Kroos é um exímio organizador, mas a sobrevida da Alemanha veio numa cobrança de falta, no estouro do tempo, encontrando num toque sutil o ângulo possível para deixar a seleção campeã do mundo ainda viva na Copa.

Cristiano Ronaldo anda com a estrela em dia, capaz de garantir quatro pontos de largada para Portugal, mas a classificação no fim das contas surgiu dos pés de Taremi, o atacante iraniano que esteve a um bico de mandar os europeus para casa e viu o gol pequeno, errando o alvo, já no fim.

Iniesta faz um Mundial de protagonista, arrancando para o gol contra o Irã, tabelando bonito no empate com Marrocos, e quando as coisas podiam caminhar para uma despedida precoce do maior jogador espanhol de todos os tempos lá veio Aspas, o reserva, tocar de letra num gol conferido pelo assistente de vídeo, que confirmou o alívio.

Messi começou dando de Messi, e quando a bola viajou na dúvida entre ser protegida, dominada ou carregada, o dez argentino fez o que faz de melhor. Cuidou. Abraçou o lançamento com a coxa, com o pé, e guardou o lance no fundo da rede, ainda que tenha sido improdutivo no segundo tempo e mantido as mochilas abertas na Rússia só porque Rojo, quem diria?, completou um cruzamento da direita para vencer o jogo.

Entre o final inacreditável e o simples desafogo de obrigação de primeira fase, é a vez do Brasil. A horas do jogo, não consigo imaginar um cenário de tranquilidade, ainda que bola por bola ele seja completamente acessível. Será? O Brasil abre vantagem e o país se embriaga ainda no intervalo, ao ritmo do Olodum, no delay da entrada ao vivo. Ou então, pelo ritmo desse Mundial, a coisa segue viva até o fim, talvez não necessariamente atrás dum improvável gol de zagueiro ou falta lateral tirada do goleiro, mas sem sossego, no tom desse torneio tão equilibrado e igual.

A torcida sim, essa pode se desesperar, faz parte do jogo. Quem vai suportar, numa tarde de fase de grupos que costuma ser protocolar, um suposto escanteio fatal sérvio? O time, não: o caos é péssimo para o onze brasileiro. Se tem uma coisa que as eliminatórias e, pior ainda, os amistosos não conseguem preparar é a reação ao sofrimento. A carga emocional dos jogos de classificação, diluídos em duplas ao longo de temporadas inteiras, é muito menor. Claro, há a pressão de uma visita a Montevidéu ou Buenos Aires, há a altitude, há a sempre real chance de ficar fora de um Mundial pela primeira vez. Mas nada se compara a três jogos em 10 dias que serão lembrados para sempre e que determinam a carreira de um jogador, o lugar na história duma foto de time posado.

A seleção brasileira reagiu mal ao gol da Suíça e ao fim do jogo de estreia; pilhou demais no jogo contra a fraca Costa Rica, com cartões por reclamação e brigas desproporcionais ao que o jogo pedia; e hoje, no primeiro de cinco jogos eliminatórios até a sonhada final, vai precisar encontrar esse sossego, essa paz que antecede à impressão de fim do mundo. As cinco estrelas no peito têm de ser o afago, não o peso do céu nas costas.