Poucas pessoas tiveram o privilégio de escolher o time para o qual torcem. Ainda crianças, acabam atravessadas por motivos aleatórios que – entre a família, o vizinho, um rastro de imagem de TV, uma mudança de casa, um barulho da rua, um ruído do rádio e até mesmo o mais puro acaso – definem o rumo dos afetos. Me vi palmeirense, aos cinco anos e diante do gol de Evair que completa bodas de prata nesta semana, por razões, digamos, alfabéticas: chegaram na fazenda, era final dos anos 1960, com uma camisa com o símbolo do Palmeiras e outra do Corinthians; meu pai, Paulo, escolheu a que tinha um P no peito, é o time com a letra do meu nome! Seu irmão, meu tio, ficou com a outra, e a casa estava dividida, entre alviverdes e alvinegros, definitivamente.

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Com a seleção, na Copa, é diferente. Essa coisa de representar a pátria, as conexões forjadas com os contextos político e econômico, o distintivo e o chamado da Confederação, as apropriações da camisa amarela, os comprovadamente corruptos na gestão do futebol e megaeventos, o time formado por gente que atua longe dos nossos gramados, os jogos mandados na Inglaterra… há um universo de poréns na razão entre torcedor e equipe nacional. Daí perguntam, a cada esquina: você vai torcer pelo Brasil?

Seja qual for a utilidade da resposta e para desespero de quem vê o mundo em cara ou coroa, haverá, entre o afeto da criança e a razão do senso crítico, entre o pacheco fanático e o secador convicto, um universo de indiferentes que escapam um sorriso quando Neymar deixa o zagueiro no chão ou mesmo um mundo de torcedores que, na derrota, não comprarão a briga canarinho. É um troço maravilhosamente estranho. Sábio, só surge a cada quatro anos, como um enviado do caos para escancarar as mais evidentes contradições no sentimento de um apaixonado por futebol. Um estorvo saboroso, uma delícia insuportável no casamento atual do brasileiro com o maior torneio de todos.

Copa do Mundo, enfim: amamos e odiamos.

Mas, dentro dessa salada russa, diante de eufóricos e antipáticos, uma coisa é fato: a seleção brasileira não se apresentava com um time tão bem armado há muito tempo, talvez desde 1994. Ali, o protagonismo era a força coletiva, a organização, e com menos talento ofensivo do que hoje. Desde então, nunca soou tão bem estruturada para essas semanas de loucura. Salvo alguns bons momentos, pareceu sempre mais dependente de seus craques que do entendimento do jogo, ainda mais, na maior parte desse tempo, sob o comando de técnicos que nem de longe eram os melhores nos respectivos momentos.

Além desse onze bem azeitado, o poder de definição da linha de frente desse escrete é raro. Nem no famigerado quarteto mágico, que foi à Alemanha aos trancos e barrancos e caiu antes do jogo decisivo, havia tanto cheiro de gol a essa altura. Com Willian, Coutinho, Neymar e Gabriel, a sensação é a de que sobrou é caixa.

O que isso garante? Absolutamente nada. Ainda que diante de três Copas seguidas tão pobres o que se vê de véspera já seja alguma coisa. Esse time, no mínimo, tem bola e cara para sair da paralisia vista e revista contra França, em Frankfurt, Holanda, em Porto Elizabeth, e Alemanha, em Belo Horizonte. Frente a torcedores, indiferentes e secadores de hoje, não que fosse possível piorar, também. No fim das contas, o campo é o termômetro do humor do sofá-arquibancada, e o mês de bola, a cada quatro anos, é quem escreve as memórias.

Boa Copa!