Thiago Silva e Miranda, nascidos no mesmo setembro de 1984, formam aquela que pode ser uma das melhores duplas brasileiras da história das Copas. Diga-se que até o quarto jogo, claro, porque a história da camisa canarinho não costuma guardar grandes memórias individuais para quem não chega verdadeiramente longe no torneio. Para a seleção, cair contra a Bélgica, no jogo cinco, é cair cedo. Hoje, portanto, eles têm o teste definitivo para serem protagonistas de uma equipe que pode garantir as sete partidas na Rússia.

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Mais: vivem provavelmente a última disputa neste nível. Aos 33, acho que só o título mundial e atuações que sigam tão consistentes como até aqui podem fazer com que o próximo ciclo se mantenha com a dupla como titular, ou ao menos carregue tal dúvida. Porque independentemente da forma com que o Brasil deixar a Copa, terão de responder a boa e velha pergunta sobre futuro. Com o Catar distante mais quatro anos e meio, é realista imaginar que a fila vai andar.

Em campo, a dupla faz uma Copa tecnicamente impressionante. Mitrovic não achou nada, os frágeis pontas mexicanos muito menos, e os zagueiros brasileiros merece todos os elogios. Não fosse o gol da Suíça, que à parte a possibilidade de se interpretar uma falta não se pode isentar Thiago e Miranda da falha pelo espaço permitido, e o título ali em cima não precisaria do quase. É rara uma trajetória de Copa tão bem protegida como a que vive o goleiro Alisson, praticamente de luvas secas até aqui.

Mas, cautela: não custa lembrar que o time nacional ainda vive um momento de recuperação. De reconstrução, reafirmação, o que quiserem chamar. Thiago, para além da subjetividade na interpretação do choro há quatro anos, voltou contra a Holanda na disputa do terceiro lugar em 2014 e começou o jogo fazendo um pênalti. Depois, vacilou na Copa América do ano seguinte, quando em outra penalidade boba colaborou demais com a eliminação para o Paraguai. Teve momentos bem ruins, e vem de falhas nas duas competições citadas. Não é desconfiança, mas é não esquecer que o jogador ainda carrega sim o peso de traumas recentes que custaram sua vaga no elenco. Voltou e respondeu em campo. Está jogando muito.

Miranda, ao contrário, vem sendo titular durante todo o ciclo. Sem o fantasma do 7 a 1 para fardar, não foi ameaçado pelos anteriores – Dante, Henrique -, pelos emergentes – Gil, Rodrigo Caio -, nem pelos ex-titulares – Thiago e David Luiz. Se meteu como absoluto e chegou firme até a Copa, primeiro com Marquinhos, que acabou no banco. Mais velho zagueiro brasileiro desde Bellini, podia estar no terceiro Mundial tal como o colega de agora, mas acabou preterido por Dunga e Felipão. Tardou, mas chegou.

Agora, é hora da primeira grande prova. Lukaku é um matador em grande fase, a Bélgica tem repertório de sobra no ataque, sendo inclusive o time mais goleador do torneio, e a tendência é que Thiago e Miranda sejam mais exigidos. Experientes que são, eles sabem que perder para os belgas nesta sexta-feira, por 1 a 0 que seja, ofusca qualquer gigante atuação que tenham tido até aqui. Coisas do jogo, ainda mais na defesa: a concentração de ontem não entra em campo, e um bote errado pode colocar tudo a perder.

No fim, se a narrativa, concorde ou não, vai deixar para sempre essa seleção como o time de Neymar, a dupla de zaga tem feito questão de se mostrar no mais alto cuidado técnico possível a cada lance. Caminhando assim até o último domingo, vai ser difícil não falarem para sempre dos caras de setembro de 1984.