Depois de seis décadas, o Brasil de Pelotas tem a chance de disputar uma final do Campeonato Gaúcho. O Xavante não aparece na decisão desde os anos 1950, quando o estadual era regionalizado. Entre 1952 e 1955, os rubro-negros foram três vezes vice-campeões, sempre derrotados pelos representantes porto-alegrenses. No entanto, os pelotenses também viveram uma alegria na final do Gauchão – justamente na primeira edição do campeonato. Em 1919, o Brasil goleou o Grêmio por 5 a 1 e ergueu a taça. Um triunfo que, de certa maneira, impactou diretamente na própria história da seleção brasileira.

Campeão citadino de Pelotas, o Brasil deveria enfrentar diversos representantes regionais no Campeonato Gaúcho de 1919. Porém, quase todos os candidatos ao torneio perderam o prazo de inscrição de seus atletas. Assim, apenas o Grêmio surgiu como adversário ao troféu. A bordo do vapor Mercedes, o Xavante chegou à capital para encarar os tricolores. E, dentro do Estádio da Baixada, não teve dificuldades para se sagrar campeão pela primeira vez. Durante o primeiro tempo, os rubro-negros abriram margem de 2 a 1. Já na segunda etapa, aproveitando-se do cansaço dos anfitriões, mais três gols.

“O foot-ball pelotense teve uma exellente representação, superior ainda ao que se esperava. Os onze jogadores do Grêmio Sportivo Brasil, não descuidaram um momento para vencer o seu adversario, fazendo todo o possivel para se sair honrosamente. A sua victória, não sofre a mínima contestação, representando ella o esforço da inteligência dos onze hábeis players. A sua actuação deixou a melhor impressão e os aplausos que receberam, durante o match, foram uma prova evidente de que souberam jogar com muita tactica e vencer como se deve. (…) É justo o júbilo dos pelotenses; é justa a victória do Grêmio Sportivo Brasil, e tanto mais digno de apreço, porque ela foi conquistada com players patricios, que aprenderam a jogar, e se fizeram fortes, excluisivamente nos grounds de Pelotas”, destacou o Correio do Povo, na época.

A autoria dos gols na decisão possui divergências, conforme a fonte. Segundo o Correio do Povo, foram três tentos do centroavante Pelágio Proença, um de Alberto Correa e mais um de Ismael Alvariza. Este último, pronto a fazer história além das fronteiras. Nascido em Pelotas, Alvariza iniciou a carreira no próprio clube. Era reconhecido como um ponta esquerda de extrema velocidade e muita habilidade. Foi tricampeão citadino com o Xavante, antes de se consagrar no Gauchão, aos 22 anos. E logo a sua qualidade passou a interessar os clubes de Rio de Janeiro e São Paulo, principais centros do futebol nacional naquele momento.

Por ser campeão gaúcho, o Brasil de Pelotas foi convidado pela CBD para disputar a Copa dos Campeões Estaduais. Viajou ao Rio de Janeiro, onde enfrentaria Paulistano e Fluminense. O Xavante não conseguiu competir com as duas potências, goleado pelo Paulistano por 7 a 3 e pelo Fluminense por 6 a 2. Titular nas duas partidas, Alvariza dividiu o campo com outras lendas, como Friedenreich e Welfare. Anotou dois gols, um em cada partida, vencendo inclusive o mítico goleiro tricolor Marcos Carneiro de Mendonça. Antes do retorno ao Rio Grande do Sul, os rubro-negros ainda fizeram amistosos contra São Cristóvão, Palestra Itália e Corinthians. O suficiente para que o ponta chamasse atenção.

“Alvariza é um ponteiro esquerdo admirável, possuidor das mais perfeitas qualidades de atacante. Veloz e seguro, investe com felicidade sobre o posto adversário, faltando-lhe apenas um auxiliar no trabalho que produz”, elogiou o Correio Paulistano, em março de 1920, durante a competição interestadual.

No segundo semestre de 1920, Alvariza se tornou pioneiro. Foi o primeiro jogador de um clube de fora do Rio de Janeiro ou de São Paulo a ser convocado pela seleção brasileira, que disputaria o Campeonato Sul-Americano no Chile. Segundo o Jornal do Brasil, aquilo foi “bem recebido nas rodas esportivas do Rio Grande do Sul”, comentando-se também que o capitão gremista Lagarto deveria ser chamado. Aquele elenco, aliás, tinha fortes traços gaúchos. Outros três jogadores convocados pela CBD tinham nascido no estado, embora já houvessem deixado os clubes locais: o goleiro Kuntz e o capitão Sisson, ambos do Flamengo; e o centroavante Castelhano, então no Santos. Todos titulares na campanha continental.

Antes de viajar ao Chile, a Seleção passou por um período preparatório em Santos. Por lá, Alvariza ganhou confiança da comissão técnica para ser titular. “Alvariza, o valete futebolista rio-grandense, esteve acima de toda a crítica. De uma agilidade admirável, distribuindo perfeitamente os passes, foi o esteio do ataque”, descreve o Jornal do Brasil. E, de fato, apareceria em campo em todos os três compromissos da equipe na competição.

O Brasil não teve grande sucesso naquele Campeonato Sul-Americano, terminando atrás de Uruguai e Argentina. Contudo, a única vitória nasceu dos pés de Alvariza, logo na estreia. O ponta garantiu o triunfo por 1 a 0 sobre o Chile, em tento creditado a ele, embora tenha resultado de uma trapalhada dos jogadores adversários. Descreve assim o Correio Paulistano: “Aos oito minutos, Alvariza faz um centro e Unzaga, forçado pelos brasileiros, em vez de enviar a pelota para o centro do campo, passa-a Guerrero. Mal colocado, o goleiro não detém a mesma, sendo assim marcado o ponto da vitória dos brasileiros”. Ramón Unzaga, aliás, é uma verdadeira lenda, apontado como o pai da “chilena” – o nome dado à bicicleta em parte dos países de língua castelhana.

Antes de retornar ao Brasil, a Seleção ainda disputou um amistoso contra a Argentina, marcado por um boicote dos jogadores brasileiros, depois que um jornal local os chamou de “macacos”. Alvariza era um dos sete atletas em campo naquele confronto. O ponta permaneceria mais alguns meses no Rio Grande do Sul. Em 1921, às vésperas de ser convocado para mais um Campeonato Sul-Americano, seu nome passou a ser especulado por jornais paulistas e cariocas. Teve sua transferência vinculada a Fluminense e AA das Palmeiras. Ao final, arranjou emprego em uma companhia ferroviária de São Paulo e seguiu ao Esporte Clube Syrio. No entanto, em meio ao imbróglio causado pela transação, o ponta não se apresentou à CBD. Encerrou sua passagem pela Seleção com quatro partidas.

No Sírio, Alvariza continuou como um dos protagonistas. O clube, famoso por suas façanhas no baquete, contou com seu departamento de futebol até 1935. Não era um time que disputava diretamente o título do Campeonato Paulista, mas fazia campanhas dignas. Nos dois primeiros anos do pelotense em São Paulo, o Syrio terminou a terceira colocação do estadual, atrás apenas de Corinthians e Palestra Itália. Depois disso, o time se estabeleceu no meio da tabela, tendo como grande feito o vice-campeonato no Paulista Extra de 1926, derrotado na final pelos palestrinos.

Em compensação, o Syrio contou com diversas estrelas ao longo do período. Jogadores com histórico notável: o goleiro Tuffy, que disputou o Campeonato Sul-Americano de 1925 representando o clube, posteriormente ídolo do Corinthians; Athiê Jorge Cury, goleiro que seguiria ao Santos, onde se tornou dirigente e presidente dos maiores sucessos alvinegros; Bizoca, candidato a disputar a Copa de 1930 prejudicado pela cisão entre paulistas e cariocas; Petronilho de Britto, atacante que depois se tornaria ídolo no San Lorenzo, protagonista no primeiro título profissional do clube; e Waldemar de Britto, seu irmão mais novo, ídolo de Flamengo e São Paulo, além de titular da Seleção na Copa de 1934 – que, depois de aposentado, ainda descobriu um tal de Pelé no Bauru Atlético Clube.

Mesmo cortejado pelo America do Rio, Alvariza defendeu Sírio até o final da década, quando se aposentou. Permaneceu reconhecido com um dos mais notáveis jogadores de sua época, recuado posteriormente ao meio-campo. Seu pioneirismo na seleção brasileira, aliás, durou por algum tempo.

O próximo jogador de fora do “eixo Rio-SP” a entrar em campo pela equipe nacional foi Mica, do Botafogo da Bahia, em 1923. Já em 1934, Luiz Luz disputou a Copa do Mundo como jogador do gaúcho Americano, embora algumas fontes o apontem como atleta do Peñarol – por onde realmente passou no ano anterior. Em 1937, outro representante de um clube gaúcho a pintar na Seleção foi Cardeal, do 9º Regimento de Infantaria, figurando no Campeonato Sul-Americano de 1937. O ídolo colorado Tesourinha foi o primeiro a se tornar titular absoluto, nos anos 1940. Adãozinho e Nena, seus companheiros de Inter, compuseram o elenco na Copa de 1950. Em 1956, um escrete formado apenas por atletas de equipes gaúchas conquistou o Campeonato Pan-Americano. O gremista Alcindo se tornou o primeiro a entrar em campo em um Mundial, em 1966. E o lateral Everaldo, enfim, foi o primeiro futebolista de um clube do Rio Grande do Sul a ser campeão do mundo. História que se amplificou ainda mais nas décadas seguintes e que, em diferentes caminhos, tem origem no Xavante campeão de 1919.