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Como a punição da Fifa salvou Suaréz e o transformou em vítima

Em 2008, o zagueiro Martin Taylor quebrou a perna do atacante Eduardo da Silva, no jogo entre Birmingham City (de Taylor) e o Arsenal (de Eduardo). O brasileiro naturalizado croata ficou um ano fora dos gramados. A cena até hoje me embrulha o estômago. Você olha Taylor vindo, a chuteira contra a canela de Eduardo, a perna se partindo, o tornozelo virando e então o grito de dor do brasileiro, já estirado no chão. Taylor foi expulso do jogo, que acabou empatado em 2 a 2. Logo depois da partida, houve um coro para que ele fosse banido do futebol. Mas, segundo o regulamento da Premier League, a pena era de, no máximo, três jogos. E Taylor acabou pegando apenas três jogos mesmo.

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Vamos voltar mais 10 anos no tempo. Em fevereiro de 1998, Juninho Paulista jogava pelo Atlético de Madrid. Ele ia em direção ao gol do Celta, livre. Até que Michel Salgado, do Celta, avançou sobre a perna do brasileiro, por trás. Juninho teve uma fratura no perônio e rompeu os ligamentos do tornozelo. Pouco tempo depois da partida, Salgado recebeu uma multa de US$ 3 mil e suspensão de quatro jogos. Só que a pena não durou muito tempo. A punição foi revogada porque, segundo a federação espanhola, era preciso dar o benefício da dúvida a Salgado – as imagens não demonstrariam maldade. Já o destino não foi tão generoso com Juninho. O meia perdeu a Copa do Mundo de 1998, para a qual era nome certo na lista brasileira.

Você pode se perguntar: Por que voltar tanto no tempo para falar daquilo que todo mundo está falando? Por um motivo simples. Luis Suaréz merece ser punido, mas a Fifa não tem nenhuma condição de dar lição de moral nem de aplicar uma pena tão dura dado seu histórico – recente ou não. A punição diz mais sobre os problemas da Fifa do que sobre Suaréz.


Martin Taylor x Eduardo da Silva


Michel Salgado x Juninho Paulista

Suaréz x Fifa

É justo que se diga: Suaréz foi estúpido e egoísta, e não é de hoje. Ele não pensou nos colegas de time nem no fisioterapeuta uruguaio que largou seu tratamento de câncer para tratá-lo. Foi impulsivo e burro. Como se não bastasse, tem um histórico horroroso de racismo e agressão contra adversários. Desde 2010, como mostra este levantamento do UOL, Suaréz já foi suspenso por 34 partidas pelos mais variados problemas disciplinares. Uma reportagem da ESPN americana sobre a sua vida mostra uma pessoa carismática e, ao mesmo tempo, dificílima. Ser colega de profissão de Suaréz não deve ser nada fácil. Só que a história das punições a Suaréz mostra também os problemas dos dirigentes de futebol.

Em 2011, Suaréz foi punido por racismo. Ele levou oito jogos de suspensão, mais uma multa de 40 mil libras. Em 2013, Suaréz se meteu em mais uma confusão de quem, tal como uma criança mimada, ainda vive na fase oral. Suaréz mordeu um zagueiro do Chelsea. Desta vez, ele levou uma punição de dez jogos. No ranking da cartolagem, mordida vale dez jogos de suspensão. Racismo, oito.

O histórico de Suaréz certamente vale uma punição severa. Não sei precisar qual deveria ser. Dado o seu histórico, parece justo perder a Copa do Mundo. Só que a Fifa quis ir mais longe.

Além de tirar Suaréz do torneio que ele quase perdeu, por lesão, o que já seria grande o bastante, a Fifa ainda baniu o uruguaio do futebol por quatro meses. Ele não pode participar de nenhuma atividade ligada ao futebol. Hoje mesmo já perdeu a credencial e não pode nem almoçar com seus colegas de Celeste. Para manter a forma e o ritmo assim que voltar ao Liverpool, seu atual time, vai ter de treinar por conta própria. Além disso, foi multado em 100 mil francos suíços, o equivalente a 250 mil reais. É uma punição pesada, para deixar claro que a instituição não vai tolerar violência no gramado. Só que essa punição, deste tamanho, se volta contra a própria Fifa. Afinal, os critérios da instituição são profundamente obscuros.

Suárez foi punido por ofensas racistas a Evra (Foto: AP)

Suárez foi punido por ofensas racistas a Evra (Foto: AP)

O comitê disciplinar da Fifa

A pena a Suaréz foi dada pelo Comitê Disciplinar da Fifa, que tem a missão de zelar pelo Código Disciplinar da entidade. Ele é presidido pelo ex-jogador suíço Claudio Sulser. Uma das atribuições do comitê, aliás, é investigar as denúncias de corrupção dentro da própria entidade. Só que esse comitê não tem telhado de vidro. Tem uma cidade inteira de vidro, praticamente.

O comitê é formado, basicamente, por presidentes de federações. Entre seus membros estão os chefes máximos do futebol na Venezuela, no Paraguai, nas Ilhas Cayman, no Paquistão, em Hong Kong. Os países com mais tradição boleira nesse comitê são Paraguai e EUA. Com algum esforço, Equador e Irlanda do Norte. É difícil entender quais são os critérios pelos quais alguém vai parar no comitê disciplinar da Fifa. Aliás, é complicado entender o que move a Fifa, em geral. Quer um exemplo? Apesar dos inúmeros problemas ao longo das últimas décadas nos estádios mundo afora, apenas em 2013 a entidade resolveu tomar uma atitude forte, clara e contundente contra o racismo e a discriminação. Até então, a Fifa tomava uma atitude dúbia, pouco consistente. Uma atitude bem semelhante à da Conmebol, por exemplo, que mal puniu casos de racismo na Libertadores deste ano. A luta contra o preconceito racial era mais verbal do que prática.

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A Fifa, dado seu histórico recente de coisas que seus membros fizeram (a controvertida decisão de levar a Copa para o Catar) e do que eles não fizeram (a falta de punição a racismo e a casos graves de agressão nos gramados), tem pouca legitimidade para dar punições exemplares. Afinal, quando uma punição muito severa é aplicada por uma instituição sem muita moral, a pena age contra si mesma. Ela expõe ainda mais os problemas de quem a aplica e transforma um sujeito bem complicado, como Suaréz, em vítima. É o que já está acontecendo agora.

Antes mesmo de a Fifa anunciar a punição, a federação uruguaia já declarara, por meio do seu advogado, que Suaréz é vítima de uma conspiração internacional. A tese é de que Inglaterra e Itália, seleções eliminadas pelo Uruguai, querem se vingar do país. Além disso, a saída de Suaréz do torneio facilitaria as coisas para o Brasil – que teria interesse, segundo essa tese, em tirar o atacante da Copa e diminuir as chances de um novo Maracanazo. As declarações uruguaias, estapafúrdias, certamente são uma tentativa desesperada de livrar o melhor jogador da equipe. Só que elas só são possíveis no ambiente de desconfiança gigantesca que cerca a Fifa. Suaréz está saindo como “o perseguido” de uma situação na qual a responsabilidade é toda dele. E isso é culpa da entidade.

Mais um caso de racismo na Espanha, agora na terceira divisão espanhola, em maio deste ano

Mais um caso de racismo na Espanha, na terceira divisão espanhola, em maio deste ano

A Fifa age como o coronel que, depois de anos de desmando, escolhe um dos seus comandados para receber uma punição exemplar porque, afinal, chegou a hora de colocar ordem na casa. É um moralismo que não combina com o histórico recente de suspeitas sobre a entidade. Afinal, como confiar numa entidade recheada de denúncias de corrupção? Como acreditar em uma instituição que leva seu principal torneio para o Catar? A Fifa vive uma crise moral. Poucas das suas decisões vão ser vistas como justas ou razoáveis apenas porque são da Fifa. Elas precisam ser razoáveis e legitimas por si próprias, não porque vieram da Fifa. Qualquer pessoa se sente à vontade para questionar a Fifa com os argumentos mais absurdos do mundo – até porque as decisões da Fifa costumam ser absurdas, como a decisão de duplicar o salário dos seus dirigentes máximos durante a Copa do Mundo (que não foi nem um pouco barata, é bom lembrar). A Fifa precisa de respeito. Mas precisa se dar ao respeito. Quer mais um exemplo?

Josip Simunic, da Croácia, foi suspenso por dez jogos. É uma punição grande. Mas pense que Simunic foi punido por ter feitos gestos nazistas com torcedores de extrema-direita – um gesto de intolerância e de incitação ao ódio num contexto político bem conturbado. Por esse gesto, Simunic ainda foi banido dos estádios e recebeu uma multa de 30 mil francos suíços, o equivalente a 75 mil reais. Suaréz, por sua vez, recebeu uma multa de 100 mil francos suíços, o que dá cerca de 250 mil reais. Sem querer relativizar a estupidez de Suárez, mas a lógica da Fifa é cristalina: uma mordida é mais grave do que uma incitação nazista ao ódio.

Josip Simunic foi suspenso por dez partidas (Foto: AP)

Josip Simunic foi suspenso por dez partidas (Foto: AP)

O risco do casuísmo

O futebol tem uma atitude antiga e ambígua quanto à violência e à intolerância. Eu tenho horror ao que Suarez fez, mas ele não tirou seus colegas de profissão do jogo – como Salgado e Taylor fizeram. É um problema complicado de resolver, mas é preciso começar a estabelecer regras mais claras, com graus de gravidade mais evidentes. Senão, vira casuísmo.

Não é fácil, é verdade. É uma tensão permanente entre punir e relativizar, dizendo que são situações de jogo. Futebol e complicado. Basta lembrar o que acontece com as torcidas organizadas no Brasil e com as punições aos clubes. Primeiro, a pena é alta. Depois, é relativizada. A mesma coisa acontece com dirigentes e jogadores. As balizas morais do futebol são movediças, mudam conforme a situação. E o código disciplinar da Fifa parece ter sido feito para dar margem a isso.

Ambíguo e vago, ele deixa a definição de muitas penas a critério do comitê. Ou seja, a critério do que a Fifa quer. Os itens do código que baniram Suaréz do estádio dizem apenas que alguém pode ser retirado do futebol, mas não define por quanto tempo nem por qual situação. A lei não é clara. E, quando a lei não é clara, só uma parte é beneficiada: quem tem o poder de aplicar a lei. Todos os outros envolvidos – seleções, clubes, atletas – ficam à mercê da vontade de quem pertence ao comitê. Leis claras, simples, coisa óbvia em qualquer país democrático ou instituição que se preze, passam longe da sede da Fifa, na Suíça. É como se o Código Penal fosse tão vago que o governo poderia definir, a qualquer momento, quem vai ou não vai para a cadeia. A Fifa é basicamente um país sem poder judiciário, no qual o presidente toma as decisões como bem entender.

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O caso Suaréz só mostra o quanto a entidade está perdida. A Fifa tem todo o direito de punir. Os jogadores, os clubes e as seleções deram esse poder a ela. O problema é que a Fifa partiu da absoluta leniência para o absoluto rigor. Uma punição pensada mais com a cabeça do que com o fígado poderia ajudar a Fifa ter mais legitimidade – e não só no comitê disciplinar. Afinal, ela não é governo. Ela ganha legitimidade a partir das suas ações, dos seus atos, e não da chancela da maioria das pessoas (e há uma grande discussão sobre o quanto grandes empresas e organizações precisam ser democráticas, mas isso e papo para outro texto). Assim como qualquer outra organização privada, ela constrói reputação e autoridade em ação.

Portanto, a questão não é de punição, mas de justiça. É de medida, da capacidade de a Fifa ter suas decisões avaliadas como justas e corretas. Enquanto a Fifa não tiver regras mais claras, assim como as que já têm para proteger seus parceiros comerciais, enquanto não for transparente e profissional na definição de quem faz parte dos seus comitês, enquanto não construir legitimidade com decisões razoáveis, suas decisões vão estar eternamente sob disputa intensa. Sua legitimidade vai sendo corroída, dia após dia.

Portanto, a punição foi a Suaréz – mas quem saiu chamuscada, mais uma vez, foi a Fifa. O uruguaio sai da Copa maior do que entrou – e por causa da entidade máxima do futebol. Transformar Suaréz em vitima e só mais um grande erro da entidade.

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