justamente o seu último com a camisa rubro-negra. Em 14 de novembro, um dia após o primeiro duelo contra o Inter na seletiva, os jornais estampavam o ‘fim da Era Romário’. O Baixinho foi apontado como o organizador de uma noitada em Caxias do Sul logo depois da queda no Brasileiro, quando o time permanecia no Rio Grande do Sul para jogar no Beira-Rio. Se as rusgas com Edmundo dos Santos Silva não eram segredo para ninguém, o presidente decidiu fechar as portas para o craque. Afastou-o em definitivo, num momento no qual o seu vínculo com o clube estava prestes a se encerrar. Seis dias depois, Romário confirmou, depois de reunião com os dirigentes, que não ficaria.  Declarou o seu carinho em relação à torcida, mas não poupou críticas aos mandatários.

Para se refugiar da crise, o Flamengo passou a treinar em Teresópolis. O fogo vinha de todos os lados, especialmente questionando a autoridade de Gilmar Rinaldi. Já Carlinhos tentava apagar o incêndio em seu elenco, mirando principalmente na liderança de Leandro Ávila. Caio Ribeiro, um dos principais destaques do time naquele conturbado ano, assumiria a camisa 11. Era difícil se concentrar apenas no Peñarol, um adversário de camisa pesada e de más lembranças, por eliminar o Fla no triangular semifinal da Libertadores de 1982.

Sinal da desconfiança, menos de 7 mil torcedores estiveram no Maracanã para o jogo de ida das semifinais da Mercosul. Ao menos houve um alento, com a vitória contundente por 3 a 0. Com um a mais desde os 22 minutos, por conta da expulsão de De Souza, o Flamengo abriu o placar aos 30, em pênalti convertido por Leandro Machado. Maurinho, um dos maiores alvos da torcida durante a crise, vaiado a todo momento naquele jogo, pôde extravasar na comemoração do segundo, aos 44. Já no segundo tempo, apesar da expulsão de Fábio Baiano, Caio passou para o substituto Lê fechar a conta. Ao final do jogo, além da festa, os rubro-negros nas arquibancadas também soltavam palavrões contra Romário. O camisa 11 havia assinado com o Vasco horas antes e seria apresentado no dia seguinte, como grande reforço ao Mundial de Clubes. Uma flechada no coração de sua antiga massa. Já a resposta de Edmundo dos Santos Silva para apaziguar seus críticos viria pouco depois, em 2 de dezembro, com a assinatura do contrato com a empresa de investimento ISL, que prometia mundo e fundos na Gávea a partir de 2000. Ofereceriam o dinheiro para comprar o(s) novo(s) craque(s) do time.

E como crise pouca é bobagem, antes mesmo do jogo de volta da semifinal a imprensa anunciava as negociações do Flamengo com o substituto de Carlinhos para a ‘nova era’. Paulo César Carpegiani voltaria ao clube que levou às maiores conquistas, mas em um momento longe de ser oportuno para se discutir o assunto. O Violino seria chamado para conversar sobre a sua saída apenas semanas depois, quando todos já davam o retorno de Carpegiani como certo. Caberia ao velho ídolo reforçar o seu valor como técnico naquelas últimas partidas da Mercosul.

O jogo de volta entre Flamengo e Peñarol, no Estádio Centenario, aconteceu duas semanas depois da vitória rubro-negra no Maracanã. Cauteloso, Carlinhos preferiu rechear o seu meio-campo, visando a vantagem de poder perder por até dois gols de diferença. Ainda assim, os carboneros saíram em vantagem nos acréscimos do primeiro tempo, em bela cobrança de falta do ídolo Bengoechea. O empate aconteceu no segundo tempo, em pênalti sobre Reinaldo que Athirson converteu. E o atacante da base provaria mesmo a sua estrela naquela noite. Em um chute de longe, Reinaldo virou a contagem, anotando seu primeiro tento como profissional. O Peñarol ainda retomaria a dianteira nos 10 minutos finais, com García e Bengoechea, mas a vitória por 3 a 2 se provou insuficiente. Então, ao apito final, a cena que marcou aquela semifinal: sem aceitar a eliminação, os aurinegros partiram para a agressão e uma batalha campal tomou conta do Centenario. Os jogadores do Fla precisaram se refugiar nos vestiários. Com muito brio, estariam na final.

Por fim, o Palmeiras surgiu como último desafio. E o Flamengo encarava aquele jogo acima da chance de desbancar o atual campeão da Libertadores, que dera um trabalho imenso ao Manchester United em Tóquio. A final da Copa Mercosul também era uma revanche para o Fla.

Corta para maio. Rubro-negros e alviverdes se encararam nas quartas de final da Copa do Brasil. No jogo de ida, Caio e Romário fizeram a festa pela vitória por 2 a 1 no Maracanã. O reencontro no Parque Antárctica parecia sob controle dos cariocas. Rodrigo Mendes abriu a contagem com um minutos de jogo. Oséas empatou no segundo tempo, antes que Rodrigo marcasse novamente. Já na sequência, seria a vez de Júnior deixar tudo igual para os alviverdes. Podendo até sofrer um gol, o Flamengo tinha a classificação nas mãos. Até que Euler surgisse como o talismã, com gols aos 41 e aos 43, numa virada impressionante que valeu a passagem ao Palestra. Os flamenguistas ficariam na bronca, não só pelo que aconteceu, mas pela arbitragem.

Volta para dezembro. As feridas já tinha cicatrizado depois da derrota dolorosa. De qualquer maneira, o Flamengo tinha a chance de ouro para se impor sobre o Palmeiras. E para marcar o fim daquele time, à beira do desmanche com a chegada da ISL. Seria a última oportunidade para vários jogadores rodados, enquanto os garotos da base tentavam mostrar serviço para não serem sufocados pela enxurrada de medalhões prometidos. O problema era conseguir uma despedida gloriosa contra um adversário duríssimo como o Palmeiras de Felipão. De Marcos, Arce, César Sampaio, Zinho, Alex, Paulo Nunes, Asprilla e outros grandes jogadores.

Como não poderia deixar de ser, o primeiro jogo foi épico. À sua maneira, o Flamengo teve um troco da Copa do Brasil, produzindo a sua própria virada no Maracanã. Juan abriu o placar e Júnior Baiano empatou para o Palmeiras antes do intervalo. Os palestrinos passaram à frente no segundo tempo, aos 23 do segundo tempo, com Asprilla – iniciando 16 minutos eletrizantes, com cinco gols. Caio empatou, Paulo Nunes fez o terceiro dos paulistas e Caio surgiria novamente como salvador, para igualar aos rubro-negros. Por fim, aos 39, Athirson cruzou e o garoto Reinaldo decretou a vitória por 4 a 3. Na pressão do Parque Antárctica, um empate seria suficiente para o título dos cariocas.

Mais uma vez, um jogo memorável proporcionaria a definição do campeão da Copa Mercosul. O Palmeiras entrou com tudo, escalando três atacantes, inclusive o talismânico Euler. E foi melhor no primeiro tempo, abrindo o placar aos 19 minutos, em pênalti convertido por Arce. A reação do Flamengo só começou no segundo tempo, em empate providenciado por Caio, logo no primeiro minuto. Rodrigo Mendes, mais uma vez, se forjava como herói ao fazer o segundo. Até que o Palmeiras virasse novamente, em duas falhas dos rubro-negros. Primeiro, Clemer não segurou uma cobrança de falta de Arce. Já aos 21, seria a vez de Paulo Nunes surgir para bagunçar a cabeça dos flamenguistas.

Naquele momento, a vitória do Palmeiras forçava o terceiro jogo. E o Flamengo tentava reverter a situação, botando pressão. Até que os garotos da base tirassem o coelho da cartola. Em tabela com Reinaldo, Lê recebeu de calcanhar e encontrou um clarão pelo lado esquerdo da zaga palmeirense. De frente para São Marcos, teve a frieza de apenas deslocar o goleiro, estufando as redes. Na comemoração, não conseguiu segurar as lágrimas. O relógio apontava 38 minutos. Coube aos rubro-negros segurarem o empate por 3 a 3,  até começar a erupção na comemoração. Em um ano tão difícil, o Fla era campeão continental. Dava um afago à torcida, depois de tudo o que acontecera nos meses anteriores. Coroava um grupo de limitado, que na base da raça ficou com a taça.

Aquele era um título de Clemer, Leandro Machado, Maurinho, Pimentel, Jorginho, Marcelo e outros jogadores criticados, que não transmitiam confiança, mas acabaram cumprindo a missão. De Fábio Baiano, Beto Cachaça, Iranildo, (por que não?) Romário e daqueles que, apesar do talento reconhecido, não mantinham a constância, mas fizeram história. De Fabão, Rodrigo Mendes, Caio e das referências que se superaram pelo esforço. De Athirson, Juan, Reinaldo, Lê, Leonardo Inácio e dos garotos da base. De um zagueiraço como Célio Silva, que entrava na reta final da carreira condecorado. De Leandro Ávila, que assumiu a braçadeira de capitão e foi o melhor jogador do time naquele ano. O volante combativo e preciso nas ações, que representou tão bem o Flamengo. Que merece muito mais reconhecimento pelo jogadoraço que foi, inclusive dos próprios rubro-negros.

E de Carlinhos, o Violino em sua última sinfonia, acertando o time em meio à bagunça na Gávea para fazê-lo, outra vez, campeão. Suas substituições, sobretudo, determinaram o sucesso. O olhar experiente que, na final, botou Rodrigo Mendes e Lê para mudar a história.

Carlinhos passou a noite em claro depois da final. Evitou os dirigentes no jantar, sentindo-se traído pela sua saída. Sequer participou da carreata da vitória, pelas ruas do Rio de Janeiro. Mas hoje, seu nome é o mais lembrado. Edmundo dos Santos Silva e Gilmar Rinaldi ficaram em um passado esquecível do Flamengo, especialmente pelo fracasso da parceria com a ISL. Ainda assim, naquele período, o Flamengo conquistaria o tricampeonato carioca (com o irreproduzível gol de Petkovic) e a Copa dos Campeões de 2001, que recolocou o time na Libertadores, além de ter sido vice-campeão na Mercosul de 2001, em tumultuada decisão vencida pelo San Lorenzo apenas no ano seguinte. Mas as decepções continentais seriam bem mais constantes. Não repetiriam nada daquilo que se viveu no 20 de dezembro de 1999. O título que, em tempos tortuosos, soou como um milagre de Natal.