Para quem acompanha à distância, a despedida de Ariel Holan causou surpresa. O técnico responsável por levar o Independiente à reconquista de um título continental deixou o Estádio Libertadores de América apenas dias depois de sua consagração. A vitória sobre o Flamengo na decisão serviu para elevar a um novo patamar o ótimo trabalho do treinador, que iniciou sua carreira no hóquei sobre grama antes de chegar ao futebol. O estilo de jogo fluido, com muitas trocas de passes e mudanças de posições, além de progressões rápidas, mereceu o devido reconhecimento na Copa Sul-Americana. O que não queria dizer, entretanto, que a situação do comandante fosse realmente favorável no Rojo.

Nesta quarta, Holan divulgou uma carta de despedida à torcida do Independiente. “Paralelamente, situações indesejáveis se entrepuseram. Todas elas tomaram estado público e estão sob processo penal. Pela primeira vez na minha vida, a integridade física de minha família, de alguns de meus colaboradores e a minha própria estiveram em risco. Uma situação que não estou disposto nem a tolerar, nem a conviver e creio que nenhum trabalhador do futebol deveria aceitar. A essência do esporte é a paixão com respeito, não usá-lo como meio para delinquir. É por isso que quero descomprimir o clube de uma imagem que não faz bem: é inconcebível que o técnico e sua família tenham que se mobilizar com custódia policia por todos os lados, dia e noite. O Independiente não merece isso”, escreveu.

“Sempre afirmei que o Independiente está acima das pessoas, dos nomes próprios. Apesar do apoio da direção para renovar meu contrato, minha prioridade absoluta é minha família e sua tranquilidade. Isso não é negociável. É uma decisão muito difícil, que tomei racionalmente no seio familiar e é irrevogável. Meu amor pelo Independiente, que vocês conhecem, é genuíno e deixar este posto que tanto sonhei durante mais de 30 anos é a decisão mais difícil da minha vida. Mas devo fazer pelo bem de todos”, complementou.

A mensagem de Holan é muito clara e endereçada diretamente à barra brava do Independiente. Na imprensa argentina, diferentes veículos listaram os problemas que levaram à saída do treinador. Existiam algumas inimizades internas no clube, incluindo um racha com seu preparador físico, Alejandro Kohan. Além disso, mesmo respaldado pelo presidente, o treinador não teve apoio o suficiente para desdobrar um ambicioso projeto de longo prazo ao Rojo, que planejava repensar principalmente o modo de trabalho com as categorias de base. Ainda assim, o estopim foi o medo provocado pelos barras.

Contratado em dezembro de 2016, Holan lidou com diversas intimidações desde então. Logo no primeiro mês à frente do Independiente, recebeu a visita de “Bebote” Álvarez, líder da barra do clube e um dos personagens mais temidos do futebol argentino. Como já havia feito com outros técnicos do Rojo, Bebote tentou extorquir Holan, pedindo dinheiro para que o comandante tivesse apoio nas arquibancadas e também ameaçando-o. Ao contrário de seus antecessores, o treinador se recusou. Não pararia por aí.

Em maio, quando o Independiente estava no Peru para enfrentar o Alianza Lima pela Copa Sul-Americana, o “expediente” se repetiu. Bebote voltou a tentar extorquir o treinador, aumentando a ameaça. O consulado argentino na capital peruana precisou reforçar a proteção ao elenco. Já o episódio mais deplorável aconteceu em outubro, tornando o caso público. Quando saía do CT com seu auxiliar, Holan teve o automóvel parado por outro carro e várias motos. Então, Bebote entrou com um comparsa no veículo e o levou para um lugar afastado. Com o carro cercado por 15 capangas munidos de paus, Bebote gritou com Holan e o pressionou por cerca de 15 minutos, pedindo US$ 50 mil. Ainda assim, o técnico se manteve firme em negar. Bebote o deixou, mas prometeu que o assunto “seria resolvido” em Assunção, onde o Rojo enfrentaria o Nacional pela Sul-Americana.

Alvo também de ligações telefônicas ameaçando sua família, Holan finalmente levou o assunto às autoridades. Entrou em contato com a entidade que cuida da segurança no futebol argentino e esta encaminhou a questão à polícia. A partir de então, ocorreu com o treinador aquilo que ele descreve na carta: passou a andar escoltado por policiais, enquanto a justiça imputou Bebote por extorsão e privação ilegítima de liberdade. Ele entregou-se e permanece detido – assim como também foram presos um guarda-costas do presidente do Independiente e o vice de futebol, ambos ligados à barra. A influência do criminoso muito além das arquibancadas, todavia, não evitou os riscos a Holan e o técnico optou por não renovar o seu contrato.

Segundo o Olé, em meio às negociações por sua permanência, Holan pediu à diretoria do Independiente que combatesse o poder dos barra bravas. O presidente Hugo Moyano, envolvido com os organizados em sua estrutura, aparentemente não se moveu pela questão – em passividade ocorrida também depois das duas primeiras ameaças, denunciadas pelo técnico aos seus superiores. Apesar disso, Holan não atacou o cartola em sua carta de despedida. Por aquilo que se vê em Avellaneda, no entanto, não será um técnico (ou mesmo um presidente) que conseguirá desmantelar os desmandos de Bebote. Há uma relação promíscua que parte do futebol, mas não se restringe a este ambiente e transcende bastante no jogo de poder em Avellaneda. Pior ao Independiente, atravancado por uma máfia que infesta os seus bastidores. Holan, ao menos, possui uma promissora carreira a seguir e não deve demorar a encontrar um clube (muito provavelmente no exterior) que realmente valorize os seus serviços. Dois predicados não faltam: talento e coragem.