Por mais que a origem seja a mesma, o futebol americano e o futebol ‘do resto do mundo’ são dois esportes totalmente diferentes. Algumas semelhanças persistem, é claro, como os 11 jogadores para cada lado e o objetivo de marcar os gols. No entanto, elas param por aí. E por isso mesmo é que se tornar um esportista relevante em ambos, ainda que em momentos diferentes da carreira, é raríssimo. Entrar para a história dos dois, então, é façanha para um só: Aldo Donelli, astro dos Estados Unidos na Copa de 1934 e também técnico da NFL.

Donelli era um multiesportista durante a juventude. Fazia parte do time de futebol americano da Universidade Duquesne, em Pittsburg. Tanto corria com a bola quanto a chutava, atuando como halfback e punter. Porém, o garoto também tinha talento para o futebol. E foi o jogo com os pés que acabou prevalecendo. Donelli iniciou a carreira no Morgan FC, passando também por outros quatro clubes. Durante a década de 1930, chamava tanta atenção pelo Curry Silver Tops que acabou sendo convocado para a seleção americana. Aos 27 anos, era o único amador presente no elenco semi-profissional que se preparava ao Mundial de 1934. Para se eternizar.

O atacante garantiu a classificação dos EUA para sua segunda Copa do Mundo. O US Team enfrentava o México em Roma, em jogo único que definiria o representante da América do Norte no Mundial da Itália. Donelli decidiu a partida sozinho, marcando os quatro gols na vitória por 4 a 2. Para azar dos americanos, o adversário nas oitavas de final era a anfitriã Azzurra. Apesar da derrota humilhante por 7 a 1, Donelli teve a honra de anotar o único gol de sua equipe naquela partida. Mais do que isso, protagonizou outra boa atuação, reforçando o interesse de Lazio e Roma em sua contratação. Apesar da boa oferta financeira, Donelli recusou o convite para jogar na Serie A. Aquelas duas partidas também seriam suas únicas pela seleção.

Sua carreira nos gramados seguiu até 1938. Um ano depois, voltaria a trabalhar com o futebol americano. Virou técnico do Duquesne Dukes, time de sua universidade. E o sucesso foi imediato. Dois anos depois, Donelli era convidado para assumir o comando do Pittsburg Steelers, franquia da NFL. Tornou-se o primeiro na história (e, até hoje, o único) a treinar uma equipe universitária e outra da liga profissional ao mesmo tempo. A aventura durou apenas cinco jogos. O comissário da NFL pediu que escolhesse entre os Dukes e os Steelers, preferindo o time universitário.

Entre 1943 e 1944, já aos 36 anos, voltou a jogar futebol. Inclusive, liderou o Morgan FC rumo a duas finais da US Open Cup, competição mais tradicional dos EUA. Donelli só voltou a pendurar as chuteiras porque foi contratado novamente como técnico, pelo Cleveland Rams (atual St. Louis), onde permaneceu por uma temporada. Foi seu último time da NFL. Seguiu a carreira até o fim da década de 1960, passando pela Universidade de Boston e por Columbia. Quando se aposentou, Donelli já fazia parte do Hall da Fama do Futebol Nacional. Sinal de respeito a uma trajetória única. E de uma multiplicidade que será difícil ver igual.