Como o profissionalismo ajudou a tornar o Fla-Flu tão grandioso

Fla-Flu. O nome basta para representar a imponência daquele que, mais do que um clássico, é um dos maiores símbolos do futebol brasileiro. Ainda que a rivalidade dos rubro-negros com o Vasco seja maior, o dérbi entre Flamengo e Fluminense possui uma força incomparável no imaginário popular. Apelo conquistado através das obras-primas da crônica esportiva encabeçada por Mário Filho e Nelson Rodrigues, é claro. Mas que não seria possível sem os timaços que a dupla montou entre as décadas de 1930 e de 1940, entre os maiores já vistos nas Laranjeiras e na Gávea.

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A própria história dos clubes ajudou a moldar a rivalidade. O nascimento do departamento de futebol do Flamengo a partir de uma dissidência do Fluminense deu motivo a rixa entre os irmãos. No entanto, o futebol brasileiro ganhou novas proporções a partir da década de 1930. E a excelente fase vivida pela dupla, assim como os craques que vestiram suas camisas, ajudaram a impulsionar o clássico neste novo contexto. Adotado a partir de 1933, o profissionalismo atraiu de volta os melhores jogadores ao país e também abriu em definitivo as portas aos negros, antes aceitos em poucas equipes. Já o sucesso do Brasil na Copa do Mundo de 1938, a primeira transmitida ao vivo pelo rádio, consolidou a popularidade do esporte. Algo que se refletiu também sobre Fla e Flu, bases daquela Seleção e donos dos nove títulos cariocas profissionais entre 1936 e 1944.

Como o profissionalismo e a crônica criaram um gigante

O futebol carioca demorou a se organizar durante os primeiros anos do profissionalismo. A cisão entre clubes manteve dois campeonatos estaduais, entre os que adotaram o novo regime e aqueles que preferiam manter o amadorismo. Por isso mesmo, Fluminense e Flamengo disputaram ligas diferentes em 1933 – meses depois é que os rubro-negros optaram por remunerar os seus jogadores. E os primeiros anos de futebol profissional no Rio de Janeiro acabaram dominados por Bangu e Vasco, não coincidentemente dois clubes que já tinham admitido os craques negros bem antes da transição.

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A adaptação ao profissionalismo, todavia, garantiu a Fluminense e Flamengo o domínio do futebol carioca a partir da segunda metade dos anos 1930. Dois clubes de elite e de torcida, com dinheiro em caixa para fazer grandes contratações. Nas Laranjeiras, a política de buscar alguns dos melhores jogadores do futebol paulista deu bastante certo. Aproveitando a força econômica maior do esporte no Rio de Janeiro, o Flu trouxe boa parte de seus ídolos no período do estado vizinho – entre eles, Romeu Pellicciari, Tim, Batatais e Hércules, todos presentes na Copa de 1938. Além disso, os tricolores também se mantinham atentos aos times menores do futebol carioca, formando a base de seu elenco.

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Já o Flamengo viveu uma revolução sob a presidência de José Bastos Padilha. O clube foi atrás dos principais jogadores negros do país na década de 1930 e, assim, passou a atrair cada vez mais atenções das camadas mais populares – algo que já era conseguido pelo Vasco, mais próximo dos subúrbios até então. Leônidas da Silva era a principal estrela da companhia rubro-negra, que também contava com Domingos da Guia, Fausto dos Santos e Waldemar de Brito. Talentos que impulsionaram o clube a também brigar por taças, após um longo jejum iniciado no final dos anos 1920. A mudança para o Estádio da Gávea, em 1938, também marcou novo momento.

E a consolidação do clássico deve muito à crônica esportiva que surgia, através dos primeiros veículos especializados do Brasil. Mário Filho esteve por trás da criação do Mundo Sportivo, pioneiro na área, e durante três décadas editou o Jornal dos Sports, principal periódico esportivo do país. Através de suas publicações, o jornalista cunhou o termo “Fla-Flu”, na intenção de promover o reencontro dos clubes sob o profissionalismo – em um jogo que oferecia gorda premiação aos vencedores. Sucesso de público que se transformou em poucos anos no “Clássico das Multidões”, como chamava Mário Filho em seus jornais.

“O pretexto era o Fla-Flu. Hoje ninguém acha nada demais que fosse o Fla-Flu. Mas o primeiro Fla-Flu do futebol profissional, em 33, rendeu dois contos e quatrocentos mil réis. Era verdade que o match tinha uma mística ou foi possível criar-lhe uma mística. A da rivalidade pura que colocava, como adversários, clubes do mesmo sangue, carne da mesma carne, irmãos do esporte. E tome Fla-Flu. A CBD mandava buscar em Buenos Aires o River Plate e o Boca Juniors, contando com o público do Vasco, com São Januário que era o maior estádio da América do Sul, e com a fraqueza ou o béguin do brasileiro pelo argentino, sobretudo pelo tango e pelo futebol argentinos. No dia do Vasco e River Plate ou do Botafogo e Boca Juniors, marcava-se um Fla-Flu. A multidão ia para o Fla-Flu e o estádio do Fluminense não cabia de tanta gente. Era uma febre, uma epidemia de Fla-Flu. Ninguém estava livre dela: pegava feito visgo”.

Trecho da crônica Epidemia de Fla-Flu, de Mário Filho

Os craques do Fla, os títulos do Flu

A rivalidade ferrenha da dupla pelo topo do futebol nacional começou em 1936. Naquele ano, Flamengo e Fluminense disputaram ponto a ponto a liderança do Campeonato Carioca. E acabaram decidindo a taça em três partidas decisivas nas Laranjeiras, nas quais o Tricolor prevaleceu. Por mais que os rubro-negros tivessem Leônidas e Domingos, foram massacrados no segundo jogo: 4 a 1 para o Flu, com Romeu e Hércules brilhando na goleada. O primeiro dos cinco títulos estaduais que o clube conquistaria em seis anos.

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A chegada do técnico uruguaio Ondino Viera em 1937 consolidou ainda mais a força daquele Fluminense, que conquistou com mais tranquilidade o bicampeonato estadual, três pontos à frente dos rivais. Nem mesmo a revolução tática promovida por Dori Krueschner na Gávea, com a introdução do WM na equipe, tornou o Flamengo competitivo. Um período no qual o Tricolor também estabeleceu a maior sequência invicta da história do dérbi: de outubro de 1936 a novembro de 1938, foram 13 clássicos sem perder para os rivais, com nove vitórias e três empates. Período em que os jogadores do time se afirmavam como os melhores do país.

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Não à toa, o Fluminense teve quatro titulares na seleção brasileira que estreou com vitória na Copa de 1938. O épico por 6 a 5 contra a Polônia, que contou com o flamenguista Leônidas como principal destaque. Ao lado de Domingos da Guia, outro companheiro de clube, o Diamante Negro se consagrou naquele Mundial. Ainda assim, os tricolores tiveram os seus destaques, com grandes atuações de Tim e Romeu. Nomes que se tornaram célebres com a grande repercussão da campanha da Seleção, terceira colocada na França, na primeira Copa transmitida ao vivo através das rádios.

Após a grande festa na volta ao Brasil, com presença de Getúlio Vargas na recepção aos jogadores e milhares de torcedores nas ruas, a consistência do Flu pesou contra as estrelas do Fla. O tricampeonato carioca dos tricolores se combinou com o terceiro vice consecutivo dos rubro-negros. Nem mesmo a vitória por 5 a 2 dos flamenguistas no segundo turno ajudou, por mais que ela indicasse a mudança de cenário nos clássicos ao encerrar o jejum.

A popularidade crescente

Flávio Costa só deixou o rótulo de técnico azarado em 1939, quando finalmente levou o Flamengo ao topo do Campeonato Carioca. E a campanha dos rubro-negros foi irretocável, enquanto o Fluminense acabava em um irreconhecível quarto lugar. Com os estrangeiros Agustín Valido e Alfredo González estrelando o time ao lado dos craques brasileiros, o Fla venceu dois e empatou o outro clássico daquela campanha.  A vitória por 2 a 1 no segundo turno, com dois gols de Sá, valeu mesmo o título antecipado, com grande festa em São Januário. A torcida que os flamenguistas conquistavam naqueles anos finalmente tinha o direito de festejar. Leônidas e Domingos finalmente eram campeões pelo clube.

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“Ao lado da sede da Gávea, se localizava a Favela da Praia do Pinto, uma grande comunidade de planície do Rio de Janeiro. Leônidas foi o responsável por romper, simbolicamente, o muro que separava o clube de futebol da população mais pobre”, afirmou o jornalista Roberto Assaf, em entrevista à Trivela durante o centenário de Leônidas. “Talvez o Flamengo não fosse um clube de massa sem a passagem de Leônidas. Não digo que não seria popular, o que já era desde a sua fundação, nos tempos em que havia a equipe de remo. Mas, considerando a evolução do processo, não sei se teria a proporção atual”.

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A popularização do Flamengo, entretanto, não impediu que o Fluminense também ganhasse novos seguidores graças as suas campanhas avassaladoras. Aquele título rubro-negro interrompeu a série tricolor que poderia ter se tornado um hexacampeonato, com as duas novas taças levantadas em 1940 e 1941. Mesmo com os 30 gols de Leônidas em 1940, o time de Ondino Viera terminou um ponto à frente do Fla. Naquele mesmo ano, ambos ainda foram considerados campeões extraoficiais do Torneio Rio-São Paulo, abandonado após oito rodadas.  Já em 1941, o sucesso do Flu no Carioca acabou selado com o lendário “Clássico da Lagoa”, em que a equipe segurou o empate por 2 a 2 na rodada final para assegurar o troféu. Nomes como Brant e Russo se eternizavam na história do clube das Laranjeiras.

A virada no topo e as novas forças

O título de 1941 marcou o fim de uma geração cada vez mais envelhecida no Fluminense. E abriu espaço para que o Flamengo dominasse o futebol carioca a partir de então, buscando o inédito tricampeonato estadual. Apesar das saídas de Leônidas e Domingos, os rubro-negros souberam renovar a competitividade de seu elenco, buscando craques do porte de Sylvio Pirillo e revelando Zizinho. Em 1942, ano em que perdeu Ondino Viera, o Flu terminou o Carioca em terceiro, dois pontos atrás do Botafogo e com três a menos que o Flamengo. O clássico da rodada final marcou apenas a festa rubro-negra, com a taça já confirmada.

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O bicampeonato flamenguista em 1943 veio com o vice do Fluminense, dois pontos atrás. Uma campanha irretocável do time de Flávio Costa, que sofreu apenas uma derrota. Já no ano seguinte, por mais que o Tricolor tenha mantido suas chances de título por boa parte da campanha, a derrota por 6 a 1 no clássico dimensionou a diferença entre os rivais. O Flamengo de Vevé, Biguá, Bria, Jaime e tantos outros nomes históricos se sagrou tricampeão ao bater o Vasco. O rival que começaria a despontar a partir de então.

Após o tri, o Flamengo não conseguiu manter a competitividade. Era o início de uma seca de oito anos sem o título estadual. Já o Fluminense até conseguiu a reconquista em 1946, quando tirou Ademir de Menezes do Vasco. Mesmo assim, ficava difícil de encarar o Expresso da Vitória, assim como o Botafogo de Heleno de Feitas. O Fla-Flu não teria a mesma importância nos anos seguintes, por mais que a mística não tenha se perdido. Pelo contrário, a construção do Maracanã e o surgimento de estrelas como Dida, Rivellino, Zico e Romerito só ajudaram a torná-la ainda maior.

Os títulos da dupla de 1936-44

Flamengo: Campeonato Carioca de 1939, 1942, 1943 e 1944; Torneio Aberto de 1936; Torneio Relâmpago de 1943.
Fluminense: Campeonato Carioca de 1936, 1937, 1938, 1940 e 1941; Torneio Extra de 1941; Torneio Municipal de 1938; Torneio Início de 1940, 1941 e 1943.

O grande momento do Flamengo

O primeiro tricampeonato estadual marcou época no Flamengo. E teve o seu penúltimo passo com uma goleada histórica sobre o Fluminense. Na penúltima rodada do Carioca de 1944, os rubro-negros enfiaram 6 a 1 sobre os tricolores na Gávea, naquela que era a maior goleada do clássico até então. Sylvio Pirillo comandou o massacre com dois gols, enquanto Zizinho, Tião, Bria e Jaime também deixaram as suas marcas. Com aquele placar, os flamenguistas chegaram à rodada decisiva com os mesmos 26 pontos do Vasco e levantaram a taça após baterem os rivais por 1 a 0. Se vencessem aquele dérbi, os tricolores poderiam provocar um empate quádruplo na tabela final, incluindo também o Botafogo.

O grande momento do Fluminense

O “Clássico da Lagoa” ocupa um lugar especial na mitologia do Fla-Flu. A partida decisiva na Gávea fechava o hexagonal final do Campeonato Carioca de 1941, e um empate dava o bicampeonato ao Fluminense. Título que parecia bastante próximo depois que Pedro Amorim e Russo deram dois gols de vantagem aos tricolores. No entanto, o Flamengo conseguiu buscar o empate aos 38 minutos do segundo tempo, graças a dois tentos de Sylvio Pirillo. Diante da pressão rubro-negra, o Flu conseguiu segurar o empate por 2 a 2 de maneira heroica, mesmo após a expulsão de Carreiro. O mito eternizado naquele jogo foi o goleiro Batatais, que seguiu em campo e fez grandes defesas mesmo depois de deslocar a clavícula.

O craque rubro-negro

Leônidas da Silva entrou para a história como um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro e o grande astro do país entre as décadas de 1930 e 1940. E o Flamengo deve muito de sua grandeza ao Diamante Negro. A contratação do craque foi uma grande jogada do rubro-negro para se tornar um clube de massas.  Por mais que só tenha conquistado um estadual na equipe, o seu impacto na Gávea é incomparável. Além de ser uma enorme referência para a população negra, o artilheiro também se tornou a principal personalidade do país após o sucesso na Copa de 1938, ganhando novos torcedores ao Fla.

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O craque tricolor

Romeu Pellicciari era a grande referência técnica do Fluminense, ao lado de Tim. Enquanto El Peón organizava o time, o meia se responsabilizava pelo toque de classe na ligação como o ataque, além de também marcar os seus gols. Apesar da facilidade para engordar, orquestrava o Tricolor através de seus ótimos passes e lançamentos. Também ídolo do Palestra Itália, acabou sendo um grande negócio para o Flu na época, já que era cobiçado por equipes italianas.  Viveu o auge de sua carreira nas Laranjeiras, conquistando cinco estaduais em sete anos de clube e disputando também a Copa de 1938.

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O carrasco rubro-negro

Quando foi contratado pelo Flamengo, Sylvio Pirillo tinha a ingrata missão de substituir Leônidas da Silva. Após passagens por Internacional e Peñarol, o atacante se tornou um dos maiores ídolos flamenguistas durante os anos 1940, liderando o ataque no tricampeonato carioca. E também conquistou boa parcela dos torcedores por sua capacidade de brilhar nos clássicos. O momento mais marcante aconteceu em 1945, quando marcou quatro gols nos 7 a 0 do Fla no Torneio Municipal, ainda hoje a maior goleada do dérbi. Pirillo deixou a Gávea em 1947, então como o maior artilheiro da história rubro-negra, com 204 tentos – 18 deles anotados contra o Fluminense.

O carrasco tricolor

Trazido do São Paulo da Floresta logo nos primeiros anos de profissionalismo, Hércules é apontado como um dos melhores pontas da história do Fluminense. Em seus sete anos no clube, conquistou cinco vezes o Campeonato Carioca e se tornou o maior artilheiro do clube até então, com 164 gols. Ainda hoje é o maior artilheiro tricolor no clássico, com 14 bolas nas redes flamenguistas. Dono de chutes potentes com as duas pernas, o Dinamitador marcou quatro vezes nos três clássicos que decidiram o Carioca de 1936 – o primeiro do tricampeonato dos tricolores, no qual foi o principal goleador do time.

Os números de 1936-44

46 jogos
14 vitórias do Flamengo
16 empates
16 vitórias do Fluminense