Sergio Ramos comemora o gol na final da Liga dos Campeões (AP Photo/Manu Fernandez)

Contra um time que era puro coração, o Real também teve que mostrar o seu

Com um elenco como o do Real Madrid, sempre se espera que se uma das estrelas jogar mal, outra irá brilhar e irá ficar tudo bem. Ninguém conta que nenhum deles jogará bem. Ou que todos eles serão bem marcados. Mas quando se enfrenta um time como o Atlético de Madrid, isso pode acontecer. Cristiano Ronaldo, Bale, Di María, Modric, Benzema… Nenhum deles conseguiu estar no seu melhor. O Real Madrid precisou do abafa, do coração e da sorte para vencer.

É bom ressaltar, o técnico Carlo Ancelotti fez o que pode. Mudou o time, tentou as alternativas que tinha em mãos. E sentiu um problema curioso: faltou opção ofensiva no final do jogo. Quem entrou em campo no lugar de Benzema foi Morata. Um jogador que não tem a confiança de todos, porque não se firmou.

Real começou o jogo com Khedira substituindo Xabi Alonso, fazendo exatamente a mesma função. Um erro pelo qual Ancelotti pagou caro. O meio-campista alemão não foi bem em campo, não aguentou o ritmo. Voltava de lesão, não tinha jogado bem no domingo anterior. Foi engolido no meio-campo. Mal fisicamente, não foi bem no posicionamento defensivo, nem na saída de jogo – um dos méritos de Xabi Alonso.

Para piorar, Modric muito fraco. Pouco fez para organizar o jogo e, nesse esquema do Real Madrid, essa sua função é de muita importância. Benzema foi nulo. Pouco tocou na bola e, talvez pela questão física, nada conseguiu fazer para em campo. Errou tudo que fez. Não por acaso, acabaria substituído na segunda etapa. Di María se esforçou e, durante boa parte do jogo, foi o melhor jogador do Real Madrid. Mas o primeiro tempo do time foi tão ruim que nem ele dava para destacar.

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No primeiro tempo, os quatro jogadores que menos tocaram na bola foram Casillas (goleiro, o como sempre, é o que menos toca na bola), Bale, Benzema e Ronaldo. Ou seja: os três atacantes do time foram os que menos tocaram na bola. É simbólico para mostrar como o Real Madrid foi pouco efetivo e ameaçou pouco o gol adversário. Quem mais tocou na bola no Real Madrid foi Sergio Ramos (57), Carvajal (57) e Di María (48). Destes, só o argentino é alguém que constrói as jogadas. É pouco.

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Defensivamente o Real Madrid também mostrou pouco. Foram cinco desarmes no primeiro tempo, sendo quatro deles de Carvajal, o lateral direito, um de Khedira e um de Modric. Um time que morde pouco. Só para comparação, o Atlético de Madrid desarmou 15 vezes. O time todo marca mais.

No segundo tempo, Carlo Ancelotti colocou em campo Marcelo e Isco nos lugares de Coentrão e Khedira, que foi muito mal. Com isso, o time ficou muito mais leve. A ideia era melhorar a qualidade da bola que chegava ao ataque. Não adiantou muito. O time mudou em uma coisa, porém: passou a cruzar mais para a área e levou algum perigo.

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O segundo tempo mudou o panorama da partida, porque o Atlético, cansado, recuou. Se defendeu como pode e, com o passar dos minutos, não tinha mais pernas nem para contra-atacar. Em alguns momentos, o Atlético de Madrid parecia uma hidra. Se corta uma cabeça, nascem duas no lugar. Sempre havia um jogador do time surgindo na direção da bola, preparado para tirar dali.

Marcelo entrou bem, mas Isco foi quem mais mudou o time. Deu mais ofensividade e criatividade a um time que pouco criava. Ou nada criava, na verdade. O Real Madrid não esteve nem perto do time encantador que rivalizava com o Bayern de Munique na temporada pelo título de melhor time. Muito longe. A organização foi para o saco, ao contrário do Atlético, que continuou firme. O Real Madrid, mesmo desorganizado, se jogou para cima do Atlético, com dificuldade, apelando para bolas aéreas, mas pressionando.

O gol do Real Madrid saiu como o do Atlético: de um escanteio. Aliás, o gol foi com a cara do Atlético de Madrid. Uma bola alçada na área, um zagueiro que subiu alto demais, a marcaçãod o Atlético que dormiu por um segundo. Sergio Ramos conseguiu um tiro de cabeça que sacramentou um 1 a 1 no placar e levou o jogo para a prorrogação.

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A prorrogação tinha um time destruído em campo e outro nervoso, porém mais inteiro. O Real Madrid sabia que precisava continuar se dedicando, que tinha mais pernas, que mantendo a pressão poderia arrancar, à força, o gol. Porque Cristiano Ronaldo, muito baleado, não conseguia fazer muito. Se movimentou muito menos do que o normal. Arriscou muito menos jogadas. O jogo tinha cara, jeito e cheiro de pênaltis.

O Real Madrid não conseguiu vencer na técnica e precisou de força, garra e coração. E se essa é a principal característica do adversário e o gol saiu com uma jogada marcadamente usada pelo Atlético, o autor do gol é algo muito simbólico para os madridistas. É um dos jogadores mais experientes do grupo, o vice-capitão, líder e que faz uma temporada fantástica.

Mas os pênaltis não vieram. O Real Madrid conseguiu uma jogada com dois dos seus melhores jogadores. Di María, em sua melhor temporada no clube e que obrigou Ancelotti a achar um lugar para ele no time. E quem colocou a bola na rede foi Bale, a contratação da temporada, o homem dos € 100 milhões, que perdeu um caminhão de gols durante o jogo. E é algo muito madridista ter um jogador tão estelar e tão caro como Bale no elenco. Apesar dos problemas, ele marcou um gol decisivo no jogo. Mesmo sem jogar bem. Mas o que isso importa na festa do título?

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No final do jogo, Cristiano Ronaldo mal conseguia andar em campo. Se esforçou. Como se o time fosse o do Simeone. Um esforço absurdo. O Atlético, morto de cansaço, não conseguia deter os ataques do Real Madrid. Veio o gol do Marcelo, que chorou em campo. Já no final, Cristiano Ronaldo sofreu um pênalti e ele mesmo converteu. Chegou a 17 gols, quase sem condições de andar, mas marcou o gol. O 51º gol dele na temporada. Absurda a temporada dele.

O Real Madrid estelar, milionário, teve que ganhar o título na força, na raça, na vontade, se matando em campo. E aí, contra um time destruído fisicamente, e sendo melhor tecnicamente, o Real Madrid venceu.