Esta semana marca o aniversário de 25 anos da dissolução da União Soviética. Em 26 de dezembro de 1991, as repúblicas que constituíam o país se tornaram oficialmente independentes. Ao longo dos próximos dias, publicaremos aqui na Trivela uma série de três artigos, traçando relações sobre o futebol na URSS ao longo das décadas. Abaixo, a segunda parte.

Em um país de dimensões continentais como era a União Soviética, fomentar a integração nacional se tornou um dos principais desafios do poder central. Anseios se diversificavam ao longo do território, quando nem todas as repúblicas e regiões se sentiam representandos por aquilo que se decidia no Kremlin. Por isso mesmo, trabalhar a noção de unidade era missão diária do governo. Neste sentido, o esporte tinha um papel fundamental: mais do que um meio para garantir o prestígio internacional, também servia para integrar a população e construir a própria identidade da nação. E o futebol, de diferentes maneiras, integrou este projeto.

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Como já vimos aqui na Trivela, após a Revolução de 1917 e a constituição da União Soviética, o novo estado aproveitou as estruturas já existentes do futebol para se aproximar das massas e relacioná-las aos seus organismos. Mas os passos precisavam ir além. E o próprio futebol soviético se transformou neste processo. Os clubes se tornaram mais competitivos a partir da criação do Campeonato Soviético, em 1936. Já a seleção nacional se firmou como um elemento a mais para a diplomacia e para a repercussão internacional a partir da década de 1950. No entanto, as expansões (tanto do campeonato quanto da seleção) precisaram acompanhar a evolução do futebol nos rincões mais distantes da União Soviética.

O Campeonato Soviético

Entre as décadas de 1920 e 1930, a competição nacional se limitava a uma representação de repúblicas e regiões. O Campeonato Soviético saiu do papel em 1936, mas respeitando a geografia de um esporte que permanecia desaparelhado em diversos cantos do território. A construção de estádios maiores a partir da metade final dos anos 1920, para atender o crescente público, aumentou a demanda pela liga. Além disso, a realização de amistosos internacionais causou enorme interesse, e os revezes dos soviéticos nas visitas à Europa ocidental demonstravam que era necessário aumentar o nível competitivo. O novo torneio ainda oferecia um caminho para se resolver entraves na organização do futebol local, como as transferências e o tratamento aos jogadores dentro da sociedade comunista.

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Durante a primeira fase do Campeonato Soviético (de 1936 até 1941, em paralisação forçada pela Segunda Guerra Mundial), apenas quatro repúblicas tiveram times participantes, e o Azerbaijão apenas em uma fortuita aparição em 1938. A Rússia dominava, especialmente pelos clubes de Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo), que se enfrentavam anteriormente em torneios regionais. A Ucrânia já tinha força com o Dynamo Kiev e ganhou um representante relevante em Donetsk, região de importância estratégica – o futuro Shakhtar. Já o estabelecido Dinamo Tbilisi também despontava, com peso político.

O projeto realmente nacional do Campeonato Soviético só ganhou força a partir de 1945, com a retomada da competição após a Segunda Guerra Mundial. Outras repúblicas passaram a investir em seus clubes principais (não necessariamente apenas os órgãos estatais específicos) e a aparecer na primeira divisão com maior frequência. Se, por um lado, a Liga Suprema servia para ampliar a noção de unidade nacional, com diversos cantos representados, também valia para fomentar o orgulho local. Clubes das repúblicas menores se transformaram em espécies de seleções nacionais, recrutando os seus melhores jogadores. Os torcedores se espalhavam pelo território e viam o sucesso no campeonato também como uma questão de relevância dentro do país continental.

Assim, equipes como Dinamo Tbilisi, Ararat Yerevan e Dinamo Minsk protagonizaram campanhas históricas, chegando ao título. Outros já se contentavam com a participação constante, a exemplo de Neftchi Baku, Kairat Almata, Pakhtakor Tashkent, Zalgiris Vilnius e Nistru Chisinau. Ou mesmo na Rússia e na Ucrânia, onde, exceção feita a Moscou, as principais cidades quase sempre contavam com apenas um representante forte. Não à toa, justamente por esse forte regionalismo, o maior clássico soviético não era nenhum dérbi moscovita: ele se disputava entre Dynamo Kiev e Spartak Moscou, de ampla popularidade em suas repúblicas, que também botavam em jogo o orgulho do povo ucraniano contra o orgulho do povo russo.

Até os anos 1960, para facilitar a organização, o Campeonato Soviético teve diversas edições disputadas dividindo-se em dois grupos regionais distintos, com outro grupo entre vencedores se formando depois para decidir o campeão. A partir de 1971, a Liga Suprema se consolidou. E, de certa forma, se aproximou daquela noção existente nos anos 1920, ainda que dentro da estrutura dos clubes: além dos vários times de Moscou, o torneio era um  campeonato “russo-ucraniano”, absorvendo outras potências das demais repúblicas. Manteve-se assim até a sua dissolução, em 1991.

A seleção soviética

Se o projeto do Campeonato Soviético levou um tempo relativamente grande para sair do papel, a seleção soviética demorou ainda mais. Durante as primeiras décadas, a federação não era filiada à Fifa por convicções políticas, o que lhe causava certos problemas. A equipe nacional se limitava a disputar amistosos, especialmente contra nações amigas (basicamente a Turquia) e equipes de federações de trabalhadores. Na década de 1930, inclusive, enfrentou alguns clubes e combinados contra jogadores profissionais – o que, como relatado acima, ajudou a impulsionar o interesse pelo esporte e a criação da liga nacional. Mas os soviéticos também precisavam lidar com as barreiras impostas pela Fifa, que restringiam as possibilidades para marcar jogos.

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Em 1946, enfim, a União Soviética entrou para os quadros da entidade internacional. Mesmo assim, a seleção não se formou imediatamente. Os soviéticos só disputariam os seus primeiros jogos sob a batuta da Fifa nos Jogos Olímpicos de 1952. Participação modesta, eliminando a Bulgária, antes de cair para o bom time da Iugoslávia nas oitavas de final. Já em 1954 é que o projeto de uma seleção soviética permanente sairia do papel, com um time que representasse internacionalmente a pujança do país. O investimento foi considerável, especialmente na capacitação técnica e física dos atletas. Algo que rendeu resultados.

Entre 1955 e 1956, a URSS venceu dois amistosos contra a Alemanha Ocidental, então campeã do mundo. Fez 3 a 2 em Moscou, com Fritz Walter, Rahn e outros jogadores históricos do outro lado. Na revanche, ainda repetiu a dose por 2 a 1 em Hannover. Também empatou por duas vezes com a Hungria de Puskás, antes de sofrer uma magra derrota por 1 a 0 no terceiro encontro. E a repercussão sobre o time aumentou quando ele conquistou o ouro olímpico em dezembro de 1956, nos Jogos de Melbourne, dando o troco na decisão diante da Iugoslávia. Colocando-se como nova potência, a União Soviética solicitou sua entrada nas Eliminatórias da Copa do Mundo, carimbando o passaporte para o Mundial de 1958 sem grandes dificuldades.

Naqueles primeiros anos, a seleção soviética se moldava em Moscou. Todos os títulos do campeonato nacional ficaram na capital até 1960. Natural, então, que boa parte dos jogadores saíssem dos times locais. Dos 44 jogadores convocados para as três competições nacionais disputadas nos anos 1950, 26 eram moscovitas ou nascidos em cidades vizinhas. Enquanto isso, apenas cinco eram oriundos de repúblicas que não a Rússia. O time só não causou o impacto esperado na Copa do Mundo. Embora tenha eliminado a Inglaterra na fase de grupos, caiu nas quartas de final, para a anfitriã Suécia. Aquela geração só viveria sua glória dois anos depois, na França. Em 1960, a União Soviética conquistou a primeira edição da Eurocopa. Avançou à fase final graças ao entrave diplomático com a Espanha, sob regime franquista, que se recusou a Moscou. Bateu a velha conhecida Iugoslávia na final.

A partir dos anos 1960, a seleção soviética acompanhou a expansão do campeonato nacional. O sucesso de clubes de outras repúblicas trazia também representantes delas às competições internacionais. A ascensão de Dynamo Kiev e Dinamo Tbilisi, quebrando a hegemonia dos moscovitas no Campeonato Soviético, levou mais ucranianos e georgianos à equipe nacional. Além disso, Azerbaijão e Uzbequistão pintaram no mapa da seleção. A URSS se manteve como participante costumeira da Copa do Mundo e da Euro até a virada da década. No Mundial, não tinha muita “sorte”, digamos assim. Mesmo admitido pela Fifa, o país mantinha suas diferenças políticas com a entidade. Como consequência, os soviéticos acumularam muitas reclamações contra as arbitragens – quase sempre com razão. Ainda assim, chegaram a alcançar um honroso quarto lugar em 1966. Já na Euro, foram dois vices e uma quarta colocação até 1972, a despeito do número de reduzido de participantes na fase final.

Nos anos 1970, alguns hiatos soviéticos nos torneios internacionais. A geração não era tão boa quanto a anterior, embora a política também tenha pesado contra nas Eliminatórias da Copa de 1974. O Chile avançou na repescagem porque a União Soviética se recusou a atuar no Estádio Nacional de Santiago, utilizado para tortura e prisão dos opositores do regime de Augusto Pinochet. Apesar das tentativas dos soviéticos de mudarem o local da partida, não houve conversa. Como alento, a URSS botou duas medalhas olímpicas no peito, ambas de bronze, em tempos nos quais os países soviéticos dominavam o torneio de futebol.

Já a partir da década de 1980, até a sua dissolução, a União Soviética voltou à elite do futebol mundial. Disputou três Copas, embora as queixas contra as arbitragens tenham se tornado mais frequentes, especialmente pela eliminação contra a Bélgica nas oitavas de final do Mundial de 1986. O time também teve uma participação isolada na Euro 1988, suficiente para ser vice-campeão. E conquistou um bronze e um ouro olímpico, quando as regras de elegibilidade dos jogadores mudou, admitindo apenas aqueles que nunca haviam entrado em campo em uma Copa. Naquele momento, a Ucrânia assumiu de vez o papel de base da seleção, graças ao esquadrão do Dynamo Kiev e a um forte time do Dnipro. A Geórgia também emplacou uma geração muito boa, bastante presente no time titular. E mesmo as repúblicas ocidentais deram uma contribuição notável, impulsionadas por Dinamo Minsk e Zalgiris Vilnius.

Os bons momentos em campo, todavia, se contrastavam com o país que vivia os seus dias finais. A União Soviética disputou sua última partida como uma só nação em novembro de 1991, pouco mais de um mês antes da dissolução. Classificada à Euro 1992, a seleção entrou no torneio como Comunidade dos Estados Independentes. E a geopolítica se refletia no elenco. O time voltava a ser majoritariamente russo ou composto por atletas que se consideravam russos, mesmo nascidos em outros territórios. Ucrânia, Geórgia e outras seleções adjacentes já haviam feito suas estreias internacionais quando a competição continental aconteceu.

Abaixo, apresentamos um mapa com todos os jogadores que defenderam a União Soviética (ou a CEI) nas competições internacionais, de 1952 a 1992. Eles estão divididos conforme as décadas em que estrearam, para oferecer uma noção melhor da expansão das fronteiras. É preciso aproximar a visualização para diferenciar alguns atletas, especialmente em Moscou.