Essa seleção brasileira, a de Tite, que completou na Copa do Mundo dois anos de trabalho, jamais poderá reclamar da falta de apoio da torcida. Assumiu o treinador que era uma unanimidade técnica como havia muito tempo não se via, e a equipe se arejou no embalo do inédito título olímpico conquistado pouco antes da estreia do novo comandante. O time se acertou, enfileirou vitórias e foi o primeiro a se classificar nas eliminatórias. Um sucesso, e muito rápido.

Diante do 7-1 em campo e dos escândalos envolvendo os dirigentes do futebol, Tite criou um escudo. O trabalho respirava novos ares e o time, leve e vencendo os principais rivais, foi retomando a simpatia popular. Depois de participações ruins em competições seguidas, aparecia uma nova onda de otimismo que só o Brasil parece ser capaz de ter no futebol, uma condição bipolar ao extremo, do medo de não ir à Copa com Dunga para o melhor time do mundo com Tite num par de jogos.

Mas daí quando o resultado não aparece já voltam os velhos traumas da relação. Neymar, se o gol não sai, vai à rede social, contra tudo e contra todos. Tite se empolgou nas coletivas como não se costumava ver, exagerando na avaliação de atuações e defendendo o time de críticas como se fosse tão preciso. Paulinho fez cara feia e ironizou os repórteres na zona mista, mais um que não parecia desfrutar do privilégio de ter uma rara carreira com duas Copas do Mundo, mas sim jogando para responder, para provar. A comissão, transparente e profissional, acabou por assumir uma certa omissão nas condições físicas e médicas reais de Fred, quando o treinador admitiu que mal podia contar com ele para os jogos decisivos. E, no fim, se a carta de Dona Lúcia parecia fruto de outro planeta, Edu Gaspar concedeu uma palavra final sem nenhum tom crítico aos problemas ou ao tratamento sobre sua maior estrela.

Neymar, aliás, que teve à disposição um time para chamar de seu, não jogou exatamente mal, mas se recusou a falar com a torcida ao fim da Copa. Um terço do time voltou ao Brasil, o que mostra que a relação com a seleção brasileira parece cada vez mais uma nostalgia distante, e o camisa 10 não deu as caras na descida do avião. Parece não suportar mais o próprio personagem que criou, o jogador mais querido do país às vezes se atrapalhando dentro da própria ambição de assumir esse papel.

E aí a grande contradição: se há o elogio para uma eliminação sem caça às bruxas ou que queime jogadores de nível internacional indiscutível, caminha ao lado uma defesa do “menino” Neymar. Participações constrangedoras de comentaristas ou apresentadores em verdadeiros editoriais em que contextualizam cada passo do mais bajulado jogador brasileiro da história. Um craque que, definitivamente, precisa sair dessa bolha puxa-saco e ir atrás do seu primeiro título na seleção adulta.

O pior é que a semana sem Brasil na Copa já começa com o noticiário dos clubes voltando a engolir o maior torneio de todos, e logo as rodadas do Campeonato Brasileiro vão correr se atropelando com a Copa do Brasil e Libertadores a cada esquina, e a seleção brasileira vai voltar a jogar seus amistosos na Inglaterra no horário da sessão da tarde. A sensação é que essa seleção brasileira perdeu uma grande chance de trilhar um caminho que pudesse redefinir a relação com a torcida e com o próprio futebol brasileiro, de reciprocidade e alegria. Mas o final de semana nos lembrou que todo aeroporto tem uma saída dos fundos, para todo microfone há uma conta de Instagram, e no fim tudo vai virar só mais um capítulo de uma história gigantesca. Uma pena.