A Copa São Paulo é um torneio batuta. Depois de umas semanas sem futebol, o torcedor vai se aquecendo com uns jogos à tarde, no meio da semana, com times de tudo quanto é lado. Tudo bem, a federação paulista podia usar critérios mais decentes para definir os times, mas é um campeonato legalzinho para acompanhar no começo do ano (aliás, um jeito bom de saber o que vai acontecer é ler o Guia da Copa São Paulo preparado pelo Olheiros)

Ele fica bom mesmo é quando se vê um garoto com pinta de que pode se tornar craque. É hora de anotar o nome dele e dar uma de sabichão durante o ano, dizendo que ele poderia servir de opção para o time principal. Mas sabe por que muitas vezes ele não serve de opção? Porque você foi iludido! O garoto não é nada do que parecia. Não se sinta mal, acontece com todo mundo. Já cansei de passar por isso também.

Com o tempo, dá para perceber um padrão nesses garotos que iludem inicialmente. Não é uma regra definitiva, apenas uma relação de fatores que podem levar o observador a equívocos.

1) Porte físico
A Copa São Paulo é sub-18. Então, a maior parte dos times tem jovens em fase de formação física. Algum garoto precoce, que já seja muito mais forte que a média, acaba tendo grande vantagem no corpo a corpo. Se for zagueiro, vai intimidar qualquer centroavante que aparecer. Se for atacante, vai trombar até fazer um caminhão de gols.

No entanto, quando ele se tornar profissional, vai encontrar adversários igualmente fortes. E vai precisar de talento para resolver seus problemas. Por isso, se algum grandalhão aparecer bem, é fundamental ver se ele só se destaca pela força ou se tem capacidade técnica.

2) Velocidade
Tirando o Barcelona e o Ajax, times de categorias de base raramente são taticamente maduros. E talvez nem devam ser, para dar margem ao desenvolvimento técnico do garoto. Assim, são equipes que ocupam mal os espaços, em que os volantes nem sempre fazem adequadamente a cobertura do lateral, em que os atacantes não marcam a saída de bola como deveriam. Mesmo quando bem treinados, vez ou outra o jovem se desconcentra e abre uma brecha. É normal nessa categoria.

É um paraíso para um meia ofensivo ou um atacante muito rápido. Ele pega a bola, sai correndo e driblando como se não houvesse amanhã. Vai chegar à linha de fundo toda hora e parecer imarcável. Mas o que ele faria no profissional, contra marcadores que sabem usar o corpo, cobrir espaços e escolher a hora de dar o bote?

Garoto bom não é o driblador rápido que enfileira marcadores… e talvez não saiba o que fazer com a bola depois. Garoto bom é o que sabe quando é hora de driblar, e quando é preciso cadenciar o jogo, chamar um companheiro para uma tabela, fazer um lançamento, cruzar direito e, óbvio, chutar a gol.

3) Goleiro ginasta
Mesmo no profissional, há muita gente que se impressiona com goleiro que parece ginasta. Dá pulos espetaculares para defender tudo quanto é bola e faz o narrador da TV gritar o nome dele com toda a força. Passa a sensação de cobrir todo o gol.

Nessas horas, veja o replay com cuidado. Era realmente necessário pular tanto? A bola não poderia ser defendida com um movimento mais simples? Será que ele não pulou muito para se recuperar de um posicionamento ruim? Será que ele não está apenas querendo aparecer para as câmeras?

Nas categorias de base, um goleiro de movimentos econômicos e sensação de segurança e maturidade está muito mais preparado para o profissional que um voador. Ou ginasta.

4) Marcador que corre atrás
Um marcador aguerrido, que se mata para tirar cada bola, sempre tem crédito com a torcida. Mas o defensor realmente bom não pode depender apenas disso. Bom marcador precisa se antecipar ao oponente, ocupar o espaço, não dar o bote na hora errada (para não tomar um drible infantil). Muitas vezes, se ele corre demais para salvar a jogada, é porque deixou o adversário ganhar terreno e está tentando corrigir um erro.

5) Jogo coletivo
Em categorias de base, como em segundas e terceiras divisões pelo mundo, há sempre jogadores mais preocupados em aparecer do que em fazer o time ganhar. Esses são os que se destacam nos quatro itens anteriores. Mas preste atenção nos que nem sempre aparecem demais para a TV, mas são fundamentais para ajustar a equipe como um todo. Não são muitos, mas são os que têm melhor noção das exigências coletivas do jogo e, no profissional, poderão se adaptar com mais facilidade.

6) Copa São Paulo é sub-18
Não se pode esquecer. A Copa São Paulo não é categoria júnior (sub-20). É sub-18, uma classificação inexistente normalmente. Assim, o jogador que atua nela ainda tem, em tese, mais dois anos de categorias de base antes de se profissionalizar. Todos eles ainda precisam amadurecer técnica, física e taticamente.

Salvo gênios, o jogador da Copa São Paulo não está preparado para ter impacto imediato no time principal. Mesmo nas categorias de base de seu clube há garotos na frente na “fila de espera”, como os de 19 e 20 anos.

Obs.: em todos esses itens, não é considerado o fator “idade adulterada”. Afinal, não dá para acusar alguém de fraudar a identidade só de olhar. Mas já fica o registro: todo “gato” da Copinha tem alto potencial de fracasso no futuro.