Para quem aprecia a identidade das competições sul-americanas, a semana guardou um duro golpe da Conmebol, ao confirmar a final única para a Copa Libertadores a partir de 2019 – em uma carta de intenções com diversos pontos questionáveis. Já neste final de semana, surge uma história na Argentina que mostra como os cartolas da entidade não se cansam do ridículo em prol de modismos. Ou, a quem preferir olhar ao outro lado, por puro desconhecimento das tradições. A ameaça foi feita ao Independiente, por sua mítica entrada em campo, algo que se iniciou há mais de cinco décadas e foi retomado recentemente.

VEJA TAMBÉM: Final única: Libertadores busca o dinheiro fácil sob o risco de perder a própria essência

Segundo a apuração do Olé, o atrito aconteceu na decisão da Recopa Sul-Americana. A Conmebol orientou que Grêmio e Independiente entrassem juntos em campo na Arena, para que o protocolo se consumasse e a cerimônia ocorresse nos moldes “de Copa do Mundo”. O Rojo, entretanto, decidiu não aceitar e manter sua tradição. Entrou em campo antes e, no centro do gramado, os jogadores acenaram com as mãos espalmadas para os quatro cantos do estádio. Gesto simples que pode gerar multa.

Ricardo Pavoni, antigo ídolo do Independiente que viajou com a delegação ao Rio Grande do Sul, afirmou que os cartolas foram expressos em seu aviso: “A Conmebol não queria que fizéssemos a saudação histórica, porque dizia que precisava ser como na Copa do Mundo: entrar todos juntos e escutar os hinos. Colocaram apenas o hino do Brasil. A decisão dos nossos diretores foi pagar a multa”. Por enquanto, não há oficialização da sanção.

Lateral do Independiente por 11 anos e campeão da Libertadores em cinco oportunidades, Pavoni foi convocado por Ariel Holan no início de 2017. O treinador pediu ao veterano para ensinar a saudação aos jogadores atuais. Assim, o clube voltou a praticá-la nas partidas da equipe principal e também das categorias de base. Em março, logo após o falecimento de Roberto Ferreiro, outra lenda do Rojo campeão de tudo, a tradição retornou a Avellaneda em forma de homenagem. E continuou, dada a boa sequência de resultados dos alvirrubros. Esteve presente, inclusive, na conquista da Copa Sul-Americana sobre o Flamengo, no Maracanã.

VEJA TAMBÉM: Final em jogo único tem a ver com a arenização. E é isso que a Conmebol quer

Pavoni e Ferreiro faziam parte dos primeiros times que iniciaram o rito de entrada. A ideia surgiu em 1963. O preparador físico Manuel González García estabeleceu normas de convivência e respeito ao elenco, enquanto os jogadores estivessem treinando ou concentrados, e quem as quebrasse pagava a caixinha. Ao final do ano, o clube realizou uma festa. Com o dinheiro arrecadado, González García deu anéis de ouro a todos os jogadores, com a letra “I”, de invencíveis. E ensinou como seria a saudação, algo planejado para ser diferente, marcando aquela equipe.

Conforme o lendário goleiro Miguel Ángel Santoro, as mãos espalmadas serviam para demonstrar que “jogariam com as mãos limpas, com cavalheirismo, com valores”. Também se alinhavam para “representar grandeza”. E levantavam os braços para “jurarem que seriam vencedores”. Assim, entravam muito mais ligados para as partidas. Em 1964, o Rojo faturou a Libertadores pela primeira vez, e seria bicampeão no ano seguinte. Feitos suficientes para transformar o rito em algo eterno. Naqueles primeiros tempos, o capitão Jorge Maldonado era o responsável por puxar a fila. Nos anos posteriores, Ferreiro e Pavoni se encarregaram de comandá-la, mantida também durante o tetracampeonato continental nos anos 1970.

“Ainda que pareça algo mínimo, estas coisas te unem como grupo. A saudação te engrandece diante da adversidade, te fortalece e te ajuda a confiar no sentido de pertencimento. Há um gesto desafiante quando faz isso como visitante, enfrentando as vaias, com a cabeça no alto. Teria que ser estabelecido como uma tradição, porque isso gera uma comunhão com o torcedor. Sei muito bem do que estou falando, porque vivi isso”, declarou Pavoni, ao Olé. Holan ainda destaca o gesto como “quase um mito, um pedaço da identidade da instituição”, enquanto o antigo capitão Nicolás Tagliafico afirmava que “ver as pessoas levantando e até se emocionando motiva de verdade”. A Conmebol, porém, desconhece o passado do maior campeão de sua principal competição. E acha que tudo se resolve com multas, ante o ímpeto de seus cartolas por encher um pouco mais os cofres.