É um jogo, o mais complexo deles. Em que vitórias e derrotas tem o peso de derrubar jogadores e torcida morro abaixo, mas, paradoxalmente, podem ser atravessados por memórias que passam além das bolas no barbante.

A seleção do Peru, quarenta anos de mães e filhos que nunca viram uma Copa juntos, fez um Mundial inesquecível. Porque se ambiente e paixão são guardados na mesma prateleira dos livros de história, os gols perdidos na Rússia serão notas de rodapé. Paolo Guerrero, craque dos juvenis do Alianza Lima, foi carregado por uma comoção internacional, já na reta final de uma carreira que passou por Munique, Hamburgo, São Paulo e Rio de Janeiro. No fim, o sonho durou dois jogos, frustrado num chute canhoto de seu giro característico. Das arquibancadas, e das ruas de Ecaterimburgo, ficará o atacante que permitiu uma viagem além-mar para uma torcida apaixonada, autêntica, rara, a do eco mais marcante do torneio, de desembrulhar gargantas secas havia quatro décadas.

Na Argentina, como escreveu alguém, Lionel Messi joga para se desculpar. O mais reverenciado jogador de sua geração ainda busca uma jornada internacional para chamar de sua. Na quarta Copa, o pior time de todos, e a biografia do gênio sendo escrita na penumbra dos braços abertos de Diego Armando Maradona. A Pulga, campeão de tudo e com carreira de Pelé em Barcelona, exercita de tempo em tempo o seu reencontro com Rosário. Impotente na derrota incontestável contra a Croácia, esteve longe de viver um 7-1, claro, mas sentiu semelhante cheiro de fim de feira. A história sendo escrita, nessa jornada entre o gol e a cabeça baixa, cruel, mas autêntica, em alinhar o holofote no rumo da maior estrela, tudo para ver se desabrocha o craque da Catalunha.

Juntos, numa mesma noite em que Guerrero e Messi desalentam seus povos – sim, assim mesmo, de forma megalomaníaca -, são vários os níveis e formas de se levar para sempre a fotografia na parede. O termo vem dum poema de Drummond. Do Rio de Janeiro, escreveu versos sobre sua terra-natal, em que termina com “Itabira é apenas uma fotografia na parede/Mas como dói!”. Da cidadezinha mineira, surgiu uma ingratidão para com o escritor, um tanto por um bairrismo que jamais aceitou sua vida na capital carioca, mas também até por não terem entendido aquelas linhas do texto de homenagem.

Anos depois, Drummond diria que “Confidência do Itabirano” era um soluço nostálgico. Dizem que nunca mais quis voltar lá para não desapontar a memória afetiva, imagina, aquelas ruelas de criança, transformadas ao longo do tempo. Pensei nos soluços de Guerrero, de Messi, nas lembranças que um dia irão rabiscar sobre os grandes dias abraçados por sua gente. Na dura aventura russa, comandando os últimos fios de esperança de um país, traçaram mais linhas das confidências futebolistas sul-americanas, separadas pelas vírgulas de quatro em quatro anos, pregando fotografias nas paredes para o beijo ou o escárnio de quem as vê.