Torcida do Flamengo lota o Maracanã (AP Photo/Leo Correa)

Como o Flamengo e o Palmeiras podem ajudar o futebol brasileiro

Enquanto o Brasileirão desfila todos os seus problemas com aquela malemolência brejeira, às vezes eu me pego pensando em uma das frases de Dante – o escritor italiano, não o zagueiro da seleção brasileira: “No meio do caminho de nossa vida / Encontrei-me numa selva obscura / Que a estrada reta fora perdida”. A frase abre “A Divina Comédia”, um clássico da literatura mundial (favor não confundir com a gestão Marin na CBF nem com a famosa frase “Pois são Comédias” da torcida do Corinthians. Obrigado).

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Neste livro, Dante faz uma baita reflexão sobre a vida. Entre referências religiosas, análise histórica e algumas fofocas de Florença renascentista, ele traça um grandioso painel sobre os rumos que tomamos e as escolhas que fazemos. Porque às vezes, no meio do caminho das nossas vidas, nos damos conta de que estamos… completamente perdidos. Admitir isso é uma das coisas mais difíceis que existem. Ninguém, afinal, gosta daquela sensação de não ter a menor ideia do que está fazendo com a própria vida. Dante encarou o dilema – tanto que essa frase famosa, que às vezes me aflige nos domingos à tarde, antecede a entrada do escritor no inferno (com direito a fogo e ranger de dentes).

Hoje, falta ao futebol brasileiro um pouquinho da coragem de Dante. Os dirigentes não têm a menor ideia do que estão fazendo no mundo e o resultado disso é a falta de noção ampla, geral e irrestrita. Os cartolas estão completamente perdidos, tão perdidos que chega a dar pena – se Marin não fosse o Marin, eu lhe daria um GPS DA VIDA. Mas não é só na CBF. Os clubes também estão protagonizando uma versão Mazzaropi de “O Ensaio sobre a Cegueira”, livro escrito por Saramago e filmado por Fernando Meirelles. Se alguém perguntar para Marin aonde ele quer chegar, provavelmente vai escutar alguma platitude sem sentido.

Só que o problema não está apenas na CBF. Se fosse lá, seria um problema localizado. Mas o negócio é maior, bem maior. E dois clubes simbolizam claramente essa falta de rumos do futebol brasileiro. São justamente os times que se propuseram faz pouco tempo a fazer tudo diferente: Flamengo e Palmeiras.

Os profissionais

Eduardo Bandeira de Mello, no Flamengo, e Paulo Nobre, no Palmeiras, assumiram mais ou menos na mesma época e sucederam duas gestões marcadas pelo baguncismo, aquele método de gestão que consiste em fazer um monte de coisas aleatórias e torcer para dar certo. Os dois vinham com um discurso vigoroso e tinham credenciais para isso. Afinal, tinham uma ampla bagagem empresarial e executiva nas costas e prometiam usá-la a favor da profissionalização dos respectivos clubes. Profissionalizar, naquele contexto, significava arrumar a casa, aumentar as receitas e devolver aos times a esperança de vitórias e títulos. Eles se cercaram de executivos, de dentro e de fora do futebol, e encheram as respectivas torcidas de esperança.

Hoje, um ano e meio depois da euforia, os resultados estão aquém do prometido. Mas aquém mesmo. Miseravelmente aquém.

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Muitos torcedores argumentam que as gestões tiveram pouco tempo ou assumiram os clubes em péssimas condições. É verdade. Nobre herdou o clube de Arnaldo Tirone, possivelmente um dos piores presidentes da história do Palmeiras. Bandeira de Mello não enfrentou situação muito melhor após a gestão de Patrícia Amorim: pegou o Flamengo acostumado com meses de 90 dias e dívidas maiores do que a paixão dos seus milhões de torcedores. Era terra arrasada – mesmo. Muitos dos seus defensores também argumentam que há mudanças acontecendo da porta para dentro do clube. E ai é que são elas.

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Patricia Amorim e Adriano: é verdade, a atual administração do Flamengo pegou uma herança complicada…

As decisões visíveis de Bandeira de Mello e Paulo Nobre vêm sendo ruins. Aquelas que mais interessam aos torcedores, dentro de campo, são atrapalhadas. Bandeira de Mello veio com o discurso da austeridade, mas acabou contratando técnicos medalhões como Mano Menezes e Luxemburgo e jogadores caros e em má fase, como Elano e André Santos. É uma política errática, sem sentido, que continua onerando os cofres do clube sem benefícios muito claros. No Brasileirão, o time se arrasta, com grande risco de queda.

Nobre cortou muitos custos, é verdade. Impôs um teto salarial aos jogadores e aos técnicos e introduziu a ideia de salário por produtividade no léxico boleiro. Só que, nesse meio do caminho, contratou mais de 30 jogadores em um ano e meio e perdeu alguns dos principais atletas do time mais por birra do que por avaliação de desempenho. As negociações dos atacantes Alan Kardec e Barcos continuam tão inexplicáveis e surpreendentes quanto os gols perdidos por Deivid. Como se não bastasse, a diretoria do Palmeiras não consegue aumentar o faturamento do time. O Palmeiras tem a quarta maior torcida do Brasil, mas apenas a oitava maior receita. As dívidas gritam, Nobre empresta dinheiro ao clube. Resultado? Não consegue manter um time competitivo e acaba entrando numa espiral de decadência.

Análise da consultoria Pluri sobre os dois times mostra em números o tamanho da decepção. Em 2013, os dois clubes patinaram bonito nesta longa estrada da vida. O Palmeiras, simplesmente, não consegue sair do lugar ruim em que está. O Flamengo deu alguns sinais de melhora, mas ainda muito fracos diante das enormes dificuldades que possui. O balanço das duas administrações que vieram para revolucionar o futebol brasileiro é decepcionante.

E ai cabe a pergunta: Por quê? Há muitas hipóteses, claro. A situação em campo de Palmeiras e Flamengo não é respondida com perguntas simples. Então vamos listar algumas possibilidades.

Arnaldo Tirone, então presidente do Palmeiras, foi à praia um dia depois do rebaixamento do clube, em 2012: de fato, a herança de Nobre não era simples (Reprodução/Veja.com)

Arnaldo Tirone, então presidente do Palmeiras, foi à praia um dia depois do rebaixamento do clube, em 2012: de fato, a herança de Nobre não era leve (Reprodução/Veja.com)

As hipóteses

Quando estamos perdidos, geralmente insistimos nas mesmas ideias – em vez de mudar as perguntas que deram origem a essas ideias. Nós dizemos a nós mesmos que é uma questão de fazer direito, de fazer mais. Dá segurança, mas não corrige o rumo. Então, talvez seja hora de mudar as perguntas. À lista de hipóteses para entender por que as duas administrações não entregaram resultados à altura até agora. Nenhuma das hipóteses é excludente. Talvez a solução esteja em algum lugar entre elas…

1) Futebol não é empresa. Portanto, métodos empresariais não resolvem o problema

É uma questão que me aflige ultimamente: qual o modelo? Empresas podem falir – clubes de futebol, não. A paixão de milhões de pessoas não pode desaparecer por culta de meia dúzia de ineptos. Além disso, o sucesso não é medido pelo balanço. Um clube lucrativo pode ser um fracasso esportivo, como vem sendo o Arsenal, da Inglaterra, nos últimos anos. O vigor de um clube é medido pelos títulos que conquista e pelas memórias que deixa aos torcedores. Porém, o fato de frequentar o limbo organizacional permite que clubes abracem a bagunça financeira. Não pagam impostos, gastam mais do que arrecadam, contratam sem critério e ficam de conversinha com o governo.

Por isso, talvez o futebol tenha de olhar para outros modelos. Talvez o de algumas fundações e organizações que não tem lucro como objetivo final e precisam prestar contas aos seus associados – eu, sinceramente, não sei qual o melhor modelo para um clube. Mas uma coisa me parece clara: empresários, no final das contas, estão acostumados a lidar com balanços e com contas que fecham mês a mês. A seleção brasileira é um caso semelhante. Financeiramente, Ricardo Teixeira foi um baita presidente. Oriundo do mercado financeiro, transformou a CBF numa máquina de acumular dinheiro. Mas, na sua gestão, a seleção se transformou em time da CBF para um grande número de torcedores. Ele conseguiu a proeza de afastar os brasileiros do time nacional. É uma façanha.

No final do dia, por mais apaixonados que os empresários sejam, eles não foram educados para criar instituições que dão origem a clubes vencedores. Por mais bem intencionados que sejam, isso não faz parte do treinamento que tiveram.

Paulo Nobre, presidente do Palmeiras: onde foi parar o discurso de aumento de receitas? (Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

Paulo Nobre, presidente do Palmeiras: onde foi parar o discurso de aumento de receitas? (Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

2) Falta um projeto claro

Quando escuto Palmeiras e Flamengo defendendo o profissionalismo, fico aqui me perguntando: Tá, beleza. Ninguém é contra uma boa gestão, profissional. É como ser contra a paz mundial. Só que o profissionalismo não é fim em si próprio – é meio. É por ela que esses clubes vão se organizar e formar grandes times. Fico com a impressão de que falta um projeto claro, um plano. Eu sei que a palavra projeto dá arrepios. O luxemburguismo de (falta de) resultados faz suar frio. Mas o projeto é necessário.

O que o Flamengo quer ser daqui a dez anos? E o Palmeiras? Em que lugar esses clubes querem estar? Como querem ser percebidos pela sociedade e pelos torcedores? As decisões são erráticas e contraditórias. Quando Paulo Nobre diz que não será refém do centenário, ele joga contra si, contra a torcida e contra a própria história do clube. O torcedor, a base destes dois times, é frequentemente mal tratado por preços gigantescos sem benefícios minimamente perceptíveis. Onde esses clubes querem chegar tratando seu principal patrimônio tão mal? Como você vai empolgar sua torcida se trata o aniversário da paixão dela como uma data banal de calendário? O Flamengo colocou preços absurdos na final da Copa do Brasil de 2013. Ok, é para acompanhar a demanda, e tals, e era uma final da campeonato, uma situação que não acontece todo dia. Mas esse não é o clube do povo? Não é o time da massa brasileira? O que o aumento de preços significa?

A impressão é que Palmeiras e Flamengo fazem administração de manual de economia. Aumente o preço para aumentar a receita, corte custos e vamos que vamos. Só que eles são times de futebol, não uma companhia em reestruturação. Do jeito que vão, podem acabar se transformando em máquinas de fazer superávits tão empolgantes quanto a seleção de Ricardo Teixeira. Se esse for o projeto, prefiro começar a acompanhar rúgbi.

3) O futebol está blindado contra as mudanças

O futebol brasileiro tem uma grande fonte de financiamento, a TV. Um dono, a CBF. E um órgão regulador, o STJD – vinculado à CBF. As federações são a representação do poder central nos Estados. O poder político e econômico é tão centralizado que, no final das contas, é praticamente impermeável às mudanças. Exceto por alguma força externa e imprevisível, a estrutura tende a se manter a mesma porque ela protege boa parte dos interesses de todos os envolvidos.

Eduardo Bandeira de Mello: promessa de renovação no Flamengo. Mas acabou trazendo Luxemburgo de volta em uma das piores fases do time - e da carreira do treinador (Foto: Divulgação)

Eduardo Bandeira de Mello: promessa de renovação no Flamengo. Mas acabou trazendo Luxemburgo de volta em uma das piores fases do time – e da carreira do treinador (Foto: Divulgação)

Neste contexto, ou você joga alinhado com o poder central ou vai ter problemas. E eu não digo perseguição de árbitro ou outras coisas do tipo. Pode ter, mas é mais difícil de provar. O nó é: como enfrentar um modelo tão sólido? Quando tentam fazer algumas mudanças de fundo nos times, Bandeira de Mello e Nobre talvez tenham se confrontado com um jeito de ver e fazer futebol no Brasil que é absolutamente incompatível com o que eles pensam. É difícil saber, mas talvez ajude a entender. Só isso explica, por exemplo, por que a direção da CBF se manteve no comando apesar de todos os maus resultados acumulados pela seleção e pelo Brasileirão. É um negócio tão forte que se tornou impermeável a qualquer transformação.

Essas são as três hipóteses que ando ruminando. O futebol empresa não funciona, falta projeto e o comando está blindado. Provavelmente, há outras tantas. De qualquer forma, chegou a hora de mudar um pouco as perguntas. Estamos perdidos, na estrada errada, sem saber para onde ir. Talvez a experiência ruim de Flamengo, Palmeiras e da própria CBF ajudem a iluminar, por contraste, o caminho alternativo para o futebol jogado no Brasil.

Afinal, onde a seleção e os clubes querem estar daqui a 10 anos? Ninguém é capaz de dar uma resposta convincente para essa pergunta até agora. E o fato de que ninguém consiga responder a essa pergunta mostra a necessidade de fazê-la, urgentemente.

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