“Vergonha única”, “porcaria” e “uma merda” foram apenas algumas formas que o povo encontrou para classificar a histórica, humilhante e assustadora derrota da seleção brasileira para a Alemanha por 7 a 1. Na Avenida São João, próxima à Fan Fest de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, as pessoas que não conseguiram entrar na festa organizada pela Fifa miravam um monitor pendurado à porta de um bar. Passaram, em 30 minutos, da euforia e da expectativa à tristeza, à melancolia e à indiferença – algumas vezes pior que o próprio ódio.

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Com medo de virarem alvos de manifestantes contrários à Copa do Mundo, uma espécie cada vez mais rara ultimamente, lojas e bancos do centro de São Paulo fecharam as portas. Apenas os restaurantes e os bares, com as televisões ligadas, continuavam abertos. Um deles, entre a rua Libero Badaró e a Prestes Maia, reuniu uma centena de pessoas animadas com o início da partida. O duro adversário e a ausência de Neymar não estavam, a princípio, fomentando o pessimismo.

Não havia áudio para escutar os hinos nacionais, mas, durante o alemão, alguém gritou “vai embora” para os adversários. Todos vibraram ao ver a camisa de Neymar que David Luiz hasteou antes do brado retumbante de um povo heroico começar e entoaram a canção com os corações e os pulmões em dia. Camisas do Brasil, chapéus e tinta no rosto pareciam obrigatórios. Um rapaz de boné cinza segurava um charuto em uma mão e um baseado na outra. Os ambulantes tratavam do abastecimento de cerveja, três latinhas por dez reais ou um latão por metade desse preço. A festa estava preparada.

Contesto a diversão no barulho de uma corneta, mas elas também apareceram. No sentindo literal e no metafórico. No primeiro erro de Fred, uma bola que o atacante do Fluminense deveria ter chutado ao invés de passado, os primeiros palavrões e referências à mulher que lhe deu à luz foram ouvidos. Pouco depois, Thomas Müller abriu o placar para a Alemanha, mas não chegou a desanimar a torcida. “O Brasil é o time da virada, o Brasil é o time do amor”, era a crença da população.

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O problema foi o que veio a seguir. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Em um curto intervalo, a derrota por 1 a 0 virou uma humilhação por 5 a 0. Em seis minutos, a esperança virou vergonha. Muitas pessoas começaram a ir embora. “Era melhor ter ido ver o filme do Pelé”, foi a piada mais recorrente, lembrando o seriado Chaves. “Eu acho que é uma pegadinha e o jogo vai começar daqui a pouco”, imagina uma esperançosa e inocente ambulante. A centena virou algumas dezenas de pessoas e, mesmo as que ficaram, pareciam um pouco alheias aos acontecimentos do Mineirão. A eliminação, afinal, já estava sacramentada.

Entre elas, um homem não vestia o branco da Alemanha ou o amarelo do Brasil. Estava com o verde, do México. Chegou ao Brasil há alguns dias, tem 34 anos, comprou ingresso para a disputa de terceiro lugar em Brasília e se chama Federico Hasbach. Sim, ele é descendente de alemão, torcia pelos comandados de Joachim Löw, mas não queria que o massacre fosse tão grande. “Pensava que a Alemanha ganharia, porém não desse jeito. Brasil não tem um time tão ruim assim. Estava torcendo, mas estou triste. Queria ganhar por um gol de diferença”, admite.

Os arredores do bar ficaram lotados para ver o jogo do Brasil (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Os arredores do bar ficaram lotados para ver o jogo do Brasil (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

O metalúrgico Guilherme Alves, 19 anos, sentava no banco, com os pés no assento, um boné cobrindo o cabelo parecido ao de Neymar e o rosto enterrado nas mãos para aliviar a decepção. “Foi uma merda. O time ficou abatido, a perda do Neymar abalou muito”, afirma, criticando vários jogadores do time, inclusive o Fred, mas não o técnico Luiz Felipe Scolari. “É que eu sou palmeirense”, explica. O contador César Camargo, de 26 anos, também não culpou Felipão. Ele acha que o principal problema do Brasil é que os principais jogadores da seleção atuam fora do país. A ideia dele não é convocar apenas atletas que atuem em clubes nacionais. “Foi uma porcaria”, começa. “Tem que manter os jogadores aqui e abrir mais para os estrangeiros”.

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Fábio dos Santos, funcionário público do governo estadual, tem família morando próxima ao Itaquerão, mas não quis ir a nenhuma partida. Um protesto contra as arenas superfaturadas e à falta de organização do Mundial que, no geral, não teve grandes problemas. O único que consegue apontar é o perímetro da Fifa que fecha as ruas em torno dos estádios da Copa. Acha que o futebol brasileiro precisa mudar, começando pela CBF. “Vai sair o Marin e entrar o Marco Polo Del Nero e é tudo a mesma coisa”, analisa. “Foi uma vergonha única, isso nunca aconteceu na Copa do Mundo. A Argélia empatou com a Alemanha, como pode o Brasil levar sete?”

Algumas pessoas nem perceberam que foram sete. Depois do quinto gol, desistiram da partida e não foram para casa. Continuaram bebendo e festejando. Comemorando sabe-se lá o quê, talvez apenas o fato de haver uma Copa do Mundo, apesar de o time pentacampeão ter sido colocado de joelhos. Oscar marcou e comemoram como se aquela bola nas redes valesse de fato alguma coisa. Estavam mais em choque que abalados, mais com vontade de xingar que de chorar, mais indiferentes que abatidos. Talvez demore um pouco para cair a ficha de que haviam acabado de ver a pior derrota da história da seleção brasileira.

Eles gritavam a nova e famosa música “mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé” para os argentinos com os quais cruzavam, e obviamente as provocações voltavam, na forma de cinco, seis ou sete dedos, dependendo do momento da partida. Um desses argentinos era Ezequiel Lassaro, ferreiro de 28 anos, na cidade para assistir à semifinal da próxima quarta-feira contra a Holanda. Depois, tem certeza que vai para o Rio de Janeiro ver a final. “Fiquei muito triste, lamentável”, diz, antes reforçar o seu pensamento ao ver a expressão um pouco incrédula da reportagem. “Final é Brasil e Argentina, isso seria uma verdadeira final”, explica. Verdade, Lassaro, seria.

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