Um protesto feminino em 1983 terminou com 60 mulheres presas (Foto: AP)

Como a sociedade inglesa levou ao surgimento dos hooligans no futebol

Futebol e violência andam lado a lado desde que alguém começou a chutar uma bola tentando levá-la a uma meta. Na Idade Média, o bisavô da modalidade causava tanto tumulto que Eduardo II, rei da Inglaterra, proibiu sua prática há 700 anos. A paz não veio com os tempos mais modernos. Na década de 1880 se registraram casos de torcedores que intimidavama vizinhança, árbitros, torcedores adversários e os times. O estádio do Millwall foi fechado três vezes por distúrbios entre as décadas de 1920 e 50. Mas ainda não era um fenômeno tão disseminado a ponto de colocar a sociedade em risco. Isso veio só quando essa sociedade se fragilizou, e abriu espaço para a violência explodir.

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Por mais fácil que seja buscar soluções simplistas, como chamar os torcedores violentos de “bandidos” e “baderneiros”, o hooliganismo é mais um subproduto de um momento da sociedade europeia, sobretudo a inglesa. Era uma época em que o povo não se sentia mais atendido pelas autoridades, em que a economia não dava mais conta de sustentar a sociedade e uma geração crescia desencantada com suas perspectivas para o futuro. O resultado dessa mistura se viu em diversas áreas da vida britânica, e o esporte não ficaria fora desse processo.

As causas do hooliganismo são um assunto tão estudado quanto aritmética no Reino Unido. Richard Giulianotti, professor de sociologia da Universidade de Loughborough, reuniu algumas no livro “Sociologia do Futebol”, que vão desde o conflito de classes marxista até uma conclusão de que no começo os hooligans não eram tão violentos assim, mas foram transformando-se no personagem que a mídia criou para vender jornal e ganhar mais audiência.

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De qualquer forma, ninguém nega que as relações sociais, econômicas e políticas na Inglaterra mudaram bastante justamente nas décadas que abrangeram a formação das “firmas” de hooligans representando os clubes ingleses e os primeiros períodos de casos recorrentes de violência no futebol daquele país.

A década de 1960 foi uma completa revolução cultural e comportamental. Os exemplos mais conhecidos veem dos Estados Unidos, onde Martin Luther King liderou o movimento contra a segregação racial. Começaram a surgir grupos a favor do feminismo e dos direitos dos homossexuais. A música passou a ter um cunho mais político, com as letras provocativas de Bob Dylan e o festival de Woodstock, em Nova York. Isso também afetou o Reino Unido, que foi um dos países mais importantes desse movimento no âmbito musical. Os Beatles viraram celebridades internacionais e alavancaram outras bandas de rock britânico como os Rolling Stones e o The Who.

Ao redor do mundo, os anos 1960 foram uma inspiração para mudanças sociais, como o movimento dos direitos civis nos EUA, liderado por Martin Luther King (Foto: AP)

Ao redor do mundo, os anos 1960 foram uma inspiração para mudanças sociais, como o movimento dos direitos civis nos EUA, liderado por Martin Luther King (Foto: AP)

“A década de 1960 foi uma festa, e o hooliganismo é um pouco o final da festa”, diz o jornalista Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil. “A sociedade passou por várias mudanças. Aquele hábito de ir com o filho para o futebol foi quebrado. Gangues de jovens começaram a se formar. No final da década de 1960, já havia o hooliganismo dentro dos estádios.”

A economia da Inglaterra começou a fraquejar já nos anos 1960, no governo do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson. As fábricas da primeira nação industrial do mundo não eram mais tão competitivas. A crise agravou-se com o embargo de petróleo da OPEP, em 1973, porque a Inglaterra ainda era muito dependente do óleo estrangeiro. Ainda não havia descoberto as reservas de Aberdeen, na Escócia.

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Os sindicatos estavam em polvorosa, organizando protestos e greves em todos os cantos do país. Houve a Crise dos Bancos, entre 1973 e 1975, causada pela rápida desvalorização do preço de imóveis. O Banco da Inglaterra precisou salvar cerca de 30 instituições financeiras, e o governo ainda precisava pagar as contas do Estado de Bem-Estar Social. A taxa de desemprego que era de 1% em 1955 e de 1,3% dez anos depois subiu para quase 5% na metade da década de 1970. Mais de um milhão de pessoas sem um lugar para trabalhar.

Como resultado do conflito de gerações que os anos 1960 assistiram e a grave crise econômica pela qual os britânicos passaram com a decadência do Estado de Bem-Estar Social e a primeira grande crise do petróleo, criou-se um clima de insatisfação na população. E cada ser humano expressa sua revolta da sua maneira: nas urnas, na cultura ou simplesmente indo a jogos de futebol para socar o rosto de outras pessoas.

Na política
Margaret Thatcher, a Dama de Ferro, foi eleita em 1979 (Foto: AP)

Margaret Thatcher, a Dama de Ferro, foi eleita em 1979 (Foto: AP)

Houve uma alternância de poder entre os dois principais partidos britânicos nesse período, um sinal de que a população também estava apostando na tática da tentativa e erro. Wilson deu lugar para o conservador Edward Heath, que foi substituído pelo trabalhista James Callaghan depois de outro breve governo de Wilson.

Ninguém conseguiu dar jeito. A solução dos Trabalhistas para conter a inflação foi definir um teto de aumento de 5% no setor público nas negociações com os sindicatos. Houve várias greves e não deu muito resultado porque alguns sindicatos conseguiram acordos acima dessa taxa com os seus patrões. Tudo isso durante o inverno de 1978/79, o mais frio em 16 anos. Não à toa, a história ficou conhecida como “The Winter of Discontent” (O Inverno do Descontentamento), frase que abre a obra “Ricardo III”, de William Shakespeare.

Geralmente, o senso comum corre do meio-termo e busca o exato oposto do que está dando errado. Então, a população foi atrás de menos governo, menos impostos e mais liberdade na economia. Encontrou tudo isso em Margaret Thatcher, eleita em 1979. “Os candidatos do partido trabalhista estavam exauridos”, explica Anna Carolina Fagundes, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de East Anglia, em Norwich. “A imagem do Partido Trabalhista estava exaurida, com tantas greves, tantas crises diversas até no cotidiano. O metrô de Londres ficou quase sucateado. Começou a surgir um movimento conservador que culminou com a eleição da Thatcher e com a sua reeleição.”

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A eleição de Thatcher quase coincidiu com a descoberta das reservas de petróleo em Aberdeen, o que ajudou a manter os impostos baixos. Mas ela também cortou a verba de programas sociais e foi dura na repressão às greves. Privatizou empresas como a companhia aérea British Airways e a de telefonia British Telecom. Não foi muito querida pelo povo britânico no começo do seu governo e só conseguiu virar a mesa com a Guerra das Malvinas, em 1982. “Ajudou a dar uma levantada no moral britânico, mesmo que fosse para salvar uma ilha no meio do Oceano Atlântico que ninguém sabia que existia”, diz Anna Carolina.

As medidas agradaram a classe média que, afinal de contas, sempre foi o seu público alvo. Com a repressão às greves, o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social e a dura negociação com os sindicatos, manteve-se muito pouco popular com operários e trabalhadores. E naquela época, o futebol ainda era prioritariamente frequentado por operários e trabalhadores.

Na cultura

“Laranja Mecânica”, do diretor americano Stanley Kubrick, é uma adaptação de um livro escrito por Anthony Burgess, em 1962. O filme conta a história de um bando de jovens cuja diversão é percorrer a Inglaterra invadindo casas, estuprando mulheres e agredindo outras pessoas. O líder do grupo Alex DeLarge (sim, um trocadilho com Alexandre, o Grande) acaba preso e passa por uma lavagem cerebral: sente-se doente toda vez que tem desejos violentos ou sexuais.

Kubrick captou de forma tão perfeita a violência latente no povo inglês que a obra foi retirada de circulação a pedido do próprio diretor, depois de estrear em dezembro de 1971, por causa de uma série de crimes assustadoramente parecidos com cenas da trama do personagem vivido por Malcom McDowell, nomeado ao Globo de Ouro pela sua atuação. “Foi a primeira cultura industrial do mundo, o primeiro lugar onde forças braçais foram muito importantes”, explica Tim Vickery. “Criou-se, então, uma cultura de classes urbanas já um pouco violentas e também com muita bebida alcoólica.”

Em 1973, o Pink Floyd lançou o disco Dark Side of The Moon, que dialoga muito bem com as angústias do cidadão urbano nessa sociedade moderna: a falta de tempo, o excesso de importância do dinheiro, o desespero, a solidão e, eventualmente, a loucura. O álbum Animals (1977) foi inspirado no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, uma crítica à União Soviética, mas certamente uma obra de protesto. O principal single de The Wall, “Another Brick In The Wall” faz uma crítica ao sistema educacional britânico: não precisamos de educação, não precisamos de controle cerebral.

“Out of the way, it’s a busy day, I’ve got things on my mind. For the want of the price, of tea and a slice, the old man died”, trecho de “Us and Them”, de Dark Side of The Moon.

Mas nada expressou melhor a insatisfação geral do Reino Unido naquela época do que o movimento punk. Os jovens não se sentiam representados pela música que estava sendo feita e estavam irritados com o clubinho privado que eram as gravadoras. “Foi um receptáculo para essa energia e frustração”, conta o músico britânico Daniel Hunt, de 39 anos, da banda Ladytron. “Na indústria musical, as mesmas pessoas decidiam o que ouvíamos há 20 anos. Definitivamente, na Inglaterra, houve a impressão de que o combustível para o punk foram os impactos sociais e que ele captou essa atmosfera.”

As duas bandas mais representativas desse estilo musical foram o The Clash e os Sex Pistols, que compôs músicas como “God Save The Queen”, uma canção muito ofensiva à monarquia, lançada justamente no jubileu da Rainha Elizabeth. “Colocar um alfinete na boca da Rainha da Inglaterra na época do Jubileu foi muito pesado na época. Foi um escândalo tremendo”, afirma Anna Carolina Fagundes. “Os punks criaram uma cultura para eles próprios. É uma ideia que nega o classismo inglês: os lordes, a classe média e os trabalhadores. Não tem nenhuma possibilidade de crescer na escala de poder. Os punks também são uma relação à falta de perspectiva e de acesso.”

God Save The Queen, dos Sex Pistols, foi muito ofensiva à Rainha Elizabeth

God Save The Queen, dos Sex Pistols, foi muito ofensiva à Rainha Elizabeth

A letra de “God Save The Queen” chama esse regime monarquista de “fascista que te transformou em idiota” e diz que a Rainha “não é um ser humano”. Ela termina com a repetição do termo “sem futuro para mim e para você”. Embora tenha sido boicotada pela BBC, por exemplo, chegou ao segundo lugar das paradas. Parecida com outras letras do Sex Pistols, como “Anarchy In The UK”, é rebeldia pura. “Sex Pistols representa o medo do futuro”, analisa Hunt. “Sobre o que vai acontecer depois. Todas as gerações estavam aterrorizadas por isso. Eles não ofereciam nada politicamente, nenhuma solução. Os Sex Pistols eram meio babacas, você não quer que eles falem de política, seria terrível. O Clash era muito mais engajado”.

Hunt era muito jovem nos anos 1970, mas sabe pelo relato de amigos do frenesi pelo qual Liverpool passou quando o Clash tocou na cidade. “Todos daquela geração falam de quando o Clash veio para a cidade. Foi quando todos pensaram que poderiam fazer alguma coisa. Aquele foi o momento em que eles sentiram o poder. Olhando para trás, penso que eles foram mais importantes”, avalia.

Para Hunt, porém, a música que melhor conta a história daquela época foi lançada já no cenário do pós-punk, em 1981, pela banda The Specials, de Coventry. Ela se chama Ghost Town e não poderia ter uma letra mais objetiva:

“Por que a juventude precisa brigar entre ela?
O governo está deixando a juventude na prateleira.
Esta cidade está virando uma cidade fantasma.
Não há empregos neste país.
Isso não pode continuar.
As pessoas estão ficando bravas.”

No futebol

Foi apenas na década de 1990 que o público do futebol inglês ficou mais elitizado. Antes disso, era prioritariamente composto por operários e trabalhadores. Como em toda crise, as classes mais baixas na pirâmide social acabaram sendo as mais afetadas pelos problemas pelos quais a Inglaterra passava. “O cara está desempregado, sem perspectiva de vida, sem perspectiva de conseguir dinheiro. O único lazer dele é assistir ao jogo de futebol”, conta Anna Carolina. “O futebol sempre ensina que muitas pessoas juntas altera o comportatamento das pessoas. Pode ser uma ameaça à segurança”, acrescenta Tim Vickery.

As brigas eram muito territoriais e geralmente apenas entre as gangues. O grande barato da história era entrar no estádio do rival e expulsar a firma adversária do local onde ela costumava assistir à partida. Nessa época, o que acontecia em campo ainda tinha um pouco de influência na reação das arquibancadas, como escreve Richard Giulianotti, em “Sociologia do Futebol”.

“Torcedores jovens procuravam ganhar prestígio para o seu grupo de hooligan, ‘ocupando’ a arquibancada atrás do gol que ‘pertencia’ a seus rivais. Invasões de gramado também ocorriam, particularmente quando seu time estava perdendo. As autoridades policiais e do futebol introduziram cercas, ‘enjaulando’ os torcedores nas arquibancadas atrás do gol e segregando os torcedores da casa e os visitantes em diferentes partes do campo (Hall, 1978; Armstrong e Giulianotti, 1995, 1998b). Essas medidas modernistas ‘toscas’ inadvertidamente serviram para intensificar o hooliganismo no futebol. Aos poucos, a violência foi deslocada do campo, acentuando os diferentes sentidos de identidade dos grupos de hooligans e sua diferenciação formal do conjunto geral de torcedores.”

A polícia britânica não fazia a menor ideia de como lidar com isso, até porque, naquela época, carregava um grande preconceito classista. “A polícia britânica nos anos 1970 e 1980 era extremamente violenta, racista e classista. Se você fosse da classe trabalhadora, com certeza seria parado, revistado, interrogado. Muita coisa mudou desde aquela época, mas ainda há um traço mais classista e racista”, analisa Anna Carolina. “Além de ter a briga entre os torcedores, havia uma polícia extremamente violenta atacando. Acaba ficando os torcedores brigando entre eles e os torcedores brigando com a polícia.”

Liverpool faz memorial de 20 anos de Hillsborough

E embora o futebol estivesse sendo usado para as pessoas liberarem a frustração, não havia exatamente um cunho político nesse movimento. Pelo menos a princípio, segundo o jornalista americano Franklin Foer, no livro “Como o futebol explica o mundo”, os hooligans eram apolíticos. “Tudo era motivo para uma boa risada, só por diversão”, escreveu. Foi a partir dos anos 1970 que eles abraçaram o radicalismo político e se aproximaram de movimentos nacionalistas e fascistas. “Como praticantes do ódio e da violência, não era verossímil que os hooligans se juntassem ao bando da paz e amor. Foram na direção oposta, tornando-se a vanguarda do movimento nacionalista protofascista britânico. E examente quando o movimento jovem enveredou pela irracionalidade, pelo niilismo e pelo punk”, continuou.

O problema só passou a atrair atenção nacional em 1975, quando Chelsea e Tottenham enfrentaram-se em uma partida crucial contra o rebaixamento. O time do norte da cidade ocupava o 20° lugar, posição que o faria disputar a segunda divisão na temporada seguinte. Seus rivais do oeste estavam uma posição à frente, com um ponto a mais. A partida era importante, e os Spurs venceram por 2 a 0, mas o que chamou a atenção foi a atuação das torcidas antes do apito inicial. Os fãs dos dois times transformaram o gramado de White Hart Lane no palco do seu Clube da Luta particular.

Naquele mesmo ano, o Leeds United foi banido de competições europeias por cinco anos depois que a violência dos seus torcedores tomou as arquibancadas do Estádio Parque dos Príncipes e das ruas de Paris depois da derrota para o Bayern de Munique no final da Copa dos Campeões. Dois anos depois, foi a vez de o Manchester United ser punido pelo mesmo motivo.

O auge do fenômeno e a punição mais dura aconteceu em 29 de maio de 1985, quando a inconsequência dos torcedores do Liverpool em Bruxelas causou a morte de 39 pessoas, a maioria fãs da Juventus, na final do campeonato europeu de clubes. A tragédia na Bélgica pode ser considerada o prefácio do livro que conta a história de Hillsborough, quatro anos depois.

Ela causou a suspensão de cinco anos para todos clubes ingleses de competições europeias e de seis para o Liverpool. O governo inglês passou a aplicar punições mais severas aos briguentos e orientou a polícia a tratar ainda pior aqueles grupos de pessoas violentas, carentes, seja por falta de dinheiro ou de carinho, felizes por fazerem parte de algo maior que eles próprios, orgulhosos de defenderem os companheiros dos socos e pontapés da gangue inimiga. Parecia a gota d’água, mas algo pior ainda estava por vir.