São praticamente 22 meses sem jogar. Desde dezembro de 2015, Santi Cazorla disputou apenas 12 partidas pela equipe principal do Arsenal. A última vez que entrou em campo foi em outubro de 2016. E a sua luta diária desde então não se limita a retomar a carreira profissional. As seguidas lesões colocaram em risco até mesmo a possibilidade do meio-campista caminhar normalmente. Nesta sexta, o jornal Marca publicou uma grande entrevista com o espanhol. Detalhou as dificuldades em sua recuperação e o esforço de Cazorla para estar 100% fisicamente. “Um calvário”, como bem define a capa do periódico, trazendo uma foto do pé direito do jogador – que, após oito operações e uma infecção, precisou ser reconstruído com um pedaço de pele retirado de seu antebraço.

A primeira lesão de Cazorla em seu pé direito aconteceu em setembro de 2013, durante em amistoso pela seleção espanhola, quando sofreu uma fissura no osso. As dores se tornaram comuns e ele jogava na base de infiltrações, lidando com as dores. “Durante o primeiro tempo, eu aguentava um pouco melhor, se entrava calor no lugar eu podia jogar. Mas no intervalo, quando eu esfriava um pouco, as lágrimas saíam”, declarou ao Marca. A primeira grande pausa veio em dezembro de 2015, quando rompeu o ligamento externo do joelho direito. De qualquer forma, o problema no tornozelo persistia. Um dos médicos na Inglaterra afirmou que, “se você voltar a andar no jardim com seu filho, pode se dar por satisfeito”.

Um ano depois da cirurgia no joelho, já em dezembro de 2016, Cazorla operou o tendão na zona plantar do pé direito. Depois de retirar os pontos, a ferida continuava se abrindo e ele passaria pelo centro médico mais oito vezes para tratar o problema. Era possível ver o próprio tendão através do corte profundo, com uma enorme gangrena. “Diziam que estava bem. O problema é que as feridas não cicatrizavam e voltavam a se abrir, causando infecção”, afirma. Até o momento em que resolveu interromper o tratamento na Inglaterra, em maio, e ir à Espanha, se consultar com um médico local. Foi quando o doutor Mikel Sánchez percebeu a gravidade da infecção, que danificou o osso do calcanhar do veterano e, segundo suas palavras, “comeu” oito centímetros de seu tendão de Aquiles. A batalha, mais do que nunca, era para voltar a uma vida normal.

Então, Cazorla precisou passar por um tratamento à base de antibióticos, para combater as bactérias que causavam a infecção. Havia até mesmo o risco de uma amputação. O tratamento, no entanto, deu resultados. Ainda em maio, o meio-campista passou pela última reconstrução do tendão, se empenhando na recuperação durante os meses seguintes. A tatuagem com o nome de sua filha, no braço esquerdo, se transformou em parte da cicatriz no tornozelo direito. “Agora eu não sei como consertar a tatuagem no braço. Talvez eu deixe assim, tem mais significado do que nunca”, afirmou.

Em setembro, Cazorla voltou a correr, em cena que levou seu irmão às lágrimas. Atualmente, é um edema ósseo que se torna entrave ao retorno. Todavia, segundo o Marca, o meio-campista não perde o sorriso e sua esperança de voltar a jogar. Seu contrato com o Arsenal vai até junho de 2018, sob as expectativas de que ele possa se provar novamente na metade final da temporada. O veterano completará 33 anos em dezembro, mirando retomar a rotina com os Gunners em janeiro.

Nos últimos meses, Cazorla mora na cidade espanhola de Salamanca, onde se trata com Juan Carlos Herranz, fisioterapeuta da seleção espanhola. Vive sozinho, enquanto sua família permanece em Londres, por causa da escola de seus filhos.”Estar aqui sem eles é o mais duro. Agora me dou conta de quem é quem. Quase todos os dias, recebo uma mensagem de Iniesta, Silva, Villa…”, relata. “É como um alívio falar sobre isso, depois de tudo o que passei. Não foi uma simples lesão, como as pessoas acreditavam. Ninguém confiava em mim, mas eu sim, sigo fazendo, embora a dor me mantenha cauteloso”.

Diante da capa do jornal, nesta sexta, Arsène Wenger falou sobre seu comandado: “Estou em contato com Santi ao longo de sua reabilitação. Isso foi extremamente duro para ele. Se há um cara que ama o futebol apaixonadamente, que ama estar em campo e chega com um sorriso no rosto todos os dias, este é Santi. Então, vocês sabem que ele sofre muito por não estar com a bola em seus pés. Ele é extremamente forte e corajoso. Por trás do seu sorriso há uma força que vocês não imaginam. Ele tem um caráter muito forte, e todos no Arsenal desejam que ele esteja bem. Nós esperamos tê-lo de volta em breve”.

A motivação de Cazorla está na sua própria mente. Na mentalidade de quem soma 77 partidas pela seleção espanhola, conquistou duas Euros, disputou uma Copa. De quem foi ídolo do Villarreal e do Málaga, antes de se tornar uma referência técnica do Arsenal. De quem ainda quer se provar no mais alto nível, apesar de toda a desesperança e o desespero que o rondaram nos últimos anos. O tornozelo do meio-campista traz uma cicatriz impressionante. Que, em dezembro, pode se transformar na marca de sua enorme vitória.