Yeso, à esquerda, na época de São Paulo

Contos de Yeso Amalfi, o Deus do Estádio, um boêmio e a paixão de muitas mulheres

“Alcancei grande sucesso no exterior devido não somente aos meus recursos como futebolista nato, mas também por outras circunstâncias, oriundas quem sabe da minha personalidade original, de minha maneira fidalga dentro e fora do gramado e talvez, segundo a opinião das mulheres, pela minha postura de atleta galã. Aliás, dizem que o público feminino começou a frequentar estádios para admirar minhas belas pernas.”

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É assim que Yeso Amalfi, morto neste domingo, aos 90 anos, em São Paulo, por falência múltipla de órgãos, explica em sua autobiografia como conseguiu, roubando o título do livro, conquistar o mundo. Uma metáfora, claro, mas é verdade que paulistano da Bela Vista, que morou grande parte da infância no número 60 da Rua Treze de Maio, foi um dos brasileiros mais famosos no exterior, em uma época em que o êxodo de jogadores não era tão intenso.

Inteligente, excelente meia-direita de personalidade forte, Yeso desfilou pelo São Paulo, nos anos 1940, jogou no Boca Juniors e no Peñarol e teve uma passagem rápida pelo Palmeiras. Foi na França que ganhou o apelido de “O Deus do Estádio”, em texto publicado em abril de 1954 no jornal France Soir, de autoria do artista francês Jean Cocteau, por uma atuação com a camisa do Racing de Paris. Seu melhor momento na Europa foi pelo Nice, quando recebeu a braçadeira de capitão para liderar o time na Taça Rio de 1951, no Brasil.

Além de jogar bola, Yeso gostava tanto das mulheres quanto da vida noturna. Como costuma acontecer com esse tipo de personalidade, tem muitas lendas atreladas ao seu nome. Jura de pés juntos ter apresentado a atriz norte-americana Grace Kelly ao príncipe Rainier III, de Mônaco, e que era amigo do irmão de Evita Perón, primeira-dama do general Juan Domingo Perón, presidente da Argentina entre 1946 e 1955, e novamente de 1973 a 1974. Namorou celebridades como Sophia Loren e Brigitte Bardot.

Yeso Amalfi, mais próximo do fim da vida

Yeso Amalfi, mais próximo do fim da vida

Um personagem tão rico e interessante merece uma homenagem à altura, então reunimos as melhores histórias de Yeso Amalfi, um boêmio, um Deus do Estádio e a paixão de muitas mulheres.

Com as calças nas mãos. De Feola

Yeso começou a jogar futebol pelo time de várzea Éden Liberdade, e foi descoberto pelo São Paulo (na foto de destaque da matéria). Aproximou-se de diretores e se envolveu na vida política do clube, o que causaria grandes transtornos quando Cícero Pompeu de Toledo venceu as eleições de 1947 e se tornou presidente. O jogador apoiava a outra chave, do doutor Décio Pacheco Pedroso. Foram 72 jogos pelo clube entre 1946 e 1948.

Apesar de afirmar nunca ter tido um vício, Yeso gostava da noite e das mulheres. Em Santos para enfrentar o time da casa pelo Campeonato Paulista, marcou um encontro com uma de suas namoradas, mas o técnico Vicente Feola, futuro campeão mundial com a seleção brasileira em 1958, ficou sabendo, escondeu suas calças e sugeriu que ele ficasse na janela, de paletó, camisa, gravata e calções, que ele ia “chamar a moça”.

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Por divergências com o presidente do São Paulo, e indicado pelo companheiro de equipe Antonio Sastre, foi para o Boca Juniors, da Argentina, e teve a companhia no clube do compatriota Heleno de Freitas, contratado com o seu aval.

Entre Heleno e Yeso, ficou Heleno
Yeso e Heleno na época de Boca Juniors

Yeso e Heleno na época de Boca Juniors

O tiro saiu pela culatra. Segundo o livro, Nunca Houve Homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves, Yeso foi negociado por causa da incompatibilidade de gênios com o compatriota, apesar de ter participado dos dois primeiros gols de Heleno com a camisa do Boca, na vitória por 3 a 0 sobre o Banfield, em 6 de junho de 1948.

Em 24 de outubro daquele ano, o clube de Buenos Aires perdeu para o San Lorenzo por 1 a 0. Heleno quase foi expulso por ter discutido com Yeso, que pediu a rescisão do seu próprio contrato. Em resposta, a diretoria afastou o ex-jogador do Botafogo até as últimas rodadas do Campeonato Argentino. Heleno, porém, voltou e marcou três gols em quatro partidas, motivando o Boca Juniors a negociar seus desafetos, entre eles Yeso. Heleno saiu do clube mesmo assim, por não acreditar no repentino voto de confiança que recebeu da diretoria.

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O paulistano tem outra versão. Em sua autobiografia, conta que, ao lado de Heleno, aderiu à greve contra a intervenção do governo do general Juan Domingo Perón no futebol argentino. O presidente do país havia designado um diretor de sua confiança nos principais clubes da liga. Foi formada uma comissão de jogadores para negociar, mas algumas exigências não foram aceitas. Juntos, os atletas fizeram um minuto de silencio ao início de cada jogo, após o apito do árbitro, e foram banidos do futebol argentino.

Como muitos outros que saíram do país, Yeso teve rápida passagem pela Liga Pirata da Colômbia, no Milionários, mas rapidamente rumou ao Peñarol. Em fevereiro de 1950, fez sua primeira partida com a camisa do Palmeiras, mas, desta vez, não ficou muito tempo em São Paulo. Foram 14 jogos, apenas três oficiais, pelo Torneio Rio-São Paulo e Quadrangular Prefeito Lineu Prestes, e 11 amistosos. Nesse período, Yeso disputou 10 dos 16 jogos do Palmeiras como titular, e quatro como reserva. Marcou três gols: contra Portuguesa Santista, Ararense e Corinthians.

Briga com o técnico inglês

Em 16 de julho de 1950, foi para a França assinar com o Nice, mas descobriu que primeiro deveria passar por um período de testes. Na véspera do primeiro amistoso programado, aceitou participar da festa de abertura de um hotel e jogou sem dormir.

“Depois de alguns minutos de minha chegada ao hotel, já tendo amanhecido o dia, encontrei Elie Rous (técnico), que me avisou do primeiro teste, contra um time amador da região, no Estádio Saint Agoustin, dentro de algumas horas, e me felicitou por estar de pé em boa hora (mas, pelo seu tom de voz irônico, ele bem sabia que eu chegara naquele momento, porém eu sabia que isso não me afetaria em nada, pois já havia perdido a conta das vezes que treinara sem dormir)”, escreveu em sua autobiografia.

A contratação de Yeso demorou para ser concretizada, pois o Peñarol ainda detinha seu passe e não o havia liberado. Mesmo com as questões burocráticas resolvidas, ele foi preterido na equipe titular pelo técnico Rous, com quem tinha desavenças. Em uma quinta-feira, antes de enfrentar o Strasburg, conta que treinava entre os reservas quando driblou o time titular inteiro e fez um gol de letra. Em seguida, pegou a bola com as mãos, tirou a camisa e jogou ambas no rosto do treinador.

Com Yeso titular, o Nice venceu três jogos seguidos, e o jogador considerou aquela uma boa hora para tomar uma posição firme. Convocou uma reunião no vestiário e deu um ultimato ao presidente. “Pedi a palavra, repeti várias vezes que estava na França para jogar futebol e mostrar a arte e beleza do futebol brasileiro. Depois de explicar minhas razões, afirmei categoricamente que a diretoria iria escolher entre mim e o treinador”, lembrou.

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A diretoria ficou com ele, e promoveu o técnico dos amadores Numa Andoirre, um ex-jogador da seleção francesa que jogou a primeira Copa do Mundo e disse a A Gazeta Esportiva que quase morreu na Segunda Guerra Mundial. “Em 1945, quando retornei da Guerra, impossibilitado de continuar minha carreira esportiva, dediquei-me à profissão de treinador. Consegui naquela época dirigir as equipes secundárias do Nice. Houve um desentendimento entre os dirigentes do clube e o aludido treinador, tudo por causa de Yeso Amalfi. O técnico não o queria no time, e os dirigentes opinavam ao contrário. Rous teve que sair e, em consequência, eu assumi. Sou técnico e campeão francês por causa de Yeso”, contou.

Aposentadoria, pero no mucho
Yeso com a esposta Colette

Yeso com a esposta Colette

Campeão francês pelo Nice, Yeso veio ao Brasil para a Taça Rio com moral e a braçadeira de capitão. Alegando estar feliz na França, refutou as especulações de que estaria interessado em retornar ao futebol do país, embora tenha admitido estar com saudades da sua pátria. Avisou que estava incumbido da tarefa de voltar com cinco ou seis jogadores contratados, garantindo que três deles seriam “dos mais famosos”. Trouxe até dinheiro no bolso para os adiantamentos.

Ao fim da primeira fase do torneio, uma reviravolta. Yeso anunciou que não voltaria à França e estava dando por terminada a sua carreira no futebol. “Ficarei para sempre nesta grande terra que é o meu Brasil. Vou dirigir os negócios do meu ‘velho’, e não quero mais saber de bola. Agora sou negociante. O meu último jogo foi este que acabamos de ganhar (2 a 1 sobre o Estrela Vermelha)”, disse a A Gazeta Esportiva de 9 de julho de 1951. O Nice terminou a Taça Rio com uma vitória e duas derrotas (para Palmeiras e Juventus).

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Yeso mudou de ideia muito rápido e planejava retornar ao clube francês para renovar seu contrato. Antes de assinar seu primeiro vínculo com os europeus, realizou treinos secretos no Torino, da Itália, e chegou a recusar uma excelente proposta. Às vésperas de a delegação embarcar para o Brasil por causa da Taça Rio o presidente do Nice declarou que dificilmente conseguiria segurá-lo. O próprio jogador, em uma de suas primeiras entrevistas em solo brasileiro, avisou que tinha uma proposta do time de Turim.

As circunstâncias da transferência o magoaram bastante. Após a Taça Rio, ele passou algumas semanas de férias no Brasil, mas retornou antecipadamente no fim de agosto para resolver a renovação contratual. Foi recebido com festa em Nice e ficou emocionado. Uma reunião estava marcada para o dia seguinte.

O encontro foi inútil. O presidente alegou que já havia recebido o dinheiro do Torino por seu passe e nada poderia fazer. Quando Yeso mandou que ele devolvesse, enfim soube a verdade: o clube admitiu ter perdido autoridade sobre ele e que os outros jogadores estavam pedindo salários da mesma importância.

Contrariado, o brasileiro deixou tudo para trás, inclusive sua namorada Luly, “meu grande amor”, e começou sua passagem pelo Torino, que durou de 1951 a 1952. Ele retornaria à França para jogar por Mônaco, Racing de Paris e Red Star, antes de encerrar a carreira, desta vez de verdade, no Olympique de Marselha, em 1959, deixando saudade nos torcedores que gostavam do seu futebol e das suas pernas.

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