Abderrahim teve a última chance de jogar futebol com seu irmão, Abdelhak Nouri, poucas semanas antes de suas vidas mudarem completamente. Batiam bola na periferia de Amsterdã, ao lado de outros 20 garotos. Appie, como era conhecido a promessa do Ajax, insistiu para que dois rapazes em especial fossem incluídos na pelada, mesmo nunca tendo os visto antes. Um deles tinha uma prótese na perna. O outro, hidrocefalia. Mais do que jogarem, ambos escolheram os times para o baba. “Ele sabia que isso significava muito para pessoas deficientes. Que um jogador do Ajax estava se oferecendo não apenas para jogar com eles, mas também com os outros rapazes”, explica Abderrahim. E ele não estava querendo se promover com isso. Era algo genuíno do jovem meio-campista. Ele estava mais interessado em construir uma comunidade do que uma marca, fazer a diferença na região onde cresceu.

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É difícil encontrar um relato sobre Appie que não seja positivo. Ele se colocava como o exemplo na escola onde estudou. O amigo nas categorias de base do Ajax. O mais querido no bairro onde morava. Não se negava a ajudar, seja com tempo ou dinheiro. Tentava afastar os jovens do crime, resolvia brigas, comprava mantimentos para as pessoas, pagava médicos e visitava famílias carentes. Aos 20 anos, era uma referência na comunidade de Geuzenveld. E uma das maiores esperanças da torcida do Ajax, por tudo aquilo que exibia em campo. Meio-campista de rara qualidade, pronto para eclodir. Mas que, num rompante, ficou limitado à cama de um hospital.

Já são três meses e meio que Abdelhak Nouri está no mesmo leito. Após sofrer um ataque cardíaco durante um amistosos de pré-temporada pelo Ajax, o jovem ficou com sequelas permanentes pela falta de oxigênio em seu cérebro. Não pode desempenhar ações básicas, como falar ou reconhecer as pessoas. Ainda assim, seus familiares permanecem ao seu lado 24 horas por dia, sete dias na semana. Agarram-se ao fio de esperança imaginando que a cura ainda é possível, por mais que os médicos desencorajem. Enquanto isso, as homenagens se repetiram nas arquibancadas da Amsterdam Arena ou na vizinhança de Geuzenveld.

Nesta sexta, o Guardian publicou uma reportagem belíssima e completa sobre o que aconteceu com Nouri desde o colapso. Ela pode ser lida, em inglês, neste link. Abaixo, traduzimos as falas de alguns dos principais personagens da matéria. O principal é Abderrahim, irmão de Appie e o porta-voz da família nos últimos meses. Ele discorre sobre como tem sido a vida deles e a luta para que se descubra o que ocorreu, para que se ache um tratamento eficaz. Apesar da dor, os Nouri ainda planejam criar uma fundação com o nome de Abdelhak para ajudar pessoas doentes e deficientes. “Ele tinha um carinho por essas pessoas”, explica Abderrahim. Mais importante, entretanto, são os retratos da personalidade de Appie presentes em cada aspa. Demonstram como, independentemente de todo talento, a perda do ser humano é infinitamente maior.

A relação com a tragédia

“Ficar com raiva não ajuda. Ficar triste não ajuda. Chorar o dia inteiro não ajuda. Pensar positivo ajuda. Orar por ele ajuda. Quando eu estou ao lado de sua cama, conversando com ele, dizendo boas coisas a ele, esse tipo de coisa ajuda. ‘Por que ele? Ele era tão jovem’: isso não passa nas nossas mentes. O único é que sentimos saudades dele. E essa parte continua difícil para nós”.

A memória do irmão

“Ontem, alguém trouxe um pôster do meu irmão com seu uniforme, em um jogo contra o Feyenoord. Mesmo esta foto é difícil de ver. Se eu assisto aos vídeos de Abdelhak jogando, vejo só os primeiros 10 ou 15 segundos. Então, não posso olhar mais, é muito difícil. Prefiro me lembrar do meu irmão correndo com crianças quase duas vezes mais velhas que ele, mesmo sendo tão pequeno que a bola chegava na altura de seus joelhos, mas com dribles inacreditáveis. Ele jogava tanto que meus pais tinham que implorar para ele voltar para casa. Mesmo assim, ia dormir de chuteiras”.

A ascensão nas categorias de base

“Ele podia fazer partidas maravilhosas pelo Jong Ajax, a torcida ia à loucura e eu também. As coisas que ele fazia em campo eram impossíveis e, depois disso, eu costumava perguntar: ‘Como você fez isso’. Mas ele dizia, timidamente: ‘Eu posso jogar melhor ainda'”.

A vigília em apoio

“Milhares e milhares de pessoas vieram a nossa casa. As pessoas vinham da China, de Cingapura, do Marrocos, de todo o mundo. As pessoas podiam pegar um avião para vir por apenas 10 ou 15 minutos, e então deixar o país novamente. Isso foi fantástico. E é isso que nossa religião nos ensina: quando Deus ama uma pessoa, você vê isso em todas as pessoas na Terra, não apenas em outros muçulmanos. Não importa religião, cor da pele… Você via torcedores do Feyenoord, o clube que odeia o Ajax, mas mesmo eles estavam na nossa casa, vestindo camisas do Feyenoord com o nome de Appie nas costas. É o que me faz feliz – ele é amado por Deus”.

A reação ao receber o diagnóstico

“A médica falou: ‘Abdelhak tem um dano cerebral muito grande. Ele não pode falar, andar, reconhecer as pessoas…’. Meu pai quase desmaiou, minha mãe não acreditava e estava chorando, meu irmão se deitou no chão. Imediatamente eu falei: ‘Obrigado por sua ajuda, sem ela meu irmão não estaria na condição que está agora. Mas nós acreditamos em um poder maior, nós acreditamos que ele pode ser curado”.

A recuperação

“Ele estava dando bons passos no início da reabilitação. Quando nós pedíamos a ele para fazer algo, ele conseguia, muito vagarosamente. Algumas vezes não podia, porque ele estava muito cansado. Mas então, porque ele é um atleta e estava deitado por muito tempo, seus músculos foram ficando fracos e outros problemas passaram acontecer, isso começou a impedi-lo. Penso que isso é normal quando algo como um ataque cardíaco acontece. Você dá bons passos e depois regride. Mas eu penso que nós agora estamos em uma boa posição, estamos indo em frente de novo”.

A procura por uma segunda opinião

“Os médicos falam que foi um ataque cardíaco. Mas a razão do ataque cardíaco a gente ainda não sabe. Então eu não sei o que aconteceu e por que aconteceu. Eles estão ocupados procurando as explicações”.

Outras visões sobre Nouri

Win Jonk, técnico de Appie na base

“Ele era um jogador incrível. Se você viu um jogo do Ajax, todos estavam falando de Appie, porque sua habilidade era tão diferente de todos os outros. Ele era muito criativo, mas também entretinha os torcedores e isso era o que as pessoas gostavam. Para ele, era da natureza agir assim, porque ele estava jogando como fazia nas ruas”.

Heini Otto, funcionário do Ajax

“Como jogador, você via muitos gols incríveis e assistências, que empolgavam as pessoas, mas a coisa que mais me marcou é o seu vlog, porque isso mostrava a pessoa que era Appie. Você via quando ele chegava em casa depois de um jogo, muitos de seus amigos estavam comemorando o resultado. Então, ele pedia silêncio aos garotos à sua volta: ‘Xiu, façam menos barulho por causa dos vizinhos’. Esse era Appie, sempre pensando em todo mundo”.

Jolanda Hogewind, diretora da escola onde Nouri estudou

“Ele era o modelo para os nossos alunos desde antes do acidente, não apenas agora. Se você perguntava a Abdelhak algo sobre futebol, ele podia te dizer, logicamente, mas ele queria falar sobre todos os assuntos. Por exemplo, havia uma professora que era sua mentora e, no intervalo, ele queria conversar com ela sobre religião. Eu vejo muitos jogadores do Ajax aqui e eles estão frequentemente perto de serem contratados. Algumas vezes é muito difícil se conectar com eles, porque tudo o que importa é o futebol e o ‘eu sou o bonzão’. Mas Abdelhak nunca foi assim. Não havia arrogância, não era algo dele. Ele estava interessado em você, na sua história”.