Abro a revista de bordo de uma companhia aérea americana e encontro uma menina e um menino fazendo embaixadinhas em uma bola presa a uma haste de metal. Releio duas vezes o anúncio para ter certeza de que aquilo era, realmente, sem dúvida, a propaganda de máquina para ensinar crianças a fazer embaixadinha.  Era. De fato, existe uma máquina de embaixadinhas.

Por alguns minutos, fiquei pensando no bullying que essas duas crianças sofreriam dos meus colegas de infância se eles tivessem encontrado alguém praticando embaixadinhas em uma maquininha. Qualquer pai brasileiro que desse um presente destes para o filho estaria lhe legando um futuro de infelicidade, uma passagem para os círculos escolares do inferno. Mas não um pai americano, talvez.

Em um dos capítulos de “Como o futebol explica o mundo”, Franklin Foer mostra a curiosa demografia do esporte nos EUA. Na maior parte do planeta, futebol é um esporte popular. Ele é praticado por todas as classes sociais, mas a maior parte dos seus jogadores  profissionais e dos seus ídolos vêm de famílias que estão, no máximo, na classe média.

Na Inglaterra, aliás, o futebol foi  durante muito tempo o esporte dos pobres e da classe média baixa, enquanto o rúgbi era o esporte das pessoas ricas e de classe média alta. Os EUA trocaram as classes de lugar. Os imigrantes latinos foram as únicas pessoas sem uma casa gigantesca que praticavam o esporte, mas logo estão tão incorporados ao país que passam a preferir o futebol americano – esse, sim, o esporte do lavador de carros, do atendente de restaurante, do mineiro da Virgínia Ocidental.

Essa pirâmide invertida do futebol nos EUA ajuda a entender não apenas a máquina de embaixadinhas. Como mostrou o Bruno Bonsanti esses dias aqui na Trivela, os EUA são um dos países que mais compram ingressos para a Copa do Mundo. Uma das razões apontadas no relato do Bonsanti é que os americanos têm bastante dinheiro e tempo livre para vir ao Brasil passar um mês de férias vendo futebol. Só que não são todos os americanos.

O faxineiro que limpa um cassino de Las Vegas, o balconista de um bar no Arizona ou o entregador de pizza em Nova York podem até amar o esporte, mas não tem como vir ao Brasil por tanto tempo – até porque as férias de um trabalhador no país duram bem menos do que um mês. Quem virá ao Brasil são os americanos de classe média adiante. Eles têm dinheiro para gastar tanto em ingressos da Copa quanto em uma máquina de embaixadinhas. No bullying on them, afinal.