Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

Desde que a segunda fase da Libertadores voltou a se realizar em mata-matas, a partir do fim dos anos 80, e não mais em triangulares que valiam como semifinais, o Jorge Wilstermann (semifinalista uma vez, no triangular de 1981) jamais havia ido tão longe. Uma campanha que poderia orgulhar a torcida de um país pouco afeito a conquistas no futebol, porém, levará a mancha dos 8 a 0. Algo parecido sofreu a torcida do Remo, ainda que hoje realmente prevaleça orgulho pelo sétimo lugar geral no Brasileirão de 1993. Acaba sendo menos lembrado que um 8 a 2 para o Guarani (com direito a pênalti desperdiçado pelos bugrinos), no penúltimo compromisso do time, manchou bastante a campanha na época e foi praticamente a amarga despedida do futuro ídolo santista Giovanni pelo manto azulino.

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O ano de 1993 marcou a volta do Leão à primeira divisão do Campeonato Brasileiro, classificado na esteira da virada de mesa feita em prol do Grêmio na segundona de 1992, a promover o acesso de 12 clubes. Em festa, o clube, treinado por Givanildo Oliveira, venceu o estadual daquele ano, com direito a artilharia de Cacaio, goleador da campanha campeã da segundona nacional de 1991 pelo arquirrival Paysandu, de onde veio também o goleiro Luís Carlos (trocado pelo veterano Paulo Vítor, reserva da Copa de 1986). A conquista foi invicta, mas o time buscou se reforçar bastante para o Brasileirão, mesmo com um elenco que já contava com o ex-corintiano Biro-Biro.

Para a Série A, o time trouxe outros jogadores conhecidos nacionalmente: o ex-vascaíno Mauricinho e o lateral Edson Boaro, reserva de Josimar na Copa de 1986, além de quatro atletas emprestados da Tuna Luso. Campeões da terceira divisão nacional no ano anterior, os cruzmaltinos tinham um azeitado ataque formado pela dupla Giovanni e Ageu “Sabiá” – um atacante goleador e veloz, de saliente barriguinha que contrastava com as finas pernas, rendendo aí o apelido. Ele era mais ou menos uma versão paraense, noventista e menos renomada, de Walter. No Estadual de 1992, enquanto Giovanni havia feito 17 gols, Ageu anotou 18.

O inconfundível Biro-Biro contra a finalista Vitória e Giovanni no 5 a 2 sobre a Portuguesa: “pior exibição pelo Remo”

O inconfundível Biro-Biro contra o finalista Vitória e Giovanni no 5 a 2 sobre a Portuguesa: “pior exibição pelo Remo”

O elenco azulino ainda tinha o atacante Alex, posteriormente transformado em Alex Dias, que ganharia relativo destaque nacional no início dos anos 2000. Já os principais ídolos que se limitaram ao Baenão foram o zagueiro Belterra e o volante Agnaldo, o “Seu Boneco”, figurinhas carimbadas naquela década deliciosa para o clube.

Na era pré-pontos corridos, era comum o Brasileirão ser dividido em grupos. Mas o de 1993 não se preocupou em balanceá-los. Dezesseis equipes, das mais expressivas historicamente ou nos tempos recentes, foram todas reunidas em dois grupos da morte, com Corinthians, São Paulo, Flamengo, Cruzeiro, Internacional, Bragantino, Bahia e Botafogo no A; e Palmeiras, Santos, Guarani, Grêmio, Vasco, Sport, Fluminense e Atlético Mineiro no B. Como eram os grupos “fortes”, os três primeiros avançavam a um dos quadrangulares-semifinal e não havia rebaixamento.

O Grupo C era virtualmente um Norte-Nordeste acrescido do Goiás, agrupado com Vitória, Remo, Paysandu, Náutico, Ceará, Santa Cruz e Fortaleza. O Grupo D reunia o restante dos clubes do Sul-Sudeste: Portuguesa, Paraná, União São João, Criciúma, América Mineiro, Coritiba, Atlético Paranaense e Desportiva. Nestes, a regra era outra: os quatro últimos de cada eram rebaixados e somente os dois primeiros de ambos permaneciam na disputa, mas não ainda para os quadrangulares-semifinal. Para chegar lá, fariam mata-matas entre si.

Já sem Givanildo, substituído por Roberto Brida, o Remo estreou com três vitórias seguidas por 2 a 1, no clássico Re-Pa, sobre o Náutico e, fora de casa, sobre o Goiás. Depois, perdeu pelo mesmo placar para o Vitória (futuro finalista, com Dida, Alex Alves, Vampeta e outros) em Salvador, antes de um duro 5 a 1 sofrido para o Santa Cruz do veterano Cláudio Adão, autor de dois gols. Então, distribuiu oito gols nos cearenses, com um 2 a 0 no Ceará e 6 a 0 no Fortaleza para fechar um ótimo primeiro turno.

Mauricinho e Dener, figuras de cada time no polêmico embate entre Remo e Portuguesa

Mauricinho e Dener, figuras de cada time no polêmico embate entre Remo e Portuguesa

O returno começou com empate contra o Paysandu em 1 a 1, no último Re-Pa na elite nacional (ambos estariam na primeira divisão em 1994, a última a contar com os azulinos, mas, em grupos diferentes, não se enfrentaram) e derrotas de 1 a 0 para o Náutico e de 2 a 1 para o Fortaleza. Os três jogos sem vitória custaram o cargo de Roberto Brida, substituído por João Francisco. Vieram então três vitórias nos quatro jogos finais: 2 a 0 sobre o Vitória, 4 a 0 sobre o Goiás, 2 a 1 para o Ceará e 3 a 1 sobre o Santa Cruz.

Essa vitória sobre o Santa Cruz, com todos os três gols marcados por Mauricinho, classificou o Remo no lugar do arquirrival Paysandu, derrotado por 5 a 2 pelo Vitória na mesma rodada. A dupla paraense terminou com os mesmos 17 pontos, três abaixo do rubro-negro baiano. No entanto, o Leão venceu mais vezes, tinha melhor saldo e mais gols marcados. Ageu, com oito tentos, era àquela altura o vice-artilheiro do campeonato (empatado com Guga, do Santos), atrás apenas dos 12 gols de uma revelação do Cruzeiro chamada Ronaldo.

No mata-mata contra o líder do Grupo D, o Remo protagonizou seu mais emocionante momento naquele campeonato – e emocionante em diferentes sentidos. Recebendo a Portuguesa no Baenão, abriu dois gols de vantagem nos primeiros dez minutos, com Mauricinho e Ageu, que assinalou o 3 a 0 aos 40. No finalzinho, Paulinho Kobayashi descontou e Dener, já aos 12 do segundo tempo, encostou: 3 a 2. Mas nos vinte minutos finais, Guilherme (outro emprestado pela Tuna) e Tarcísio alongaram o placar para 5 a 2. Mauricinho foi descrito como o melhor em campo, participando da jogada de três gols, além de anotar o seu.

Só que a Lusa assustou no jogo da volta, conseguindo um perigoso 2 a 0, em partida até hoje enaltecida pelos remistas como momento de superação contra um suposto favorecimento aos rubro-verdes – incluindo um gol anulado de Agnaldo, a expulsão de Edson Boaro, 11 minutos de acréscimo e a denúncia de óleo jogado no chão do vestiário visitante. O Remo estava na semifinal, em quadrangular duríssimo com Palmeiras e São Paulo, os dois melhores times brasileiros do momento, além do Guarani.

Figuras locais que acabaram bem mais idolatradas que os medalhões conhecidos no Brasil: o zagueiro Belterra e o bigodudo volante Agnaldo. À direita, a pouco conhecida passagem de Giovanni pelos três grandes paraenses

Figuras locais que acabaram bem mais idolatradas que os medalhões conhecidos no Brasil: o zagueiro Belterra e o bigodudo volante Agnaldo. À direita, a pouco conhecida passagem de Giovanni pelos três grandes paraenses

O máximo que os paraenses conseguiram foi um empate em 1 a 1 com o Bugre na primeira rodada do quadrangular. Era de se esperar que o conto de Fadas terminasse, mas a honra se mantinha intacta com resultados apertados contra a dupla favorita: 2 a 0 para o São Paulo no Morumbi e, no Baenão, 2 a 1 para o Palmeiras e 1 a 0 para os tricolores. Só o líder avançaria, já para a final. Imperdoável foi a penúltima rodada, em Campinas. O Bugre ainda perambulava pela segundona em 1991 (fora o vice do Paysandu). Seu elenco já tinha Djalminha sim, mas ainda visto como refugo recém-chegado do Flamengo. Ele deslancharia em 1994, com Amoroso e Luizão, que estavam emprestados a outros clubes em 1993 – Amoroso no Japão, Luizão no Paraná.

Clóvis Cruz abriu o placar aos 14 e Giovanni empatou aos 15. O equilíbrio terminou aí. Entre os 23 e os 41 minutos, os campineiros fizeram 5 a 1, ampliados para 6 a 1 logo no primeiro minuto do segundo tempo. Guilherme ainda diminuiu para 6 a 2 no terceiro minuto, mas já aos 23 o placar estava fechado em 8 a 2, com Tiba marcando pela terceira vez. A diretoria resolveria arrumar um novo goleiro para o ano seguinte, um certo Clemer.

Ageu, descontente com o declínio, pediu desligamento após o 8 a 2 e a diretoria azulina não se interessou em mantê-lo. O valor pedido pela Tuna para a venda definitiva, entre 150 mil e 200 mil dólares, que incluía no pacote todos os emprestados, também não seduziu os cartolas do Remo, que aceitavam no máximo metade. O título nacional tunante no ano anterior já era algo distante: o departamento de futebol cruzmaltino estava a um triz de ser fechado na época. O clube então acertou um empréstimo de seus jogadores ao Paysandu para torneios de pré-temporada em 1994. Só o tempo reconciliaria Ageu com os remistas, somando oito gols e dez vitórias em 17 Re-Pa’s pelo Leão.

Já Giovanni terminou não agradando as duas grandes torcidas do Pará, mesmo com início até promissor no Remo. Foram três gols em seus três primeiros jogos – dentre eles, o do Remo naquele último Re-Pa da elite, em cabeceio quase na linha do gol para abrir o placar posteriormente encerrado em 1 a 1. A foto que abre a matéria mostra ele nessa partida, inclusive. Entretanto, logo começou a aparentar apatia demais.

O jornal O Liberal, em pleno 5 a 2 sobre a Portuguesa, avaliou que o meia “não jogou”. “Esteve lento demais e ainda perdeu um gol feito. A sua pior apresentação pelo Remo”. Já depois da derrota em casa para o Palmeiras, apontou: “Muito lento e sem qualquer espírito de luta, foi um jogador neutro em campo”. No empate em 1 a 1 contra o Guarani, o relato assinalou que “mais uma vez um fiasco, ficou perdido em campo durante todo o primeiro tempo”. E na tumultuada derrota de 2 a 0 para a Portuguesa, foram ainda mais duros: “Tudo indica que tremeu em campo. No segundo tempo, tentou algumas jogadas de efeito, mas perdia imediatamente a bola”.

Após o 8 a 2, Giovanni ainda jogou mais uma vez pelo Leão, na rodada final, em empate por 0 a 0 com o já classificado Palmeiras. Como breve jogador do Paysandu, a rotina não mudou: “ainda não conseguiu reeditar as atuações que o consagraram na Tuna” e “mais uma partida sem conseguir desempenhar um bom papel” foram as avaliações feitas pelo Diário do Pará nos dois Re-Pa’s em que defendeu o Papão, com derrotas por 1 a 0 e 4 a 3 pelo Torneio Pará-Ceará, em janeiro de 1994. Depois, Giovanni foi emprestado ao Sãocarlense, da segunda divisão paulista, e de lá para o Santos, onde agradou no segundo semestre de 1994 e terminou comprado em definitivo em 1995. O resto é a história de quem, três anos após ser vaiado no Baenão e na Curuzu, começaria surrealmente (para os paraenses) a ser aplaudido no Camp Nou…

Um contraponto à imagem que abre a matéria. Giovanni soube jogar melhor as rivalidades espanholas do que as paraenses: foram cinco gols no Real Madrid, três gols no Atlético e três no Espanyol entre todas as competições nacionais, ao longo de três temporadas no Camp Nou

Um contraponto à imagem que abre a matéria. Giovanni soube jogar melhor as rivalidades espanholas do que as paraenses: foram cinco gols no Real Madrid, três gols no Atlético e três no Espanyol entre todas as competições nacionais, ao longo de três temporadas no Camp Nou