O atacante Gilberto foi o principal destaque da Portuguesa no Campeonato Brasileiro. Emprestado pelo Internacional, onde não conseguiu se firmar, se tornou o artilheiro do time na Série A, com 14 gols em 24 jogos. Foi fundamental na campanha do time para escapar do rebaixamento (a não ser que o tribunal decida de outro jeito, mas aí é outra história). Aos 24 anos, foi especulado no São Paulo, mas acabou contratado pelo Toronto para a próxima temporada da MLS. Um destaque do Campeonato Brasileiro indo para a MLS? Parece estranho, mas essa sensação é causada mais por não ser comum, porque faz sentido. E Gilberto pode ser só o primeiro destaque de um Brasileirão que segue rumo à América do Norte.

São muitos brasileiros na MLS. No total, em 2013, foram 18 jogadores. Só Canadá e Colômbia têm mais jogadores estrangeiros na MLS, com 19 cada, sendo que o Canadá é parte da liga. Os brasileiros que atuam na liga, porém, tem pouca ou nenhuma expressão no Brasil. Kléberson, atualmente no Philadelphia Union, é o mais famoso deles. Juninho, destaque do Los Angeles Galaxy, nunca teve chance no São Paulo e só apareceu para o futebol já nos Estados Unidos. Michel, lateral esquerdo, surgiu no Atlético Mineiro, teve passagem pelo Atlético Paranaense, mas não chegou a ser destaque. Gilberto, assim, se torna um dos poucos brasileiros que jogou e foi destaque de um Campeonato Brasileiro entre os compatriotas que estão na MLS. E isso não é pouca coisa.

Com um bom salário e uma cidade com boa qualidade de vida, Gilberto sabe que precisará ser decisivo para o time, afinal, ele é um dos jogadores designados. Na MLS, isso significa que ele pode receber um salário acima do teto, que é de US$ 350 mil por temporada, equivalente, na cotação atual, a R$ 815 mil. Seria equivalente a algo como R$ 67 mil mensais. O jogador designado pode ganhar um salário bem acima disso, mas contará como US$ 350 mil para a folha salarial, que é de US$ 2,95 milhões por temporada (algo como R$ 6,87 milhões). Cada time pode ter três desses jogadores. As maiores estrelas da MLS, em geral, são os jogadores designados, como Landon Donovan e Robbie Keane, no Los Angeles Galaxy, Thierry Henry e Tim Cahill, do New York Red Bulls. Ou como foi David Beckham, até 2012.

E por que pagar um salário acima do teto por um jogador como Gilberto? Porque a MLS precisa aumentar o seu nível e um jogador como ele ajuda o Toronto a fazer isso no seu time. É um atacante que chuta muitas vezes a gol, teve boa precisão e um bom número de gols marcados pela Portuguesa, um time que brigou para não cair em um campeonato duro como o Brasileiro. Como não há muitos jogadores desse nível indo para a MLS, Gilberto aproveita esse mercado pouco explorado para conseguir um excelente salário. E isso pode chamar a atenção de quem está no Brasil. O atacante pareceu estar bastante consciente da situação.

“Eu estou chegando em um time muito bom. Eu também gosto da qualidade de vida aqui. E quero abrir um novo mercado na MLS para os brasileiros. A primeira coisa é ganhar títulos”, disse um ambicioso Gilberto ao jornal Toronto Star, quando sua transferência foi confirmada. “A MLS tem muito espaço para crescer. E eu quero ser parte do trabalho para fazer a MLS crescer”, declarou ainda o atacante, ex-Santa Cruz. Gilberto deve ter trabalho. O Toronto não consegue chegar nos playoffs da MLS desde que foi fundado, em 2007. A melhor posição que o time já conseguiu na temporada regular foi um quinto lugar nas temporadas 2009 e 2010. Em 2011, conseguiu chegar à semifinal da Concachampions como campeão canadense – disputa que normalmente envolve os poucos times canadenses da MLS, já que o país precisa ter um representante na competição continental. Chegar aos playoffs já fará a chegada de Gilberto ter valido a pena para o Toronto.

O Campeonato Brasileiro é difícil e a MLS está alguns degraus abaixo. A tendência é que alguém como Gilberto se firme como um destaque é grande. O atacante tem tempo para jogar bem e fazer com que outros brasileiros olhem a MLS como um mercado mais promissor que, por exemplo, Arábia Saudita, Catar ou Emirados Árabes, onde o choque cultural é muito maior. Com a qualidade de vida das cidades dos Estados Unidos e Canadá e salários altos, a MLS pode se tornar um mercado de atração para jogadores do Campeonato Brasileiro. O salário não é um problema para tirar um jogador do Brasil para levar à liga. Aliás, nem do Brasil e muito menos de outros países da América do Sul. Além disso, os próprios times da MLS irão olhar com mais afinco para o Brasil em busca de jogadores.

Alguns jogadores do Campeonato Brasileiro certamente ajudariam muito a MLS. Para ficar em dois que estão sem clube, Dida, que não renovará com o Grêmio, e Paulo Baier, que não deve ficar no Atlético Paranaense. Dois veteranos, mas que podem fazer diferença em um time da MLS, ganhando um bom salário. Isso sem falar em outros como Zé Roberto, que ficou na reserva e insatisfeito no Grêmio nos últimos meses, Elano, que tem um salário alto, mas ainda tem bons anos de futebol pela frente, Luís Fabiano, que está em má fase no São Paulo e tem um salário difícil de ser pago por outro clube brasileiro, ou mesmo jogadores como Danilo e Emerson Sheik, do Corinthians, veteranos que podem ser úteis e que estão em baixa no Brasil no momento.

Ninguém acha estranho que jogadores deixem os clubes para atuar em mercados como o Oriente Médio, China ou Japão. Um dos argumentos que se usa contra a MLS é a falta de visibilidade. Perto de mercados como os citados, os Estados Unidos têm mais destaque. Então, ao que parece, a MLS pode entrar nessa lista de destinos de jogadores brasileiros. E, provavelmente, uma transferência como a de Gilberto será corriqueira.