Uli Hoeness sempre foi visto como um grande administrador. Um visionário na condução dos negócios do Bayern de Munique e, ao mesmo tempo, dono de um coração generoso, capaz de ajudar ex-jogadores em dificuldades pessoais. Chegou a ser apontado até mesmo pela chanceler Angela Merkel como um exemplo de austeridade na gestão em tempos de gastos desenfreados entre os clubes de futebol. Até o castelo ruir. Não o construído ao redor da Allianz Arena. Mas a sua fortaleza pessoal. O presidente dos bávaros foi condenado a três anos e meio de prisão, após confessar a fraude fiscal de € 27,2 milhões.

O caso de Hoeness ganhou proporções enormes em seis meses. Surgiu em maio, com a suspeita sobre € 3,5 milhões de sonegados. Encurralado, o dirigente fez seu ‘mea culpa’ e assumiu os podres. Esperava que a admissão do erro fosse o suficiente para que apenas pagasse pelo prejuízo em dinheiro, sem passar pela prisão. Mas a quantia era quase oito vezes maior do que aquela. Hoeness ainda pode recorrer da sentença, podendo até cumprir a pena em regime semiaberto. Entretanto, a decisão é emblemática. De forma extraoficial, também condena o homem que também enganou milhões de alemães para se fazer de honesto. Uma dupla personalidade que não costuma ser perdoada tão facilmente por quem foi ludibriado.

Tão grande quanto a indefinição sobre o futuro próximo de Hoeness é sobre o que acontecerá no comando do Bayern. Ao que parece, as turbulências na vida pessoal do presidente devem passar longe do que acontece na Allianz Arena. Não é o escândalo que enfraquecerá o time de Pep Guardiola em seu aproveitamento assustador na Bundesliga, ou que atrapalhará a busca do bicampeonato na Liga dos Campeões. Contudo, se dentro de campo os bávaros devem passar ilesos, fora dele os reflexos devem vir em breve, Hoeness permanecendo ou não.

As questões morais se Hoeness permanecer mesmo no cargo são óbvias. Como um dos clubes mais ricos do mundo pode manter um homem que fraudou € 27,2 milhões em sua alta cúpula? O culpado terá que lidar com alguns dos principais empresários da Alemanha. Adidas, Allianz e Audi estão entre os acionistas do Bayern. É certo que as contas do clube passam por muito mais vistas do que os trâmites pessoais de Hoeness, com riscos mínimos de fraude. Mas como manter a confiança no presidente? E os outros clubes lidarão com um rival tão dominante no país (esportivamente e financeiramente), que é comandado por um sonegador?

A não ser que os sócios do Bayern queiram mesmo reerguer a imagem de Hoeness, é inimaginável que ele continue na presidência. Os principais representantes do clube podem continuar dando coletivas apoiando o caráter de seu líder. Afinal, a Allianz Arena deverá continuar sendo sua válvula de escape diante da condenação pública. Mas mantê-lo na cadeira principal dos bávaros é como dar um tiro no próprio pé, mesmo que ele não pegue regime fechado. Tanto por passar para trás a confiança de milhares de torcedores, como por botar em risco a reputação da própria administração do Bayern – o que, em suma, pode afastar investidores.

Uli Hoeness, presidente do Bayern Munique

Por outro lado, o Bayern perde seu grande cérebro administrativo sem Hoeness. Sua trajetória na gestão do clube começou bem antes de substituir Franz Beckenbauer na presidência, em 2009. Se o grande time dos bávaros foi construído na década de 1970 com grandes jogadores, o ressurgimento da potência nos anos 1980 veio graças à postura de Hoeness nos negócios. Meses após o atacante se aposentar por um problema no joelho, em 1979, ele se tornou diretor geral do Bayern. Sob o seu comando, os bávaros chegaram ao seu auge econômico, dominando o futebol alemão e retornando ao topo da Europa graças aos grandes craques contratados ou formados pelo clube.

O voto de confiança a Hoeness logo após pendurar as chuteiras, aliás, aconteceu graças à tenacidade que demonstrava em seus negócios pessoais. Filho de um açougueiro, o então craque da seleção alemã montou uma fábrica de salsichas para a sua família, assim como passou a investir em uma rede de supermercados da Baviera. A partir desse momento é que começou a construir seu império pessoal. Que, de tão produtivo, acabou transformado também em uma máquina de lavar dinheiro.

Em um clube com gestão basicamente formada por ex-jogadores, é bem provável que muitos dos ex-companheiros de Hoeness ajudem a reerguer o moral da alta cúpula do Bayern. O presidente honorário Franz Beckenbauer deve reaparecer com maior constância no dia a dia do clube, assim como o diretor geral Karl-Heinz Rummenigge. Dois personagens e tanto para servirem de para-choques. Mas sem o mesmo tino comercial de Hoeness, que deve ser substituído mesmo por Karl Hopfner, homem forte do setor financeiro há tempos.

A saída de Hoeness não significa a perda de poderio econômico do Bayern. Como também nada indica que ele não poderá crescer ainda mais sem o mandatário. Há uma nebulosidade muito grande em tudo isso, algo impossível de se prever. O que os bávaros precisam é pensar no agora. E, ao que parece, o passo mais seguro é mesmo renegar a imagem pessoal de seu presidente a arriscar sua manutenção e colocar em jogo a reputação do clube. Embora alguns torcedores continuem ao seu lado, na maioria dos fóruns da imprensa alemã, os torcedores do Bayern preferem a sua renúncia. Por mais que Hoeness tenha ajudado a formar uma potência, a gratidão não deve ser transformada em apego.